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Edson Nunes

Edson Nunes

Texto e Contexto

Um convite mensal para estudo do texto bíblico e consequente maravilhamento com ele.

Prosa e poesia na Bíblia Hebraica – Parte 2

A narrativa poética tem objetivos específicos para auxiliar na compreensão do texto bíblico (Foto: Shutterstock)

Em continuidade ao que vimos no artigo anterior, em Juízes 4:21 e 5:26-27 percebe-se um pouco mais da relação entre poesia e prosa, e é possível vislumbrar mais nitidamente os efeitos intensificadores do paralelismo e apontar os elementos poéticos que demonstram a diferença entre a prosa e a poesia dentro da Bíblia Hebraica (BH).

Juízes 4:21 diz:

“E pegou Jael, mulher de Héber, a estaca da tenda e colocou o martelo em sua mão
e foi até ele suavemente
e levou a estaca em sua têmpora e lançou na terra e ele caiu em sono pesado e desmaiou- se e morreu.”

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Em Juízes 5:26-27 se lê:

“Sua mão para a estaca ela enviou
e sua direita para o martelo dos trabalhadores e golpeou Sísera
e destruiu sua cabeça
e despedaçou e varreu a têmpora dele.
Entre seus pés prostrou-se, caiu, deitou, entre seus pés prostrou-se, caiu,
aonde prostrou-se, lá caiu, morto.”[1]

É perceptível, no relato poético (Juízes 5), o uso da repetição de palavras-chave, especialmente verbos. A repetição não apenas cria uma forte ênfase na cena da morte de Sísera, dando ar cataclísmico, como também segmenta o relato e adia o clímax, intensificando-o e envolvendo o leitor emocionalmente na cena.

Primeiro, o autor usa quatro verbos para descrever a ação de Jael contra Sísera: golpear, destruir, despedaçar e varrer. Depois, ele lista sete verbos para detalhar a queda do general caananita: são três vezes o verbo “prostrar-se”, três vezes o verbo “cair” e uma vez o verbo “deitar”.

A forma como o autor construiu o verso parece querer criar uma imagem permanente, como uma espécie de fotografia, o que claramente não parece acontecer com a narrativa de Juízes 4:21.

Mensagem reforçada

O relato em prosa (Juízes 4), comparado ao poético, parece não ter a mesma força, embora também haja um certo adiamento no relato da morte – Sísera é lançado por terra, cai, desmaia e morre. Ou seja, embora tenha havido o uso do mesmo recurso, a sequência de verbos, o efeito é distinto. Isso porque os verbos utilizados na Canção de Débora (Juízes 5:26-27) são repetidos e colocados em uma sequência de intensidade, o que não ocorre na narrativa de Juízes 4:21.

A relação de forma e conteúdo evidenciada em Juízes 5:26-27 aponta que o autor não está interessado em apenas narrar a morte de Sísera pelas mãos de Jael. Ele quer enfatizar que Sísera não apenas morreu, mas foi humilhado. Sísera morre drasticamente nas mãos de uma mulher, terminando prostrado, caído e morto entre os pés dela.

A repetição excessiva e intencional dos verbos em Juízes 5:26-27 indica a intenção do poeta de prolongar a ação e, ao mesmo tempo, intensificá-la, tornando-a, em certo ponto, épica, inesquecível e definitiva.

Diversas partes dos discursos proféticos e quase a totalidade dos chamados “Livros Poéticos” (Salmos, Provérbios, Cântico dos Cânticos, Lamentações, etc.) carregam exatamente essas características apontadas no trecho poético de Juízes 5. Portanto, entender como os recursos poéticos da BH influenciam o texto bíblico ajuda a entender a mensagem que está sendo passada.


Bibliografia

ALTER, Robert. The Art of Biblical Poetry. New York: Basic Books, 1985.

BERLIN, Adele. The Dynamics of Biblical Parallelism. Indianapolis: Indiana University Press, 1985.

HAUSER, Alan F. Two Songs of victory: a comparison of Exodus 15 and Judges 5, in: FOLLIS, Elaine R. (ed). Directions in Biblical Hebrew Poetry. Sheffield, England: Sheffield Academic Press, 1987. p. 265-284. (Journal for the Study of the Old Testament Supplement Series, 40).

NICCACCI, Alviero. Analysing Hebrew Poetry. In: Journal for the Study of the Old Testament, vol. 74. Sheffield, England: Sheffield Academic Press, 1997. p. 77-93.

__________. The Biblical Verbal System in Poetry. In: FASSBERG, Steven E. E HURVITZ, Avi (eds). Biblical Hebrew in Its Northwest Semitic Setting: typological and historical perspectives. Jerusalem: Magna Press, 2006. p. 247-268. O’CONNOR, M. Hebrew Verse Structure. Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 1980.

NUNES JR., Edson M. Poesia Hebraica Bíblica: uma introdução. Engenheiro Coelho, SP: Unaspress; Terceira Margem do Rio, 2016. (Estudos em Literatura Bíblica, 2).

OGDEN, Graham S. Poetry, Prose, and their Relationship: some reflections based on Judges 4 and 5. In: WENDLAND, Ernst R. (ed). Discourse Perspectives on Hebrew Poetry in the Scriptures. New York: United Bible Society, 1994. p. 1-27. (UBS Monographs Series, 7).

[1] Versificação e tradução de ambos textos é pessoal.

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