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Coluna | Maura Brandão

O Salmo de Galileu

Será que fé e ciência podem caminhar juntas? Galileu foi um exemplo dessa realidade, que impulsionava suas buscas científicas.


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Galileu Galilei apresenta em seus estudos que ciência e fé caminham juntas.(Foto: Shutterstock)

Frequentemente, ouvimos afirmações de que fé e ciência são irreconciliáveis ou, como propôs o paleontólogo americano Stephen Jay Gould, que pertencem a "magistérios não interferentes". Em outras palavras, seriam esferas distintas: fé e ciência têm seus respectivos valores, mas não se misturam.

Há quem defenda, ainda, que a ciência só prosperou de fato quando se desgarrou do controle institucional da Igreja. Com o advento do Iluminismo, cientistas abraçaram o materialismo, relegando o divino a um plano secundário.

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(Imagem: Livraria Nacional Central de Florença)

Todavia, alguns dos cientistas mais relevantes da história discordariam dessa visão simplista. Ao estudarmos a biografia de Isaac Newton, por exemplo, percebemos que sua profunda crença em Deus não o impediu de revolucionar a matemática; pelo contrário, foi o motor que o levou a superar os métodos limitados de sua época. Hoje, sua contribuição é amplamente reconhecida por toda a comunidade científica, inclusive por aqueles que rejeitam a ideia de um Criador.

No entanto, o foco deste texto não é Newton, mas sim um grande cientista que o precedeu: Galileu Galilei. Uma descoberta divulgada no início deste ano traz uma evidência interessante a essa discussão.

Novas descobertas

O historiador Ivan Malara estava na Biblioteca Nacional Central de Florença, analisando uma cópia do Almagesto, obra de Ptolomeu que norteou o paradigma científico por mais de mil anos ao defender a visão geocêntrica de que a Terra seria o centro do Universo.[1]

Enquanto Malara folheava as páginas do antigo livro, ele percebeu uma série de anotações em uma das páginas, que traziam o Salmo 145 transcrito. Essas anotações chamaram muito a sua atenção, porque se assemelhavam muito à caligrafia de Galileu. Imediatamente, o pesquisador entrou em contato com especialistas que afirmaram a ele que era seguro dizer que, de fato, era a letra de Galileu.

Junto a isso, foram analisadas outras evidências, por exemplo, várias das ideias presentes ali estão em anotações reconhecidamente de Galileu. Outra evidência levada em consideração foi a própria presença do Salmo 145. Em outra impressão do Almagesto, do séc. XVI, foi encontrada uma inscrição, dizendo: “Galileu, antes de estudar Ptolomeu, oferecia uma oração a Deus”.  Em 1673, anotações do matemático Alessandro Marchetti afirmavam que Galileu sempre orava quando se sentava para estudar o Almagesto.

Crítico?

Veja que interessante. Muitas pessoas podem associar a imagem de Galileu a uma figura revolucionária, questionadora, especialmente quando pensamos nos embates que ele teve com a Igreja em sua época. Ele foi interrogado pela inquisição e colocado em prisão domiciliar porque seus argumentos ameaçavam o poder e soberania da Igreja Católica da época.[2] De fato, Galileu não era uma pessoa fácil, ele era turrão, tinha gênio forte e era muito irônico. Isso provocava a ira dos clérigos da época que faziam reclamações formais à inquisição.[3]

Mas seu questionamento nunca foi contra Deus ou seu poder criador, mas contra a autoridade eclesiástica e ao paradigma geocêntrico. Galileu usou as mesmas evidências do geocentrismo, para defender o heliocentrismo proposto inicialmente por Copérnico. Mas diferente de Copérnico, Galileu questionou o paradigma vigente.

As anotações de Galileu reforçam a importância da autoridade bíblica. Humildemente, Galileu, antes de se aprofundar nos estudos do mundo natural, reconhecia e louvava o Deus Criador, “Grande é o Senhor e digno de todo louvor; a sua grandeza é insondável (Salmos 145:3 NVI)”.

O caso de Galileu ilustra que ciência e fé não precisam ser adversárias e podem trabalhar juntas para revelar a beleza do universo e a grandeza da criação. Ao contrário do que muitos afirmam, Galileu não separou sua crença em Deus da sua prática científica, muito pelo contrário. Sua crença em Deus o impactava de forma tão profunda, que o impulsionava a estudar e compreender o mundo natural, para conhecer melhor o Criador da Natureza.


Referências

[1] Anotações manuscritas de Galileu encontradas em antigo texto de astronomia | Ciência | AAAS https://www.science.org/content/article/galileo-s-handwritten-notes-found-ancient-astronomy-text?utm_campaign=feed&utm_medium=referral&utm_source=later-linkinbio&fbclid=PAVERFWAQcPwxleHRuA2FlbQIxMQBzcnRjBmFwcF9pZA8xMjQwMjQ1NzQyODc0MTQAAaeRjac8WgucoNgf8tClkk3Os4Kngwxjbv-rND45Gz6dRvhBQ-aPcfTl1XN99A_aem_1aL5GcR84tZHm2eLh5Nc8A

[2] NUMBERS, Ronald L. (Ed.). Terra plana, Galileu na prisão e outros mitos sobre ciência e religião. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2020

[3] Para aqueles que se interessarem, vale a leitura da carta para a Grã-Duquesa Cristina da Toscana, enviada em 1615, escrita por Galileu. Uma leitura interessantíssima.

Maura Brandão

Maura Brandão

Ciência e Religião

As principais descobertas da ciência analisadas sob o ponto de vista bíblico

Bióloga formada pelo Centro Universitário Adventista de São Paulo (2008), doutora em Ciências pela Universidade de São Paulo (2021) e mestranda em Fé e Ciência na Faculdade Adventista de Teologia, na Espanha. Atuou como professora de Ciências e Biologia no Ensino Básico (2009–2016; 2022–2025) e foi coordenadora do Origins Museum of Nature, nas Ilhas Galápagos (2020–2021). Desenvolve atividades de divulgação científica nas áreas ligadas às origens, com produção de e-books, capítulos de livros, artigos e vídeos. Também é formadora de Ciências e Biologia para a Igreja Adventista na região Sul do Brasil e consultora de didáticos na Casa Publicadora Brasileira (CPB). Atualmente, é professora e coordenadora associada de Extensão e Pesquisa na Faculdade Adventista do Paraná (FAP) e coordenadora associada do curso de pós-graduação em Filosofia, Ciência e Religião na mesma instituição.