Reencontro com a prática de Ordem Unida impulsiona jovem a retomar vida espiritual
Atividade ensina disciplina e transforma a rotina de jovens que participaram do Campori Gaúcho

Dentre as muitas atividades propostas pelo Clube de Desbravadores, uma em especial envolve e desperta a paixão da maioria dos participantes: é o caso da Ordem Unida, um conjunto de comandos e movimentos realizados em marcha por grupos, tropas, pelotões ou bandas marciais. No contexto do Clube de Desbravadores, a prática da Ordem Unida não possui um caráter militar, mas serve para proporcionar desenvolvimento de itens como disciplina, trabalho em equipe, autocontrole, organização, além de colaborar com aspectos físicos.
No Campori Gaúcho, os 208 clubes participantes tiveram a oportunidade de apresentar evoluções preparadas para instrutores experientes, que avaliaram o desempenho de cada grupo. Flavianne Stenzel, instrutora do Clube Lobos da Ilha, de Torres, estava ansiosa com a apresentação. A dedicação à Ordem Unida vem desde a adolescência, quando ela integrava outro clube — o Águias do Sul — da mesma cidade. “Mesmo sendo desbravadora, eu posso dizer que era como um braço direito do diretor naquele período. Sempre me dediquei muito às atividades, sempre amei o momento da ordem unida no clube, as evoluções que fazíamos e tudo mais”, recorda a jovem.
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No entanto, aos 16 anos, influências externas a afastaram, aos poucos, do rotina do clube e da igreja, situação que se estendeu por alguns anos. Porém, uma mudança, que começou de forma inesperada, ocorreria anos depois. Trabalhando como personal organizer (pessoal especializada em deixar espaços e rotinas organizadas) na casa de sua chefe, Flavianne conheceu Walmir Coelho, um rapaz que realizava serviços gerais no local. Ao conversarem, ele revelou ser diretor de um Clube de Desbravadores e que estava precisando de ajuda, em especial, na pratica de Ordem Unida — oportunidade perfeita para Flavianne, que ainda guardava amor pela atividade.
Mesmo sem estar mais inserida na rotina da igreja, ela se sentiu motivada pelo convite e pelo convívio com o grupo. “E é aquela coisa, né... Uma vez desbravadora, desbravadora sempre. Quando ele me disse isso, eu falei: ‘e se eu te contar que eu amo Ordem Unida e que até hoje não esqueci nenhum comando?’”, resgata.
No domingo seguinte, Flavianne já estava oferecendo sua primeira instrução aos adolescentes e jovens. Ela lembra que o início foi desafiador. “Eles tinham, talvez, uns dois ou três anos de existência, pelo que me lembro, mas no aspecto da ordem unida, era como se estivessem começando agora. Fora que, eles não gostavam muito de mim no início por conta da minha voz de comando um pouco mais forte, meu jeito um pouco mais enérgico... Mas comecei a treiná-los e, com o tempo, isso tudo mudou. Eles passaram a ter muito carinho comigo e a me respeitar demais”, revive a jovem.

Com o convívio diário e o contato constante com os desbravadores, Flavianne percebeu que estava, aos poucos, inclinada a retomar sua vida espiritual. O Campori de Desbravadores realizado Osório, em 2022, da qual foi convidada pelo clube a participar, consolidou, enfim, essa decisão. “Ali, eu percebi profundamente que a alegria e a felicidade deles era muito diferente daquela que eu vivia, de quando eu ia pras festas... Praticamente todo mundo tinha que beber pra ficar feliz. Só que, quando aquele suposto brilho inicial passava, já era, tudo acabava, então vi que aquela era uma felicidade passageira, que não era real. Era uma mentira. Naquele campori, eu senti uma alegria por dentro que transbordava minha vida. E daí eu, disse assim pra mim mesma: ‘Quer saber? Nunca mais eu faço isso. Eu vou me rebatizar esse mês’”, relata.
A cerimônia do rebatismo ocorreu em abril de 2023. Até hoje, Flavianne continua dedicada à Ordem Unida, ensinando tanto os jovens desbravadores quanto os líderes que irão conduzir outros clubes da região. “Agora essa é a minha meta, que meus líderes façam o que eu já faço para que eu ensine os outros clubes a também crescer na nossa região. Quero que todo mundo evolua demais na prática dessa atividade”, reforça.
Disciplina que influencia outras áreas
Enquanto isso, outros clubes também se destacaram nas apresentações de Ordem Unida no Campori Gaúcho. É o caso do Clube Luzeiros da Lagoa, do município gaúcho de São José do Norte. Daniel Costa, instrutor da atividade no clube, conta sua trajetória. “Entrei um ano antes da idade requerida – que é de 10 a 15 – porque não tinha Clube de Aventureiros na nossa cidade nessa época. Foi muito difícil no início, mas a gente foi treinando, treinando e cada vez mais, eu fui me apaixonando mais pelo clube, pela Ordem Unida e foi aí que aprendi também a ensinar. Agora, a gente vê esse resultado hoje, colhendo os frutos com os nossos desbravadores na ordem unida”, detalha o instrutor.

Segundo Daniel, a Ordem Unida vai muito além do aspecto físico: “Nessa atividade, a gente aprende realmente a trabalhar em equipe e isso acaba servindo para qualquer área da vida. A nossa disciplina, o senso de equipe, tudo faz muita diferença em todas as áreas, tanto na igreja, quanto no trabalho, tanto em casa, na família... Acredito que, em relação a resultados, é tão importante quanto outros aspectos que o clube trabalha”, opina Daniel.
O preparo dos desbravadores, conforme o instrutor, exige meses de treinamento intenso. “A gente tá mais ou menos, acho que desde maio, trabalhando firme nesse quesito. São todos os encontros trabalhando bem e nas etapas de eliminatórias também foram vários encontros, alguns extra clube durante a noite, então foi mais ou menos uns seis, sete meses que treinamos para ter um nível de excelência para vir aqui e almejar um troféu”, revela.
Para os participantes, a experiência vai além da disciplina técnica. Vitor Benjamim, 16 anos, lembra do aprendizado e da convivência que teve ao longo dos anos na agremiação. “Eu não era tão rápido como hoje nos movimentos, mas praticando, eu consegui assimilar as coisas. Tinham sim vezes em que vinham comandos que eu não conhecia, que não sabia fazer como o pessoal mais experiente, mas na hora, a gente acaba aprendendo. É só prestar atenção”. Sobre trabalhar em equipe e ajudar os outros, Vitor acredita que a mesma paciência que tiveram com ele precisa ser exercida com o semelhante. “A gente tem que ajudar quem está ao nosso redor a ter paciência, né? Porque, muitas vezes, o desbravador novo entra, se interessa pela Ordem Unida... Então a gente tem que ter sempre paciência para ensinar e aprender com nossos erros e os dos outros”, analisa.
Vitor lembra também da importância da orientação dos líderes. “O Daniel sempre passou os comandos para nós. Inclusive, uma das coisas que eu e alguns demoraram bastante para aprender bem foi o comando ‘acelerado’, mas depois a gente manteve a calma, treinou, ensaiou, arrumamos inclusive uns treinamentos durante a semana e conseguimos aprender bem isso aí”, conclui.
