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Ministério adventista pioneiro no Brasil atua com homossexuais

Ministério Amizades Verdadeiras, de São Paulo, existe há dois anos e tem sido um diferencial na vida de pessoas com tendências homossexuais

16 de março de 2018

Por Felipe Lemos

Tomando como base a amizade, participantes do projeto criam vínculos com pessoas com tendências homossexuais e estabelecem ambiente de acolhimento (Foto: Shutterstock)

Quando se fala em homossexualidade e igrejas cristãs, a temática costuma gerar reações que geralmente resultam em muita polêmica e polarização de opiniões. O tema é debatido não apenas na área teológica, mas da biologia, genética e psicologia. Teólogos têm explicado o que a Bíblia fala de comportamentos sexuais e, inclusive, a Igreja Adventista do Sétimo Dia tem se manifestado oficialmente sobre o tema há muito tempo. Mas e como se dá a relação de pessoas com tendências homossexuais com a igreja no cotidiano, na prática do dia a dia?

É disso que trata o Ministério Amizades Verdadeiras, realizado na igreja adventista Central Paulistana há pouco mais de dois anos. No Brasil, é considerado uma das iniciativas pioneiras nessa área. A Agência Adventista Sul-Americana de Notícias (ASN) conversou com Flávio Krzyzanowski Júnior, coordenador do grupo. Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo (USP), é mestre em Microbiologia e doutor em Ciências pela Faculdade de Saúde Pública da USP.

Como funciona o ministério Amizades Verdadeiras e há quanto tempo está ativo?

O ministério Amizades Verdadeiras está interessado em pessoas que possuem a tendência homossexual, porém não desejam, seja por motivos religiosos ou outros, viver o estilo de vida homossexual, como, por exemplo, relacionar-se sexualmente com pessoas do mesmo sexo. Também atendemos pais cujos filhos possuem esta tendência, dando aconselhamento. A ideia de trabalhar com este tema surgiu em 2012, quando eu morava na Holanda e conheci a pastora Suzanne Portela, que deu a sugestão de iniciarmos palestras com este tema. Em 2015, fui convidado pelo pastor Adriano de Villa para iniciar o ministério na igreja adventista Central Paulistana.

Por que o nome do ministério é Amizades Verdadeiras?

Amizades profundas e verdadeiras, entre as quais as pessoas com a tendência se sintam amadas e aceitas, são a forma correta e a planejada por Deus para que cresçamos espiritual e emocionalmente.

Quem faz parte?

O ministério Amizades Verdadeiras faz parte de outros ministérios que existem na igreja adventista Central Paulistana. Temos uma equipe formada por três pastores e outras quatro pessoas que se revezam no aconselhamento, nas reuniões mensais com os pais e com pessoas que possuem a tendência, além de participarem nas palestras que realizamos.

Há ministérios paralelos em outros lugares do mundo?

Nos Estados Unidos, existe um grupo adventista denominado Coming Out Ministries, que também palestra sobre o tema. Falando ainda em Igreja Adventista, não conhecemos nenhum outro ministério na Europa ou em outra parte do mundo. Em relação a outras denominações, podemos citar o ministério internacional e interdenominacioal Exodus, que atua também no Brasil.

Para acolher as pessoas, vocês partem de qual ponto de vista sobre causas da homossexualidade?

Muitos estudos já demonstraram que a tendência homossexual não é genética. Uma evidência disto é o fato de que esta tendência muda em muitas pessoas quando estas trabalham suas feridas emocionais. Cremos que a tendência é uma resposta ao vazio de gênero que a pessoa desenvolveu por ter se distanciado de outros membros do seu mesmo sexo. Vários fatores podem levar a este afastamento, tais como abuso sexual, distanciamento emocional dos pais, bullying ocorrido na infância, etc. Ajudamos estas pessoas no processo de preenchimento deste vazio. A Igreja pode auxiliar muito nesta jornada.

Como a Igreja Adventista pode ajudar este ministério?

