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Como a igreja pode atuar no acolhimento de homossexuais

Projetos e diálogos, por meio de diferentes iniciativas, instruem e orientam sobre como amparar as pessoas homossexuais no contexto religioso.

Por Anne Seixas 17 de junho de 2021

Igreja Adventista possui claro posicionamento sobre prática homossexual, bem como apresenta clareza a respeito da necessidade de ajuda e acolhimento. (Foto: Shutterstock)

De acordo com um relatório solicitado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, entre 2011 e 2018 uma pessoa homossexual foi assassinada a cada 16 horas. Esse número revela intolerância contra pessoas que se relacionam com pessoas do mesmo sexo.

No contexto religioso, essa violência pode se manifestar de outras formas. “A primeira vez que senti o preconceito foi na igreja, no olhar, nos comentários das pessoas”, conta Otávio Cruz, estudante de 23 anos. Na época com 15 anos, ele estava, pela primeira vez, fazendo estudos bíblicos. Meses depois, se decidiu pelo batismo, mas levou mais algum tempo para que conseguisse entender sua condição de homossexual e cristão.

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A barreira encontrada na igreja não aconteceu somente com Otávio, mas com dezenas de outras pessoas que os demais julgavam aparentar trejeitos homossexuais ou se assumiam como tal. E em diversas organizações, e não apenas em igrejas. Quem conta a história, no ambiente religioso adventista, é Flávio Junior, coordenador do ministério Amizades Verdadeiras, que oferece acolhimento a jovens e famílias de pessoas que vivem essa questão.

Saúde mental

“As pessoas com tendência homossexual têm uma probabilidade muito maior de suicídio, muitas apresentam doenças psiquiátricas e muitas que estão na igreja apresentam questões [a serem resolvidas] com Deus”, explica Junior, graduado em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo (USP), mestre em Microbiologia e doutor em Ciências pela Faculdade de Saúde Pública da USP. O projeto coordenado por ele oferece atendimento psicológico e psiquiátrico para homens, mulheres e familiares. Mas é importante frisar que o suicídio pode ser atribuído a múltiplos fatores, inclusive questões advindas de expressões de preconceito.

Otávio relembra que foi uma época muito difícil, porque, segundo ele, o Deus que estava conhecendo na Bíblia era diferente do Aquele que via na igreja, por meio das pessoas. “Deus é um Deus de amor, e quando eu via essas ações das pessoas que estavam na igreja há muito mais tempo que eu, pensava que não estava batendo”, explica. Nesse período, afirma que pensou em mutilação para lidar com a angústia que sentia.

“Então me disseram para não falar para ninguém”, revela Otávio. Segundo ele, foi um caminho que teve de trilhar sozinho, com crises de ansiedade e muitos pensamentos sobre ser ou não merecedor do amor de Cristo, lembra. “Isso foi me trazendo muita angústia, porque nada do evangelho fazia mais sentido pra mim”, resgata. Seu pensamento foi: “se eu tenho isso e Deus fala que não é legal, por que ninguém me ajuda?”

Acolhimento e informação

Foi quando se deu conta dessa realidade que o pastor Felipe Cayres resolveu ir mais a fundo nas pesquisas para entender a relação entre a igreja e as pessoas homossexuais. Dois de seus irmãos se assumiram enquanto ele era adolescente. Foi nesse mesmo período que Cayres se tornou membro da Igreja Adventista. Na época, não entendia bem todo esse universo.

“Eu precisava de bagagem para entender melhor o meu irmão e para acolhê-lo”, sublinha Cayres. O seu objeto de estudo no curso de pós-graduação na área de Aconselhamento Familiar foi justamente a relação entre a comunidade religiosa e os membros homossexuais.

Em sua jornada como pastor em uma igreja, ele tem trazido esse tema para discussão e afirma que os resultados são positivos. A princípio, “os pais acham que eu sou a salvação para os filhos ou que depois de uma conversa eles deixarão de ser homossexuais”, mas ele afirma que isso não é verdade. O trabalho consiste, em um primeiro momento, em acolher essa família.

Richard Davidson, professor de interpretação do Antigo Testamento e presidente do departamento de Antigo Testamento no Seminário Teológico Adventista do Sétimo Dia da Universidade Andrews, pontua algo importante sobre a luta das pessoas homossexuais. No artigo A homossexualidade e a Bíblia – o que está em jogo no debate atual, de 2012, diz que “muitas vezes, pessoas religiosas que enfrentam sua orientação homossexual ficam bravas com Deus por lhes permitir ter tal orientação e por não parecer estar disposto ou ser capaz de ajudá-los a superar essa inclinação.”

Em todo esse processo, a chave está no diálogo. E foi por meio dessa troca que Otávio entendeu como poderia ser cristão e viver como cristão mesmo sendo homossexual. Em uma das noites de angústia sobre esse assunto, ele orou e decidiu criar uma conta no Instagram para dividir os textos bíblicos que lia. No início, não era algo tão intencional, mas pouco tempo depois passou a receber mensagens de pessoas que vivem o mesmo drama que ele.

