Notícias Adventistas

Inclusão

Comunicação na surdocegueira e a importância de conhecer melhor essa condição

A tecnologia assistiva e a comunicação acessível favorecem a autonomia, a participação e a inclusão das pessoas com surdocegueira


  • Compartilhar:
Pessoas surdocegas com sua guia-intérprete recebendo informações no seu computador em braille.
Os recursos de acessibilidade facilitam a interação e o acesso à informação para as pessoas com surdocegueira. (Foto: Vânia Ramos)

Enquanto muitas pessoas acompanham um culto ouvindo a música, os anúncios e a mensagem apresentada, Letícia Gonçalves Balotta participa de uma forma diferente. Com um computador em braille conectado ao celular, ela recebe em tempo real as informações enviadas por voluntárias que traduzem e descrevem o que acontece ao seu redor.

Aos 29 anos, Letícia trabalha e mora sozinha. Nascida com baixa visão e dificuldades relacionadas à audição, perdeu totalmente a visão em 2021 e, poucos meses depois, começou a perder também a audição. Mais tarde, recebeu o diagnóstico de uma doença rara que afeta diferentes funções do organismo, incluindo esses dois sentidos.

Lea también:

Segundo Laura Lebre Monteiro, coordenadora pedagógica do Instituto Ahimsa, organização especializada no atendimento de pessoas com surdocegueira e deficiência múltipla sensorial, a condição não deve ser entendida apenas como a soma entre surdez e cegueira.

Existem casos congênitos, quando a pessoa nasce com a condição, e adquiridos, quando as perdas acontecem ao longo da vida. Também há diferentes níveis de comprometimento visual e auditivo. Apesar dessas diferenças, o principal desafio costuma ser o mesmo: encontrar formas acessíveis de comunicação e interação com o mundo.

"Quando uma pessoa perde a visão e a audição, as formas tradicionais de interação precisam ser adaptadas. Por isso, a comunicação sempre está no centro de tudo", explica.

Mulher surdocega com sua guia-intérprete recebendo informações no seu computador em braille.
Letícia acompanha a programação e momentos da igreja por meio de mensagens adaptadas e recursos de tecnologia assistiva. (Foto: Vânia Ramos)

Se capacitar para incluir

Para participar dos cultos e atividades da igreja, Letícia conta com o apoio de voluntárias que enviam mensagens pelo WhatsApp, adaptadas a uma linguagem acessível para sua compreensão. O conteúdo é recebido por um computador em braille, permitindo que acompanhe sermões, avisos e momentos de interação com a congregação.

Uma dessas voluntárias é Vânia Ramos. O interesse pela inclusão começou anos atrás, quando ela decidiu aprender Língua Brasileira de Sinais (Libras) para se comunicar com uma vizinha surda. Com o tempo, passou a conviver com pessoas com diferentes deficiências e a atuar como guia-intérprete de pessoas com surdocegueira.

Além de recursos como audiodescrição e tecnologias assistivas, Vânia aprendeu a utilizar a Libras Tátil, uma forma de comunicação em que os sinais são percebidos por meio do toque das mãos. Segundo ela, cada pessoa possui necessidades diferentes, o que exige preparo e adaptação para garantir uma comunicação efetiva.

Pessoas surdocegas com sua guia-intérprete se comunicando através do Libras tátil.
Com o apoio de Vânia, que atua como guia-intérprete, Renato, surdocego, recebe as informações em Libras tátil por meio do toque das mãos. (Foto: Vânia Ramos)

A guia-intérprete explica que atitudes simples também podem tornar ambientes mais acessíveis, como descrever o espaço, apresentar as pessoas que chegam e explicar o que está acontecendo ao redor. Para ela, inclusão significa garantir que a pessoa participe ativamente da experiência, e não apenas esteja presente.

“A comunicação é tudo. O surdocego precisa saber o que está acontecendo ao seu redor”, destaca.

Barreiras

De acordo com Letícia, o desafio mais difícil nem sempre está na condição em si, mas na forma como ela é percebida pelos outros. “Muitas vezes pensam que estou ignorando ou que não quero responder, quando na verdade eu não ouvi ou não consegui compreender o que foi dito”, explica.

Segundo Laura, esse tipo de situação acontece porque a surdocegueira ainda é pouco conhecida. Muitas pessoas acreditam que todas as pessoas surdocegas possuem as mesmas características e necessidades, quando, na realidade, existem diferentes formas da condição e diferentes maneiras de comunicação.

Criança surdocega aprendendo a se comunicar através do toque e atividades sensoriais.
Por meio do toque, pessoas com surdocegueira exploram o ambiente, desenvolvem habilidades e constroem formas de comunicação. (Foto: Instituto Ahimsa)

Vânia também observa que esse desconhecimento se reflete em diversos ambientes do cotidiano, como hospitais, transporte e serviços públicos, onde nem sempre existem recursos ou profissionais preparados para atender pessoas com surdocegueira. “O primeiro passo é entender, depois vem a empatia e o acolhimento”, ressalta.

Impacto familiar

Essa realidade faz parte da história de Dylan, que nasceu prematuro extremo, aos seis meses de gestação, e vive com surdocegueira e deficiência neurológica. Para a família, os primeiros anos foram de adaptação e busca por formas de comunicação que o incluíssem no dia a dia.

Anos depois, ao conhecer uma congregação adventista, a família encontrou acolhimento por meio do Ministério Adventista das Possibilidades (MAP), um ministério da Igreja Adventista do Sétimo Dia que promove a inclusão e o cuidado de pessoas com diferentes tipos de deficiência.

Veja a história completa em espanhol:

Com esse apoio, Dylan pôde participar mais da vida da comunidade. Ao longo do tempo, vieram conquistas que pareciam improváveis, como sentar, ficar em pé e caminhar. Hoje, o toque segue sendo sua principal forma de comunicação, e a igreja aprendeu a se conectar com ele de maneira simples e afetiva.

A verdadeira inclusão

Para Laura Lebre, a inclusão acontece quando a pessoa com surdocegueira consegue participar ativamente da vida em comunidade. Esse processo envolve a família, educadores, profissionais e todos que fazem parte do seu convívio.

Ela destaca que o tato desempenha um papel fundamental nesse processo. Por meio do toque, muitas pessoas com surdocegueira constroem vínculos, compreendem o ambiente ao seu redor e desenvolvem formas de comunicação. "Precisamos mostrar que existe um mundo ao redor delas. A comunicação é a ponte que torna isso possível", afirma.


Você também pode receber esse e outros conteúdos diretamente no seu dispositivo. Assine nosso canal no Telegram ou no WhatsApp

Quer conhecer mais sobre a Bíblia ou estudá-la com alguém? Clique aqui e comece agora mesmo.