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O milagre de Hiroshima

A informação compartilhada por uma garotinha mudou a vida de uma jornalista japonesa e a levou a entregar sua vida a Jesus

Por Ryoko Suzuki 8 de setembro de 2020

Na foto, resultado da detonação da bomba atômica em Hiroshima (esquerda) e Nagazaki (Foto: George R. Caron/Charles Levy)

No dia 6 de agosto de 1945, Hiroshima, no Japão, tornou-se a primeira cidade da história a ser destruída por uma bomba nuclear. Embora a devastação e a perda de vidas tenham sido atrozes, 75 anos depois daquele evento, reflita sobre as histórias dos membros da Igreja Adventista do Sétimo Dia de Hiroshima – todos os quais sobreviveram. — Os editores.

Retrato de Asako Furunaka (Foto: Divulgação)

Asako Furunaka nasceu em 12 de agosto de 1921, filha de um empresário bem-sucedido no Japão. Determinada e muito inteligente, frequentou a escola noturna após se formar como professora. Aos 32 anos, se tornou repórter de um jornal, uma coisa rara para uma mulher de sua época. Ela se casou com um professor universitário e, embora eles não viessem a ter filhos, ela tinha uma vida feliz.

Um dia, aos 20 e poucos anos, a vida de Asako foi estilhaçada quando seu marido confessou que tinha uma amante e queria o divórcio. Sentimentos de desespero e raiva a dominaram; tristeza e ódio pelo marido encheram seus dias e noites. Ela sentiu que nunca mais poderia acreditar em nada e caiu em uma depressão profunda.

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Quando a vida estava no pior momento, alguém convidou Asako para ir a um templo adventista, e ela começou a frequentar regularmente. Ela aprendeu sobre o perdão e encontrou esperança na Bíblia. A paz retornou ao seu coração. Mas na época ela não conseguia decidir ser batizada.

Histórias inacreditáveis

Por causa de suas habilidades e qualificações, Asako foi convidada para ser a professora de Bíblia das crianças na igreja. Ela aceitou com alegria o cargo e começou a ensinar as lições da Escola Sabatina das crianças. Um dia, a lição era sobre a história do livro de Daniel sobre os três jovens que foram mantidos em segurança apesar de terem sido jogados em uma fornalha ardente.

Ela ensinava a lição fervorosamente, mas quando terminou, um dos garotinhos exclamou: “Eu não acredito nisso!” Então, uma das meninas disse: “Eu acredito, porque minha avó me disse que nenhum membro da Igreja Adventista de Hiroshima morreu quando a bomba atômica foi lançada em Hiroshima.”

Ao ouvir aquilo, Asako percebeu que, embora estivesse ensinando a lição, ela também não acreditava realmente, nem podia acreditar no que a garotinha havia dito. Mas, ao mesmo tempo, um pensamento veio à mente: Eu sou uma repórter de jornal, não sou? Eu deveria conseguir descobrir se o que essa garota disse é verdade ou não. Eu deveria verificar isso. Assim, começou sua jornada para visitar cada um dos membros da Igreja que estavam em Hiroshima quando a bomba explodiu.

Dia fatídico

A primeira bomba atômica do mundo foi lançada em Hiroshima, Japão, em 6 de agosto de 1945. Ela destruiu tudo em um raio de 2 quilômetros: a temperatura do chão alcançou inimagináveis 6.000 °C. Todas as pessoas em um raio de 4 quilômetros morreram queimadas.

Um vento tremendo, com velocidade de 4,4 quilômetros por segundo, foi gerado, fazendo com que até mesmo prédios de concreto desmoronassem e vidros quebrados voassem a até 16 quilômetros de distância.

A radiação da bomba era incrivelmente forte, fazendo com que aqueles expostos a ela perdessem todas as funções corporais e suas células sofressem apoptose, um tipo de suicídio celular. Entre a própria explosão, os incêndios resultantes em toda a cidade e as queimaduras de radiação, alguns estimam que 200 mil cidadãos de Hiroshima perderam a vida.

Nenhum adventista ferido

Em meio a toda essa devastação, era realmente possível que nenhum membro da Igreja, mesmo aquele vivendo a menos de 1 quilômetro de onde a bomba atingiu, fosse morto ou mesmo ferido?

Com um coração duvidoso, Asako começou a visitar cada membro da Igreja que estivera lá na época. Ela descobriu que mesmo em meio a todas as terríveis possibilidades de morte naquele dia, nenhum dos membros morreu ou ficou ferido. A garotinha que disse que acreditava que os três fiéis foram salvos da fornalha ardente porque sua avó lhe disse que nenhum membro da Igreja Adventista do Sétimo Dia de Hiroshima se feriu, falou a verdade.

