Atleta e medalhista paralímpica realiza sonho de se tornar desbravadora
Suélen Rodolpho, que foi destaque internacional por anos na esgrima em cadeira de rodas, recebeu o lenço amarelo e foi batizada junto à filha no Campori Gaúcho em Gravataí

O brilho nos olhos de Suélen Rodolpho ao receber o lenço amarelo do Ministério dos Desbravadores, no dia 22, durante o Campori Gaúcho, tinha mais que emoção. Tinha história. Espera… Aos 34 anos, a mãe de Laura (10 anos), de Amanda (4) e ex-atleta da Seleção Brasileira de esgrima em cadeira de rodas finalmente viveu um sonho que alguns achavam impossível na infância — participar da agremiação que sempre admirou.
O Parque de Eventos de Gravataí, no Rio Grande do Sul, foi palco de algo maior do que uma cerimônia em que ela foi reconhecida de forma oficial como desbravadora. Ali, entre barracas, trilhas e canções, Suélen concluiu um caminho de retorno à Igreja e a uma comunidade na qual hoje ela se sente, de fato, integrada e acolhida.
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Quem observa o semblante de Suélen hoje, com 34 anos, dificilmente imagina os desafios que enfrentou. “Sou a caçula de quatro irmãos e, na hora do meu nascimento, minha mãe descobriu a minha deficiência”, detalha. Ela nasceu com mielomeningocele — má formação da coluna que pode ocorrer durante as primeiras semanas de gestação, com chances de causar paraplegia e outras complicações.
Aos dois meses de vida, passou por sua primeira cirurgia de correção. Na infância, conseguiu caminhar com apoio de muletas, enfrentou diversos procedimentos, fisioterapia e longos períodos em hospitais. Já na adolescência, uma complicação decorrente da cirurgia inicial prendeu sua medula e interrompeu a capacidade de caminhar. Tinha apenas 16 anos quando ouviu do médico que seria preciso decidir: arriscar um novo procedimento sem garantia de melhora ou aceitar o uso permanente em cadeira de rodas.
A adolescente, então, escolheu o caminho da autonomia, mesmo sabendo que isso exigiria uma nova adaptação. Sua estrutura familiar, no entanto, seria essencial dali em diante. “Eu tive uma base familiar muito boa. Minha mãe era enfermeira e sempre me incentivou a fazer tudo que eu podia fazer. Além disso, eu nunca tive vergonha da minha cicatriz. Ela é a minha história”, afirma.
Esporte que mudou sua trajetória

Foi também aos 16 anos que Suélen conheceu uma modalidade esportiva que se tornaria sua paixão: a esgrima em cadeira de rodas. Morando em Taquara, viajava três vezes por semana para Porto Alegre com apoio da prefeitura para treinar. Não demorou para que viessem dois convites que reconheceriam seu talento. “Na segunda semana em que eu estava treinando, me convidaram para competir e, ainda no mesmo ano, cerca de seis meses depois, me chamaram para fazer parte da Seleção Brasileira”, conta, ainda surpresa com a rapidez dos acontecimentos.
Vieram, então, anos representando o país, viajando pela França, Canadá, Alemanha, Polônia, Hungria, Itália, Japão… o que lhe rendeu mais de uma centena de medalhas em torneios nacionais e internacionais. “Inclusive, cheguei a liderar o ranking nacional da minha categoria por uns sete anos… e participei também dos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro em 2016 por conta de uma vaga que foi aberta depois da divulgação do doping envolvendo atletas da Rússia”, recorda.
No entanto, ser atleta da Seleção tinha um preço. As viagens eram frequentes e o tempo cada vez mais escasso. Em 2018, quando sua filha Laura havia completado 5 anos, a esgrimista decidiu deixar a equipe e se dedicar mais à família — mas sem abandonar por um tempo as competições nacionais.
Retorno inesperado
Embora fosse filha de uma família adventista de terceira geração, Suélen relata que, na adolescência, acabou se afastando da vida comunitária. Ela lembra que desejava integrar o Clube de Desbravadores, mas, na época, não encontrou condições que a fizessem permanecer. Hoje, sem mágoas, revisita aquele período com serenidade e reconhece que sua jornada de retorno veio no tempo certo.
Mas antes disso acontecer, enquanto morava em Porto Alegre, no ano de 2022, Suélen atravessou a perda do marido — um acontecimento abrupto, difícil de abarcar em palavras, que alterou de forma profunda o curso da sua vida. Ainda assim, entre as exigências do cotidiano e a fé que nunca abandonou completamente, ela encontrou caminhos para seguir com as filhas, passo a passo, até que outros capítulos começassem a se desenhar adiante.
Novas mudanças vieram quando retornou a Taquara e passou a levar a filha Laura às reuniões do Clube de Aventureiros — já que a menina ainda não tinha idade para participar do outro ministério. Acompanhando a rotina da filha, se viu cada vez mais próxima novamente da comunidade que havia deixado para trás. Foi nesse reencontro simples que surgiu o convite inesperado e, no fundo, tão sonhado.