Quando Cristo esteve entre nós, atendeu pessoas com dificuldades na área sexual. Também temos, como seus imitadores, que realizar o mesmo. No caso específico de homoafetivos, tanto do sexo masculino quanto feminino, o essencial é que estas pessoas se sintam acolhidas por outras do mesmo sexo. Isto ajudará a preencher o vazio de gênero que citamos acima. O Ministério da Mulher já existe. E por que não criar o Ministério do Homem? Neste, atividades, tanto espirituais quanto físicas, poderiam ser um espaço tremendo para o acolhimento.

Uma outra ideia é a formação de conselheiros ou mentores: pessoas ou casais que conheçam o básico do assunto e acolham uma pessoa homoafetiva para ouvi-la, convidá-la para algumas atividades em família, etc. Isso ajudará o acolhido a perceber como é um lar funcional, uma referência que talvez nunca tenha tido. Finalmente, Pequenos Grupos mais relacionais também podem se tornar um espaço excelente para que as pessoas sejam ouvidas, e disso todos nós necessitamos. Ainda somos muito reticentes com a ideia de nos abrirmos, mas este é o melhor caminho para o nosso crescimento.

Como vocês enxergam explicações mais biológicas sobre razões da homossexualidade?

Muitos estudos já foram publicados tentando relacionar a tendência homossexual a algum fator biológico, e todos sem sucesso. O doutor John H.S. Tay, cientista australiano que publicou mais de 100 artigos científicos nesta área e escreveu o livro Nascido Gay?, analisou muitos deles e não encontrou, como muitos outros cientistas fazem recentemente, nenhuma evidência que corroborasse esta visão.

Se houver algum fator biológico ainda não descoberto, o mesmo possui pequena força quando comparado às questões emocionais. Uma forte evidência, já citada acima, é o fato de que muitas pessoas mudam a sua tendência, em diferentes graus, ao longo de suas vidas quando trabalham questões emocionais. Posso ainda citar a minha própria experiência. Possuo a tendência homossexual e quando iniciei o trabalho de preencher o vazio de gênero, comecei a desenvolver a atração heterossexual. Logo, não é somente em conhecimento teórico que nos baseamos, mas em experiência prática também.

Voltando ao ministério, quais resultados já puderam ser percebidos?

Temos palestrado em muitas igrejas e os membros dizem após as reuniões: “Por que demorou tanto para este tema ser abordado em nossa igreja? É maravilhoso que isso esteja acontecendo!” Muitos pais que estavam sem respostas encontram-nas em nossas reuniões mensais. Além disso, muitos que possuem a tendência em nossas igrejas passam a compreender as causas da mesma e como trabalhar para o crescimento tanto espiritual quanto emocional. Também temos presenciado várias igrejas querendo formar ministérios nesta área. É algo que realmente estava faltando!

Qual é, em detalhes, a dinâmica dos aconselhamentos e das abordagens com esse público?

Temos um grupo presencial de apoio a pais e outro de aconselhamento para pessoas homoafetivas. Os encontros ocorrem mensalmente na igreja adventista Central Paulistana. Também temos os dois grupos no aplicativo WhatsApp para atender as pessoas que não moram em São Paulo.

Estamos iniciando uma nova fase, a do treinamento de conselheiros para o atendimento individual. “Precisa ser um profissional especializado para isto?” Não. A pessoa necessita ter duas características: um conhecimento básico sobre o assunto e vontade de salvar e cuidar de vidas, assim como fez o nosso maior exemplo, Cristo.

Qual a expectativa desse ministério para os próximos anos? Para onde vai o Amizades Verdadeiras?

Sentimos Deus fortemente guiando este ministério. Um grande desafio é torná-lo conhecido em nossas igrejas. Muitos não sabem que existe este apoio na Igreja Adventista. Temos a intenção de formar multiplicadores para que possam atuar em suas regiões. A capacitação de pastores e a formação de conselheiros que desejem trabalhar com este tema é uma necessidade imediata. O nosso grande objetivo é que todas as nossas igrejas conheçam este tema tão importante nos dias atuais e estejam capacitadas para apoiar as pessoas que buscam orientação.


Para conhecer mais sobre a visão da Igreja Adventista em relação ao assunto, clique aqui.

Veja o vídeo abaixo:

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