E foi assim, ajudando outros, que ele encontrou as respostas que procurava. E é dessa mesma forma que o ministério Amizades Verdadeiras, liderado por Flávio, busca ajudar comunidades religiosas a receber e acolher pessoas homossexuais. Por meio de cursos e palestras, oferece conhecimento para eliminar conceitos pré-concebidos sobre o assunto.

Existe uma grande expectativa de família e igreja de que vai acontecer a “cura gay”. Flávio explica que é possível que uma pessoa que sinta atração pelo mesmo sexo possa vir a ter uma família heterossexual e feliz, porém nem todos alcancarão este objetivo devido a traumas sofridos no passado. E podem, segundo Flavio, viver uma feliz e recompensadora vida de celibato.

Posicionamento bíblico

A Igreja Adventista do Sétimo Dia segue os preceitos bíblicos que desaprovam a prática homossexual. A declaração intitulada Os adventistas e a homossexualidade afirma, por exemplo, que “a Bíblia não faz acomodação para a atividade ou relacionamentos homossexuais”.

No livro A Bíblia e a prática da homossexualidade, o professor de Teologia Robert Gagnon enfatiza o posicionamento bíblico sobre questões relacionadas ao que ele chama de intercurso homossexual (ou prática homossexual).  Ele afirma, nas conclusões da obra, à página 656, que “o intercurso homossexual é veemente e inequivocamente rejeitado pela revelação das Escrituras. Argumentos apresentados pelos defensores da homossexualidade para solapar a relevância contemporânea das Escrituras são fracos. Em vez disso, as Escrituras rejeitam o comportamento homossexual porque é uma violação da ordem de Deus, por ocasião da Criação, para que homens e mulheres existam diferenciados por gênero”.

Ao mesmo tempo, o autor ressalta a necessidade de atenção às pessoas que passam por este tipo de situação. Gagnon registra, também, que “denunciar o intercurso homossexual e em seguida não oferecer ajuda, ativa e sacrificialmente, amorosa e preocupadamente aos homossexuais é ter um evangelho tão distante com o daqueles que confundem o amor de Deus com ‘aceitar as pessoas como são’ e que evitam falar do poder transformador do evangelho”.

Acolhimento

O pastor Alacy Barbosa, diretor do Ministério da Família da Igreja Adventista para oito países sul-americanos, declara: “Deus é o Criador, Pai e Salvador de todos, para Ele não há distinção de pessoas em nenhuma de suas singularidades, nEle somos todos da mesma família humana, àquela que Ele deu a própria vida para resgate de todos. Ele nasceu para derrubar as barreiras e preconceitos, e apontar o caminho da Sua graça e perdão, para que cada pessoa use seu livre arbítrio para submeter-se a Ele como Salvador e Senhor.”

Falando mais especificamente da maneira como tratar as pessoas homossexuais, há algo interessante em artigo publicado na Revista Dialogue, por Ronald M. Springett, PhD e professor de Teologia. Autor do livro Homossexualidade na História e as Escrituras (em tradução livre), ele afirma que “a Bíblia não dá à igreja nenhum mandato para ameaçar o indivíduo com orientação homossexual como o pior pecador de todos.” Springett é autor do livro O limite do prazer  – O que a Bíblia diz sobre a identidade sexual, publicado pela Casa Publicadora Brasileira (CPB). 

Ações práticas

Com essa ideia em mente, Flávio destaca os conselhos que dá a líderes e membros das igrejas, por meio do projeto Amizades Verdadeiras, sobre como receber pessoas que sentem atração pelo mesmo sexo. O primeiro passo é ouvir. Deixar de lado os conceitos pré-concebidos e simplesmente dar atenção ao que esse ser humano tem a dizer. Para ele, é importante tornar a igreja um local de acolhimento.

Para Flávio, muitas vezes os trejeitos e a forma de falar jamais mudarão. Para o coordenador do ministério Amizades Verdadeiras, é necessário desfazer a expectativa e a cobrança por um relacionamento. Ser cristão e possuir tendência homossexual pode implicar em não formar uma família por meio do casamento.

Outra dica apresentada é a de acolher esse novo amigo que vai chegar. E Flávio deixa sua última orientação: “A igreja deve ser um local onde a pessoa possa desenvolver amizades significativas com pessoas do seu mesmo sexo e entender que é aceita e amada neste ambiente. Isto, com o tempo, preencherá as necessidades emocionais profundas que possui.”

O que está em grande debate, nesta questão, é aquilo que Richard Davidson, no artigo já citado, resumiu sobre o tema. “Em última análise, o que está em jogo no debate atual sobre o comportamento homossexual e a Bíblia é mais do que abstratos princípios hermenêuticos ou doutrinas, mas a vida de pessoas reais. Considere aqueles que lutam com suas tendências homossexuais, mas descobriram o poder da graça de Deus para viver acima dessas tendência”.

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