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Homossexualidade: Não devemos olhar só para os genes

Novas pesquisas sobre homossexualidade e genética precisam ser analisadas a partir de um olhar técnico. O que realmente há de sólido neste assunto?

Por Tiago Alves Jorge Souza 23 de outubro de 2019

Estudos relacionados à genética, epigenética e homossexualidade dividem especialistas. Análises científicas precisam ser cuidadosas. (Foto: Shutterstock)

Sempre que surge um novo estudo sobre o tema da homossexualidade associado à genética, muita especulação e notícias sensacionalistas são veiculadas. Muitas delas adotam, por vezes, um claro viés ideológico. Não foi diferente com o estudo Large-scale GWAS reveals insights into the genetic architecture of same-sex sexual behavior. O material foi publicado no prestigiado periódico Science no dia 29 de agosto desse ano.

O estudo foi liderado pela cientista Andrea Ganna, e contou com a colaboração de pesquisadores das principais universidades do mundo (por exemplo Harvard, MIT e Cambridge). É uma pesquisa que demonstra metodologia robusta e um grupo amostral respeitável de quase 500 mil pessoas. É considerado, ainda, o maior estudo já realizado que se propôs a investigar a base genética da sexualidade humana.

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Contexto

Precisamos contextualizar as análises que foram feitas nesse estudo. Em primeiro lugar, é importante lembrarmos que o genoma humano é formado por 3 bilhões de pares de nucleotídeos que são representados pelas letras A (adenina), T (timina), C (citosina) e G (guanina). Algumas sequências dentro dessas bilhões de letras formam genes. A espécie humana possui cerca de 20 a 25 mil genes.

No entanto, algumas letras específicas (A, T, C, G) podem variar dentro da sequência do gene de um indivíduo para o outro. Quando uma dessas variações envolve apenas uma letra da sequência gênica e está presente em pelo menos 1% da população, recebe o nome de Polimorfismo de Nucleotídeo Único (SNPs).

As análises conduzidas por Andrea e seus colaboradores correlacionaram as SNPs de cada uma das 492.678 pessoas analisadas com a respectiva preferência sexual. Eles queriam encontrar alguma variação na sequência do DNA que estivesse relacionada com o comportamento homossexual. Apesar de todo o esforço, apenas cinco marcadores genéticos foram estatisticamente correlacionados com o comportamento homossexual. De forma geral, os resultados desse novo estudo não foram muito diferentes dos outros e apontaram que até 25% do comportamento homoafetivo pode ser explicado por componentes genéticos.

Ou seja, esses resultados demonstram claramente que os aspectos culturais e sociais do indivíduo são mais presentes (75%) em relação a aspectos genéticos. É importante ressaltar que aspectos culturais e sociais podem influenciar a dinâmica dos genes por meio de alterações epigenéticas, e essas alterações podem explicar de forma mais satisfatória uma provável tendência à homossexualidade.

Reação à pesquisa

Obviamente, o comportamento humano é extremamente complexo e determinado por diversos fatores. Isso inclui aspectos genéticos, epigenéticos, culturais e sociais. É por isso que o estudo, de forma alguma, representou uma revolução na compreensão das bases do comportamento homossexual.

O prestigiado periódico científico Nature, em nota oficial, escancarou a insignificância dos resultados obtidos por Andrea Ganna e colaboradores. Isso aparece já no título da nota, que diz: “Nenhum ‘gene gay’: estudos maciços se baseiam na base genética da sexualidade humana.” E no subtítulo também: “Quase meio milhão de genomas revelam cinco marcadores de DNA associados ao comportamento sexual – mas nenhum com o poder de prever a sexualidade de um indivíduo.” Ou seja, apesar do esforço de amostra louvável desse estudo, temos de ser realistas quanto à ausência de marcadores genéticos comprovadamente relacionados à homossexualidade.

Infelizmente, o sensacionalismo promovido por alguns meios de comunicação transforma estudos como esse em “provas” inequívocas de que existe uma base genética para a homossexualidade. Há um tipo de manipulação de dados científicos, seja em prol de uma agenda progressista ou conservadora. Isso é extremamente preocupante, pois fere a neutralidade do método científico e ainda promove desinformação entre a população leiga.


Tiago Souza é biólogo, mestre e doutor em Genética pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP). Atualmente leciona  no Centro Universitário Adventista de São Paulo  (Unasp), campus Engenheiro Coelho.


Referências:

GANNA et al. Large-scale GWAS reveals insights into the genetic architecture of same-sex sexual behavior. Science 365, 882, 2019.

KAISER, J. Genetics may explain up to 25% of same-sex behavior, giant analysis reveals. doi:10.1126/science.aaz 3192, 2019.

LAMBERT, J. No ‘gay gene’: Massive study homes in on genetic basis of human sexuality. Nature 573, 14-15. doi: 10.1038/d41586-019-02585-6, 2019.

REARDON, S. Epigenetic ‘tags’ linked to homosexuality in men, doi: 10.1038/nature.2015.18530, 2015

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