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A mulher apresentada na teologia bíblica

O que a Bíblia diz sobre a liderança da mulher, a relação de complementaridade com o homem, entre outros temas ligados? Duas teólogas esclarecem o tema

Por Felipe Lemos 17 de setembro de 2020

A Bíblia evidencia a relevância das mulheres em diferentes narrativas e situações. (Foto: Shutterstock)

O que a Bíblia fala sobre a relação entre homens e mulheres? A resposta não é tão simples, mas o estudo e a leitura mais atentos podem oferecer respostas para quem deseja compreender a temática.

A Agência Adventista Sul-Americana de Notícias (ASN) resolveu dialogar sobre alguns aspectos desta temática com duas entrevistadas. Uma delas é Christie Chadwick, PhD em Arqueologia Bíblica e Antigo Testamento, e professora de Antigo Testamento na Faculdade de Teologia do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp), em Engenheiro Coelho. E a outra entrevistada é Vanessa Raquel Meira, mestre e doutoranda em Teologia, e professora do curso de Pedagogia no Instituto Adventista Paranaense (IAP).

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O que a Bíblia fala, em linhas gerais, a respeito do papel da mulher na sociedade dentro do plano divino de salvação de todos?

Christie Chadwick – A Bíblia sempre retrata a mulher de forma positiva. Sua primeira apresentação, em Gênesis, é como parceira igualitária do homem no governo da Terra.

Apesar de as menções a elas em histórias bíblicas serem menos frequentes do que a homens, as mulheres tementes a Deus são retratadas como sábias, corajosas, ativas e independentes, como os exemplos de Raabe, Rute, Abigail (esposa de Nabal), Ester, e outras. Em várias passagens bíblicas, sabedoria é apresentada como uma característica feminina, tanto na sua personificação em Provérbios (por exemplo, Provérbios 8:1-9:12), como nos exemplos do papel de uma mulher sábia resolvendo um problema difícil. Em dois momentos, a sabedoria de Salomão aparece diante mulheres: o pleito sobre o filho vivo pleiteado pelas duas prostitutas (1 Reis 3:16-28) e o encontro com a rainha de Sabá, que o visitou “para testá-lo com perguntas difíceis” (1 Reis 10:1).

Quanto a papeis, são poucos aos quais a mulher não tem acesso. A Bíblia menciona pastoras de ovelhas (Raquel, as cunhadas de Moisés), ceifeiras (Rute 2), profetas (Miriã, Débora, Hulda), juízas (Débora), e rainhas com poder governamental (Atalia, Maaca, Jezebel). Algumas funções na Bíblia não são estendidas a mulher, como a militar – embora este encontre exceções em Débora, Jael e a mulher sábia de Abel Bete Maaca (2 Samuel 20:1-22) – e a sacerdotal.

Sobre esta função sacerdotal, existe evidência de que o serviço dos Levitas no templo contava com a participação de mulheres levitas, mas não como sacerdotisas nem sumo sacerdotisas. O verbo usado para descrever o tipo de serviço que o Levita prestava (Tsava) é aplicado a mulheres em duas situações relacionadas ao templo: “Os espelhos das mulheres que serviam” (Êxodo 38:8) – objetos que eram usados no Egito e que foram por elas doados provavelmente em ato de consagrada abnegação, pois Moisés não ordenou que eles fossem dados – e “as mulheres que serviam à entrada do tabernáculo” (1 Samuel 2:22) – que se deitavam com os filhos de Eli.

O retrato bíblico da mulher virtuosa está descrito em Provérbios 31:10-31, onde vemos uma mulher confiável, benigna, trabalhadora, proativa, responsável, sábia, piedosa, forte, digna, bondosa, parceira que contribui ativamente na economia do seu lar. Ela produz para o comércio, negocia no comércio e administra seu lar, pois essas virtudes advêm da sua entrega Deus.

Vanessa Meira – A Bíblia contém princípios gerais e exemplos pontuais. Por exemplo, amar a Deus e ao próximo (Mateus 22:37-39), fazer discípulos (Mateus 28:18-20) e buscar a santificação (Hebreus 12:14) são exigências gerais para homens e mulheres. Também há princípios gerais aplicáveis a mulheres de qualquer tempo ou lugar, como a sobriedade e a modéstia (1 Pedro 3:1-6), a valorização da maternidade, do casamento e do cuidado da família (Tito 2:3-5; 1 Timóteo 2:15).

