Encontro em Porto Alegre discute criacionismo e reforça o diálogo entre fé e ciência
Sábado da Criação mobiliza estudantes, educadores e lideranças para estudar origens e fortalecer a identidade

No sábado (25), o auditório do Colégio Adventista Marechal Rondon recebeu estudantes, professores, equipes da rede no RS, fiéis da Comunidade CAMAR e outras igrejas da região para uma programação dedicada ao tema das origens. A atividade integrou o Sábado da Criação, data anual da Igreja Adventista no mundo todo que incentiva estudo, cultos e debates, aproximando Bíblia e ciência e estimulando o cuidado com a vida e a natureza.
A semana anterior, de 20 a 24, foi marcada por ações criacionistas nas unidades escolares adventistas de todo o Rio Grande do Sul, com leituras, projetos e momentos de estudo. Nesse contexto, a aluna do 8º ano do Colégio Adventista Marechal Rondon, Gabriela Rodrigues, avaliou que as atividades dão ferramentas para o diálogo. “É muito importante, essa semana criacionista porque ela nos ajuda a entender o sistema da criação de Deus, dos seis dias, e a saber também como dialogar com outras pessoas sobre isso”, pontuou. Ela citou ainda a necessidade de diferenciar conceitos aprendidos durante as palestras que, em uma primeira vista, podem trazer certa confusão. “As pessoas acabam fazendo uma certa distorção - e, as vezes, a gente nem percebe e vai captando, entendendo - que muita gente acaba usando o termo 'evolução', quando o certo é, na verdade, 'adaptação' dos seres vivos”, ressalta a estudante.
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Convidada do encontro, a bióloga e doutora na área de Ciências pela Universidade de São Paulo (USP), Maura Brandão, concentrou sua fala em esclarecer equívocos recorrentes e rótulos imprecisos sobre o criacionismo, tratando do tema com cuidado, critério e respeito. Segundo ela, o debate público costuma esbarrar em desconhecimento, em especial, no ambiente das redes sociais. “Falar de criacionismo é desafiador. Muitas críticas vêm de desconhecimento e, às vezes, se transformam em ataques pessoais em vez de discutir ideias”, afirmou.
Ao longo de uma das palestras, Maura enfatizou preparo consistente e diálogo honesto diante dos desafios de promover o criacionismo. Para a educadora, a resposta passa por estudo da Bíblia, contato com boa ciência e compreensão da cosmovisão evolutiva, inclusive de seus fundamentos filosóficos, para que a conversa seja clara e responsável. “A boa ciência, feita corretamente, não contradiz a Bíblia”, reforçou a bióloga.
Além disso, a palestrante abordou a leitura dos primeiros capítulos de Gênesis de maneira direta para o público leigo. Reafirmou a compreensão de criação recente e em tempo literal, destacando o caráter histórico do relato. Nas palavras de Maura, “o relato da criação é verdadeiro, histórico e se refere a uma semana de dias literais de 24 horas”, defende.
Ainda no bloco sobre evidências, Maura apresentou exemplos interessantes e curiosos para o público. Citou registros fósseis encontrados com o esqueleto inteiro e, em alguns casos, na chamada postura de agonia — sinais compatíveis com soterramento rápido por água e sedimentos. A ideia central foi mostrar cenários plausíveis de catástrofe com água. Como ela pontuou, casos assim ajudam a reforçar a possibilidade além da Bíblia de que um evento caracterizado por um dilúvio catastrófico é, do ponto de vista da ciência apenas, algo bastante possível.
Uma curiosidade trazida dentro das explanações foi o fato das tartarugas de Galápagos serem conhecidas por terem carapaças diferentes conforme o ambiente e o alimento disponível. O motivo corresponde a adaptações (ou mudanças) que ocorrem dentro de um mesmo grupo — úteis para sobrevivência em condições distintas — e não equivalem automaticamente a mudanças de grande escala entre grupos muito diferentes. Por isso, a explicação veio seguida de uma advertência da própria palestrante. “A gente precisa ter bastante cuidado com essa palavra evolução”, alerta, já que, no dia a dia, qualquer mudança acaba recebendo esse rótulo sem que se explique em detalhes sobre o que se está falando.

A presença das coordenações regionais sinalizou apoio institucional à reflexão. Para o pastor Anderson Voos, diretor da rede educacional adventista na região central do Rio Grande do Sul, separar conceitos e criar espaços de estudo favorece o entendimento. “É importante pararmos nesse dia especial do do Sábado da Criação para enfatizar e mostrar o que é o criacionismo, desmistificar algumas coisas, entendermos, de fato, a visão da evolução, assim como o relato da criação, e abrirmos espaço para diálogo, discussão com bases científicas”, afirmou o líder.
A diretora Mariângela Velleda, que coordena a mesma esfera na região norte gaúcha, destacou a continuidade ao longo do ano, em diferentes etapas e áreas. “Durante todo o ano, de maneira interdisciplinar, o criacionismo é trabalhado através de projetos. Este congresso vem como ‘a cereja do bolo’ para fortalecer nossa identidade como adventistas”, complementa. Já o professor Revelino Evangelista, diretor da rede na região sul do RS, listou frentes que mantêm a pauta ativa e acessível. “Além da semana do criacionismo, há as meditações no início do dia, as celebrações semanais e as feiras científicas”, pontua. Para ele, o assunto “precisa ser discutido não apenas de forma religiosa, mas também sob o prisma da ciência”, conclui.
Na aplicação prática, o professor Mauricio Udell, que atua com o ensino bilíngue infantil do colégio onde o evento foi realizado, apontou ganhos dentro e fora da escola. “As crianças sempre aparecem com algumas pequenas dúvidas. Então, é importante que saibamos sobre o assunto para conversar e para nos sentirmos mais preparados, seja na escola, na rua, na conversa com algum amigo”, reflete. Para a aluna Gabriela, o encontro também funciona como estímulo ao estudo contínuo. “Aqui eu aprendo coisas novas, mas eu também ganho dúvidas […] que vão me levar a estudar mais, […] fortalecer […] a minha fé”, afirmou, mencionando interesse em aprofundar a teoria do design inteligente.
Diante do desafio de manter a fé em ambientes onde essa doutrina é questionada, manter o tema ativo em igrejas e escolas preserva a identidade e qualifica o diálogo.