Durante sua investigação, a jornalista ouviu o testemunho de Hiroko Kainou, que, surpreendida pelo vento forte e repentino, caiu de joelhos e orou. Embora todos os pedaços de vidro da casa tenham estourado, ela saiu sem um único arranhão. Dos 20 membros da Igreja Adventista em Hiroshima, todos foram mantidos sãos e salvos.

Iwa Kuwamoto foi uma das sobreviventes da tragédia (Foto: Divulgação)

Iwa Kuwamoto estava a 1 quilômetro do local da bomba. Quando rastejou para fora dos edifícios caídos, ela testemunhou a nuvem gigante em forma de cogumelo gigante que encobriu o sol e envolveu a área na escuridão. Ela tentou desesperadamente ajudar seu marido, um incrédulo, a sair de debaixo da precipitação radioativa, mas grandes incêndios amaçavam se aproximar deles. Segurando a mão do marido, ela disse: “O fogo chegará aqui em breve. Não posso fazer mais nada; vamos morrer juntos. Deus sabe de tudo. Por favor, creia em Jesus Cristo. Eu não posso salvá-lo!”

O marido dela respondeu: “Não, eu morrerei aqui; mas você precisa fugir pelo bem dos nossos filhos. Você precisa de alguma forma ficar em segurança e encontrar as crianças. Faça isso pelas crianças!”

Novamente, ela disse: “Não tem como eu escapar desse fogo. Eu morrerei aqui com você.”

Mas seu marido continuou: “Não! Eu ficarei bem aqui. Por muito tempo eu me rebelei contra minha mãe e contra você e não acreditei em Deus. Mas agora, eu acredito na salvação de Deus, então nós nos encontraremos novamente. Por favor, por favor, vá e encontre as crianças. Por favor, vá!”

Então, com lágrimas ardentes e com o coração partido, ela deixou seu esposo ali e, despejando água sobre si pelo caminho, ela escapou das chamas e finalmente se reuniu com seus filhos.

Mesmo com a situação, Tomiko fez o que pôde para salvar vidas (Foto: Divulgação)

Tomiko Kihara era uma médica que tinha sua própria clínica na época. Ela havia estado de plantão na noite anterior à explosão e havia chegado em casa às 2:00 da manhã. Ela estava dormindo quando a bomba caiu. Embora estivesse a menos de 1 quilômetro do local da explosão, nada caiu sobre ela, e ela não foi ferida de forma alguma. Chocada com a explosão, ela correu para fora para ver o que estava acontecendo, mas tudo o que ela conseguia ver era o chão queimado e enegrecido.

Percebendo a gravidade da situação, ela correu para um hospital na periferia da cidade, e lá por uma semana sem descansar ou dormir, ela trabalhou pelas vítimas como um dos poucos médicos que ainda estavam vivos na cidade após a explosão. Nas semanas e meses que se seguiram à tragédia, ela continuou a usar tudo o que tinha para ajudar as vítimas. Ela conseguiu testemunhar para muitos dessa maneira.

Uma vida de serviço

Como resultado de ouvir essas histórias, Asako Furunaka passou a acreditar totalmente em Deus e foi batizada. Ela recebeu um chamado para compartilhar com outros sobre a fidelidade do Salvador. Aos 58 anos, ela se matriculou no programa de teologia da Univerdade Saniku Gakuin. Após a formatura, ela se tornou uma pastora na Igreja Adventista do Sétimo Dia de Kashiwa e posteriormente trabalhou como instrutora bíblica no templo adventista de Kisarazu.

Após sua jubilação, ela continuou a ser uma evangelista ativa para as pessoas ao seu redor. Ela dizia: “Eu não tenho nenhuma família terrena para me apoiar. Mas eu sei que Deus me ama, então estou contente.”

Maldição que se transformou em bênção

Vista do antigo templo adventista em Hiroshima (Foto: Divulgação)

O governo japonês ordenou que o edifício da Igreja Adventista fosse demolido no verão de 1945. O próprio primeiro ancião teve que supervisionar a demolição da igreja que estava em serviço desde 1917. Foi um dia triste.

Por causa da demolição da igreja, os membros se espalharam. O que parecia ser uma tragédia se transformou em uma benção quando a bomba caiu em Hiroshima. Por causa do desmonte da igreja, apenas 20 dos membros permaneceram em Hiroshima. Todos sobreviveram ao bombardeio.


Ryoko Suzuki serviu como bibliotecária na Divisão Norte-Asiática do Pacífico, localizada na República da Coreia. Seu marido, Akeri Suzuki, era o secretário executivo da Divisão. O casal serviu pastoreando igrejas locais no Japão por mais de 30 anos.

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