Além disso, a Bíblia fala de mulheres dedicadas exclusivamente à família, outras que se dedicavam aos negócios e finanças (Provérbios 31; Lucas 8:1-3), à atividade pública de liderança civil e espiritual (Juízes 4:4). Portanto, não há uma lista exaustiva do que uma mulher pode ou não ser/fazer, mas há expectativas básicas e princípios a serem observados em qualquer situação.

Complementaridade

Falem um pouco do aspecto teológico da complementaridade de homens e mulheres, à luz da Bíblia.

Christie – O primeiro verso que menciona a humanidade é Genesis 1:27, mas o contexto desta fala de Deus começa no verso 26, no qual Deus descreve seus planos para a humanidade. Enquanto a maioria das traduções contém a palavra “homem”, o termo mais apropriado para esta tradução seria “humanidade”. A humanidade é composta de “macho e fêmea” (tradução literal), normalmente traduzido como homem e mulher, formando adequadamente a nossa cosmovisão. Esta complementariedade aparece na primeira descrição da criação da humanidade. O ser humano foi criado não segundo a sua espécie, mas segundo a imagem e semelhança de Deus.

A humanidade foi criada para administrar a criação de Deus. Ambos, homem e mulher, foram feitos à imagem dEle; a ambos foi dado cuidar do que Deus fez, pois eles são apresentados praticamente como uma unidade – “uma só carne”, que será afirmada em apenas alguns versículos. Não há hierarquia na criação do homem e da mulher, somente na criação da humanidade e dos animais. Argumentos baseados na ordem da criação não cabem, justamente porque o ser humano foi o último a ser criado na semana da criação.

Também se vê complementariedade na maneira como o texto busca trazer equilíbrio para o relacionamento entre homem e mulher em versos, como em Gênesis 2:24: “Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne”. O palavreado do verso, de maneira intencional, inverte os papéis como se apresentavam.

Nos tempos bíblicos, a mulher deixava o pai e a mãe para se unir à família de seu marido, tomando o sobrenome dele e passando a fazer parte da família dele. Ao apresentar de forma inversa, o texto bíblico realça que, apesar de visivelmente só um lado deixar pai e mãe, no casamento ambos deixam pra trás pai e mãe para tornarem-se realmente uma só carne – uma nova unidade familiar. Outro fator interessante é que na criação a mulher veio do homem, mas, a partir de então, todos os homens vêm da mulher (1 Coríntios 11:12).

Vanessa – O relato da criação mostra que “não é bom que o homem esteja só” (Gênesis 2:18). Portanto, há uma dimensão coletiva na natureza humana. Deus cria a mulher como “auxiliadora idônea”, uma companhia adequada, deixando claro o ideal de que homem e mulher formem um todo único, sendo mutuamente complementares e interdependentes.

A mulher foi criada a partir da costela do homem (Gênesis 2:22). A palavra “costela” (tsêld) traz a ideia de lado, contrapartida simétrica e até mesmo oposta (Êxodo 26:26-27; 1 Reis 6:34; 2 Samuel 16:13), que confere tanto o sentido de igualdade quanto o de singularidade e complementaridade entre homem e mulher (1 Pedro 3:7). Homem e mulher são, ambos e juntos, a humanidade criada à imagem de Deus para se apoiarem mutuamente e dominarem sobre a Terra (Gênesis 1:28).

E quanto à liderança da mulher, que princípios a Bíblia oferece para compreensão do tema?

Christie – A Bíblia nos oferece ensinamentos profundos sobre liderança de homens e de mulheres. Deus, ao criar, deixou como exemplo o tipo de liderança que espera daqueles a quem incumbiu a administração do novo planeta: homem e mulher. O exemplo de Deus é de uma liderança servidora. Ele entrega para a humanidade gestora um planeta em que Ele fez todo o trabalho.

