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Estudos de Epigenética oferecem explicações sobre homossexualidade

A temática da homossexualidade é estudada por pesquisadores, como o adventista Tiago Souza, dentro da chamada linha da epigenética

15 de fevereiro de 2018

Por Felipe Lemos

 

Ciência avança com pesquisas na área de Epigenética relacionadas a vários comportamentos humanos, inclusive de ordem sexual. Foto: Shutterstock

A temática da homossexualidade pode ser vista por diferentes ângulos, seja do ponto de vista da Antropologia, Sociologia, Teologia e, também, pela Genética. Há várias pesquisas em andamento no mundo que procuram oferecer possíveis explicações para o fenômeno. E algumas delas possuem sua origem na Epigenética, termo que se refere ao conceito que fala das adaptações que animais e plantas podem ter em seus genes sem que sejam alteradas suas sequências, ou seja as suas “letras” (portanto, sem mutações). A Epigenética tem muito mais a ver com a maneira como o gene é ligado ou desligado e está, por isso, bastante associada a mudanças ambientais e comportamentais.

A Agência Adventista Sul-Americana de Notícias (ASN) conversou com um cientista que estuda a homossexualidade a partir da Epigenética. Tiago Alves Jorge Souza é mestre e doutorando em Genética pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP) e atualmente leciona Ciência e Religião no Centro Universitário Adventista de São Paulo  (Unasp), campus Engenheiro Coelho. Souza iniciou seus estudos sobre o tema da homossexualidade há aproximadamente três anos. Ele afirma que um dos fatores determinantes para se aprofundar mais sobre as bases biológicas da homossexualidade foi o convite que recebeu, em 2016, para escrever o artigo Genética e Homossexualidade para a Revista do Ministério da Mulher da Igreja Adventista na América do Sul. Desde então, tem sido convidado a dar palestras sobre esse tema em diversas partes do Brasil. É participante ativo de eventos científicos que abordam temas como sexualidade, homossexualidade e identidade de gênero. 

O que temos atualmente, no mundo, em termos de pesquisas consistentes sobre origem para a homossexualidade? Pode resumir esse panorama atual?

As pesquisas mais consistentes acerca da homossexualidade têm buscado analisar conjuntamente alterações nos mecanismos endócrinos (relacionados a questão hormonal), genéticos e epigenéticos com relação à orientação sexual humana durante as fases pré e perinatais, a fim de buscar conciliá-los com as influências psicossexuais, as quais o indivíduo homossexual está exposto durante sua vida.

Ao mesmo tempo, a Epigenética parece dar algumas respostas interessantes, certo? Aliás, o que é a Epigenética?

A Epigenética é a área que estuda a dinâmica de interação do DNA (molécula que contém toda a informação que determina quem somos) com grupamentos químicos encontrados nas nossas células, os quais podem ativar ou desativar nossos genes. Essa dinâmica é fortemente influenciada pelo estilo de vida adotado pelo indivíduo, ou seja, as nossas escolhas possuem um grande impacto sobre a expressão dos nossos genes. Esse padrão de ativação e desativação pode ser passado durante as divisões celulares e permanecer durante toda a vida do indivíduo, podendo, inclusive, ser transmitido para os seus filhos.

Os estudos na área de alterações hormonais constituem outra linha de explicação. Por que, para alguns cientistas, eles são insuficientes para explicar a questão da origem da homossexualidade?

A importância dos hormônios andrógenos (relacionados à masculinidade) para o dimorfismo sexual é inegável. No entanto, para que haja o desenvolvimento de um fenótipo (nossa aparência) compatível com o genótipo (conjunto de informações contidas em nossos genes) do embrião, a funcionalidade dos receptores desses hormônios é mais importante do que a concentração hormonal propriamente dita. É bem interessante constatar que alterações epigenéticas nos primeiros dias, após a fecundação, podem afetar a dinâmica de interação entre hormônios andrógenos e os seus respectivos receptores, o que pode ter influência sobre o comportamento sexual do indivíduo em sua vida adulta.

O argumento sobre a base biológica para a homossexualidade é muito criticado por aqueles que defendem uma visão que procura identificar razões ambientais. Como você enxerga essa crítica?

Esse debate é resumido pela expressão Nature versus Nurture. Ou seja, há aqueles que sustentam que existe uma base biológica que explicaria a recorrência do comportamento homossexual, ao longo das gerações, enquanto outros acham que ela seria fruto de escolhas ou de influências ambientais às quais o indivíduo foi exposto durante sua vida. No entanto, a Epigenética tem um papel conciliador nesse debate, pois trata da potencial hereditariedade de alterações epigenéticas, as quais podem ser causadas por fatores ambientais. É importante ressaltar, no entanto, que quando falamos de herança epigenética não estamos tratando necessariamente de um determinismo biológico, pois apesar de serem potencialmente herdáveis, essas alterações na expressão dos nossos genes podem ser modificadas ou revertidas ao longo da vida de cada indivíduo.

O que teremos, em curto e médio prazo, sobre novas pesquisas nessa área?

Provavelmente, nos próximos anos as pesquisas no campo da homossexualidade irão buscar elucidar a natureza das alterações epigenéticas relacionadas à homossexualidade e conectá-las aos diversos resultados genéticos, hormonais e ambientais- acerca desse tema – descritos na literatura científica até o presente momento.

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