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Edson Nunes

Edson Nunes

Texto e Contexto

Um convite mensal para estudo do texto bíblico e consequente maravilhamento com ele.

Prosa e poesia na Bíblia Hebraica

A poesia é um dos gêneros encontrados em alguns textos do livro sagrado do cristianismo (Foto: Shutterstock)

A diferenciação entre prosa e poesia na Bíblia Hebraica (BH) é tema recorrente nas últimas décadas. Desde a acusação de James Kugel de que o uso da terminologia “poesia” para descrever qualquer seção da BH seria uma imposição estrangeira ao mundo bíblico (1981, p. 69), boa parte da discussão centra-se na dificuldade de se estabelecer uma linha divisória entre ambas. Michael O’Connor enfatiza isso ao escrever: “A diferença entre prosa e verso, apesar de ser, provavelmente, universal, é impossível de ser descrita de qualquer modo simples” (1980, p. 66).

Na BH, a diferença básica entre poesia e prosa não se dá pela versificação poética, como pode se verificar em diversas línguas, como o português. A diferença se dá pela presença mais acentuada de certos elementos literários, também comuns à prosa. Entretanto, embora haja uma área de sobreposição no uso dos elementos literários comuns à ambas, a distinção é mais quantitativa e não qualitativa. Quer dizer, os mesmos recursos são usados de maneira concentrada e frequente na poesia hebraica bíblica.

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Além disso, é preciso notar que diversos outros termos em hebraico são utilizados para se referir a porções que, desde antigamente, são reconhecidas como poéticas. Por exemplo, um termo específico, שִֽׁיר, que significa ‘cântico’, ‘canção’, aparece em diversos contextos sozinho (Juízes 5:12; Salmo 65:1; etc) e, em outros, carregando uma espécie de qualificativo, indicando, segundo alguns autores, gêneros poéticos.

Outro termo é מִזְמ֥וֹר, que significa ‘salmo’. Ele aparece em cerca de 57 salmos e, às vezes, combinado com שִֽׁיר (Salmo 67:1; 68:1). Além desses, as palavras קִינָ֔ה e מָשָׁל, significando, respectivamente, ‘lamento’ e ‘provérbio’, ou ‘ditado’, compõem alguns dos termos que marcam porções reconhecidas e analisadas como poéticas.

Para exemplificar o uso dos termos citados acima como marcadores de um estilo literário diferente de uma narrativa comum, temos o uso de שִֽׁיר no texto de Juízes 5. Através desse exemplo, demonstra-se a diferença entre prosa e poesia, bem como se evidencia a presença de elementos característicos da Poesia Hebraica Bíblica (PHB). Isso porque, embora os capítulos 4 e 5 do livro de Juízes sirvam a propósitos diferentes, são duas versões do mesmo relato. O capítulo 4 conta sobre a batalha de Israel contra Sísera e seu desfecho, enquanto no capítulo 5 se canta/celebra essa vitória.

Em um determinado trecho, em Juízes 4:19, lê-se:

אֵלֶ֛יהָ וַיֹּ֧אמֶר

הַשְׁקִינִי־נָ֥א מְעַט־מַ֖יִם

כִּ֣י צָמֵ֑אתִי

וַתִּפְתַּ֞ח אֶת־נֹ֧אוד הֶחָלָ֛ב

וַתַּשְׁקֵ֖הוּ וַתְּכַסֵּֽהוּ׃

E disse a ela:

Dá-me de beber, por favor, um pouco de água

pois estou sedento

e ela abriu um odre de leite

e deu a ele de beber e o cobriu.