Oração respondida
Efraim Melo, diretor do Clube de Desbravadores da igreja local naquele período, lembra exatamente do dia em que sentiu que precisava chamá-la. “Eu estava indo para o trabalho e, então, veio um pensamento insistente: convida ela”, conta. Ao receber o convite, Suélen reagiu com profunda emoção. Confessou que orava em particular para que alguém, algum dia, a convidasse para participar — e que não tomava a iniciativa por se sentir envergonhada.
Ela não apenas ingressou no clube: passou a fazer parte ativa da equipe, reencontrando seu caminho. “O clube precisa ser inclusivo. Todo mundo ajuda. O mais bonito disso tudo é ver a felicidade dela. A alegria que a gente observa nela também deixa a gente feliz”, reflete o líder.
O sonho que também se cumpriu na filha
O pastor atual da igreja que ela frequenta, Joezer Mello, testemunhou de perto não apenas o retorno espiritual, mas o renascimento emocional de Suélen. “É interessante porque ela dizia que estava realizando o sonho de ser ‘desbravadora’ na vida da filha. Então, quando ouvi isso, eu disse: ‘mas por que só nela? Você também pode ser!’”, relembra.
Movida pelo incentivo e pela nova caminhada de fé, Suélen tomou a decisão de demonstrar sua fé de forma pública por meio do batismo. Desde o início do Campori Gaúcho, na última quinta-feira, ela se emocionava ao ver outros desbravadores serem batizados. “E ela fazia questão de frisar: ‘depois de amanhã vai ser o meu. Serei eu dentro do tanque’. Então, todo esse momento foi bastante especial”, ressalta Mello.
Para tornar o dia ainda mais marcante, a filha Laura — que já estudava a Bíblia há algum tempo — também foi batizada na mesma ocasião. Pouco depois, Suélen realizou seu aguardado desejo: recebeu o lenço, símbolo máximo do clube que por tantos anos sonhou em usar.

Uma trajetória que inspira
Há nove meses na agremiação, Suélen já participou de acampamentos, viu a filha completar 10 anos e ingressar oficialmente nos desbravadores. Inclusive, ela foi convidada para servir na liderança como conselheira e vivenciou experiências marcantes ao cumprir requisitos de especialidades como Cães, Origami e Natação.
Quando fala sobre deficiência, Suélen amplia o horizonte. “Todo mundo tem suas particularidades. A gente não pode deixar as coisas ruins afetarem a gente. Se alguém olha torto para mim, eu nem percebo mais hoje em dia. Eu foco no objetivo que eu quero alcançar e vivo normalmente”, defende.
No dia a dia, Suélen trabalha como bibliotecária no Instituto Adventista Cruzeiro do Sul (IACS), onde também estudam suas filhas, rotina que ela cumpre com bastante determinação. “A minha convicção é de que quero estar, um dia, lá no céu, andando perfeitamente junto às minhas filhas”, projeta.
Hoje, com o lenço no pescoço e um testemunho que fala por si, ela não é apenas uma nova desbravadora; é um símbolo vivo de como comunidades que acolhem transformam trajetórias inteiras.

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