Nas mitologias de criação do contexto cultural de Israel, a humanidade é criada para servir os deuses: já são criados como escravos. Na descrição de Gênesis, Deus trabalha e a humanidade é criada para usufruir e zelar o mundo criado. Enquanto colocados em soberania sobre os demais animais, esta soberania deve ser feita a exemplo de Deus, como guardiães e cuidadores destes seres colocados sob nosso cuidado. Mas o pecado danificou nossa percepção de liderança e nossa habilidade de reproduzir o estilo de liderança de Deus. Liderar, em termos bíblicos, é servir.

Em segundo lugar, existem exemplos bíblicos de liderança feminina. Miriã é considerada, ao lado dos irmãos, como uma das líderes do Êxodo (Miqueias 6:4); as filhas de Zelofaad (Números 27) se tornam líderes e matriarcas das terras que herdam quando entram na terra prometida. Isto significa que estas terras levaram seus nomes, algo comprovado arqueologicamente. Debora é profetiza e juíza (Juízes 4-5); Abigail tem liderança ativa em sua casa e sobre seus servos e trabalhadores (1 Samuel 25); a mulher sábia de Abel Bete Maaca é claramente uma anciã (2 Samuel 20) – representante oficial, política e militar – em sua cidade. Os exemplos podem ser poucos, mas retratam mulheres fortes e tementes a Deus.

Vanessa – De que tipo de liderança estamos falando? Erra-se ao estender para toda a sociedade textos que falam sobre liderança no casamento. A submissão bíblica é voluntária e se dá no contexto do casamento, e não é um princípio para organizar a sociedade em todos os níveis. Não é uma questão de “homens e mulheres” em geral, mas de “maridos e esposas”.

A mulher deve voluntariamente se submeter “ao seu próprio marido” (Efésios 5:22), e não aos homens em geral. Sobre as possibilidades de liderança feminina, isso vai depender do perfil de cada mulher. Por exemplo, a mulher de Suném (2 Reis 4:8), a mulher empreendedora de Provérbios 31 e Débora têm um perfil de liderança mais destacado publicamente. Por outro lado, Sara, Rebeca e Maria apresentam características mais discretas.

Disputa de poder

Há amparo bíblico para uma disputa de poder, tanto da parte de homens quanto de mulheres, dentro de uma relação como o casamento?

Christie  – A percepção bíblica do poder é algo dado por Deus, e a liderança que resulta de um poder dado por Deus é servidora. Não há, portanto, amparo bíblico para disputas de poder entre homens e mulheres, dentro ou fora do casamento, ou entre homens e homens, ou ainda entre mulheres e mulheres na sociedade mais ampla. A mensagem bíblica de igualdade e trabalho unidos na mesma direção e a visão de todo o povo de Deus como membros de um só corpo quebra qualquer ideia de superioridade e autoridade.

Dentro do casamento, isso se aplica como extensão do que acontece na Igreja como corpo de Cristo, pois os dois se tornam uma só carne. Efésios vai de “submetam-se uns aos outros” (5:21) quando fala da Igreja, para a recomendação dentro do casamento de “sejam submissas ao seu próprio marido como ao Senhor” (5:22) e “maridos, amai vossa mulher como também Cristo amou a Igreja e a Si mesmo se entregou por ela” (5:25). Não deveria haver disputa por poder, mas uma submissão feminina voluntária e um amor masculino sem medida em cooperação mútua para glória de Deus. A união de homens e mulheres, sem comparação e sem competição, fortalece o evangelho e mostra o plano de Deus para a humanidade.

Vanessa  – Não, a menos que essa disputa seja pelo poder de servir e cuidar. Uma das expectativas bíblicas básicas é que o homem casado assuma a postura de líder amoroso, que protege e se sacrifica. Por sua vez, a expectativa básica sobre a mulher casada é que ela seja auxiliadora idônea. E voluntariamente submissa a um líder-servo que a ame como Jesus amou a Igreja (Efésios 5:21-33).

A submissão exigida da mulher não tem a ver com inferioridade essencial, como mostra a doutrina da criação. Após o pecado, a mulher de fato perdeu parte da autonomia no casamento, mas a liderança do marido não deve ser tirânica. A palavra que descreve a liderança masculina no casamento (mashal) indica uma liderança bondosa, compassiva e protetora, como a liderança do próprio Deus seria (2 Samuel 23:3; Isaías 40:10-11; 1 Coríntios 11:3; Efésios 5:23).

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