 

 

A mesma situação é apresentada em Juízes 5:25:

מַ֥יִם שָׁאַ֖ל

חָלָ֣ב נָתָ֑נָה

בְּסֵ֥פֶל אַדִּירִ֖ים

הִקְרִ֥יבָה חֶמְאָֽה׃

Água ele pediu

Leite ela deu

Em tigela nobre

Ela trouxe nata.[1]

 

Estrutura

Comparando esses dois textos, é possível notar paralelismo nos dois trechos. Em Juízes 4:19, a mesma raiz שׁקה (“dar”) é repetida no pedido de Sísera, e na resposta de Jael, os termos semanticamente correlatos, ‘leite’ e ‘água’, também se posicionam como complementos diretos do verbo. Já em Juízes 5:25 o paralelismo é estrutural e enfatiza o contraste entre o que Sísera pede (água) e o que Jael lhe dá (leite).

Também é relevante que no relato de Juízes 4:19 há linearidade narrativa, pois há um verbo de pedido e um de resposta (o mesmo שׁקה), ao passo que no relato de Juízes 5:25 há uma segmentação comunicativa, com um verbo para o pedido de Sísera (שָׁאַ֖ל) e dois para a ação-resposta de Jael (נָתָ֑נָה e הִקְרִ֥יבָה). Além disso, no primeiro texto há o paralelo ‘água’ e ‘leite’ que, embora também apareça no segundo, ocorre com um acréscimo (a nata e a tigela nobre), que acaba funcionando como uma intensificação derivada do incremento na exposição da história em Juízes 5:25, ausente em Juízes 4:19.

Outra característica é a concisão de Juízes 5:25, facilitada pela frequente omissão do artigo definido, do indicador do objeto direto e do pronome relativo – ה, את e אשר respectivamente. A omissão dessas partículas, chamadas de ‘partículas de prosa’ é de tal relevância que a PHB é definida por alguns segundo a ocorrência ou não delas.

O uso de paralelismo na prosa e na poesia, entretanto, é diferente. A poesia é construída sobre paralelismo, enquanto a prosa (não-poesia), embora contenha paralelismo, não estrutura sua mensagem sobre o mesmo. Assim, a PHB contém estruturas de intensificação de maneira mais constante, em uma sequência textual mais concentrada, compacta e densa.

Ao ler a poesia na Bíblia, é preciso estar atento a sua beleza para entender sua mensagem, pois o conteúdo subsiste na forma!


Referências

ALTER, Robert. “As Características da Antiga Poesia Hebraica”. In: ALTER, Robert e KERMODE, Frank (eds.) Guia Literário da Bíblia. Trad. Raul Fiker. São Paulo: Editora Unesp, 1997.

ALTER, Robert. The Art of Biblical Poetry. New York: Basic Books, 1985.

ANDERSEN, Francis I.; FORBES, A. Dean. “Prose Particle Counts of the Hebrew Bible”. In: MEYERS, Carol L.; O’CONNOR, M. (eds.). The Word of the Lord Shall Go Forth: essays in honor of David Noel Freedman in celebration of his sixtieth birthday. Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 1983.

BERLIN, Adele. The Dynamics of Biblical Parallelism. Indianapolis: Indiana University Press, 1985.

BUBER, Martin; ROSENZWEIG, Franz. Scripture and Translation. Indianapolis: Indiana University Press, 1994. (Indiana Studies in Biblical Literature)

FOKKELMAN, J. P. Reading Biblical Poetry: an introductory guide. Louisville, KY: Westminster John Knox Press, 2001.

FREEDMAN, David Noel. Pottery, Poetry, and Prophecy: studies in early Hebrew poetry. Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 1980.

KUGEL, James L. The Idea of Biblical Poetry: parallelism and its history. New Haven: Yale University Press, 1981.

NICACCI, Alviero. “Analysing Hebrew poetry”. In: Journal for the Study of the Old Testament, vol. 74. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1997.

NUNES JR., Edson M. Poesia Hebraica Bíblica: uma introdução. Engenheiro Coelho, SP: Unaspress; Terceira Margem do Rio, 2016. (Estudos em Literatura Bíblica, 2)

O’CONNOR, M. Hebrew Verse Structure. Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 1980.

[1] Versificação e tradução própria.

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