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Coluna | Maura Brandão

A ciência encontrada ao contemplar a criação

Fé e ciência possibilitam o fortalecimento das crenças e refletem a grandeza do Criador


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Paisagem do campo de pesquisa e ciência localizado em Wyoming, nos Estados Unidos. A vegetação é rasteira, levemente plana e o céu está azul.
Paisagem do Hanson Ranch, no estado de Wyoming, nos Estados Unidos. (Foto: Arquivo pessoal)

Durante um mês, no estado de Wyoming, nos Estados Unidos, minha rotina começava antes que o sol estivesse alto. A paisagem ampla, marcada pela vegetação rasteira e cactos, clima seco com ventos intensos e gelados, criava um cenário que em alguns aspectos, parecia lembrar o cerrado brasileiro. A pouco mais de 1km de distância da nossa base, camadas de rochas guardavam vestígios de um passado distante, com fauna e flora que já não existem.

Com pincéis, martelos, chaves de fenda e pás, além, claro, de muita paciência, uma equipe de pesquisadores e voluntários trabalhava na escavação de fósseis de dinossauros.

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Embora envolva rochas, o trabalho em uma escavação está longe de ser marcado apenas pela força. É preciso quebrar e retirar as rochas com cuidado, remover sedimentos e enfrentar, muitas vezes, calor intenso, frio, ventos fortes e muita poeira. Também é fundamental ser bastante resiliente.

Um fóssil que, à primeira vista, parece simples de ser extraído pode revelar uma estrutura complexa, delicada e ainda parcialmente escondida. Algumas das vértebras mais lindas que tive a oportunidade de escavar exigiram um dia, ou até um dia e meio de trabalho. Um movimento apressado pode danificar uma estrutura preservada por muito tempo. Ignorar um detalhe pode comprometer uma interpretação.

Por isso, antes de retirar um fóssil do solo, é preciso observar, registrar e planejar a extração, para que nenhum detalhe seja perdido. Havia momentos de entusiasmo, mas também de espera. A pesquisa científica raramente acontece no ritmo da pressa. Ela depende de disciplina, colaboração, atenção aos detalhes e disposição para aprender.

Quando a ciência reforça a fé

Ao compartilhar essa experiência em minhas redes sociais, muitas pessoas se mostraram incrédulas: “Como pode uma cristã, criacionista, estar em uma atividade paleontológica?” Outras demonstraram surpresa: “Que legal encontrar uma cientista que também é cristã!”

Essas reações refletem uma ideia bastante comum nos dias de hoje: a de que fé e ciência são irreconciliáveis e de que, para ser cientista, é preciso desistir da fé, ou vice-versa. No entanto, para uma pessoa cristã – especialmente no contexto adventista – falar sobre ciência não significa afastar-se da fé. Pelo contrário, a cosmovisão cristã nos faz olhar para a natureza com outros olhos, com mais atenção, reverência e responsabilidade.

Tanto os seres vivos, quanto aqueles que não existem mais (como os preservados em fósseis), revelam complexidade, beleza e ordem. Eles despertam perguntas importantes que impulsionam o trabalho do cientista em um estudo sério, cuidadoso e honesto.

Um propósito maior

Nesse sentido, o trabalho do pesquisador cristão não deve ser marcado pelo medo das perguntas, mas pela coragem de investigá-las com fidelidade, respeito e responsabilidade. Fé e ciência não precisam ser tratadas como inimigas. A fé oferece sentido, propósito e uma visão de mundo fundamentada em Deus como Criador. A ciência, por sua vez, oferece ferramentas para compreendermos a realidade de maneira mais organizada, reunindo dados, testando hipóteses e investigando os fenômenos naturais a partir das regularidades presentes na natureza.

Integrar fé e ciência não significa simplificar temas difíceis, mas também não significa usar a ciência apenas quando ela confirma nossas expectativas. Significa buscar a verdade com reverência, reconhecendo que Deus não é ameaçado por perguntas honestas. Ao contrário, a fé cristã nos chama a amar a Deus também com a mente, cultivando pensamento cuidadoso, estudo dedicado e compromisso com a verdade.

Testemunho em Wyoming

O próprio local onde participei da escavação, em Wyoming, carrega uma história significativa para esse diálogo entre fé e ciência. Há cerca de 30 anos, os donos do Hanson Ranch chamaram um paleontólogo para estudar os fósseis que apareciam em abundância em sua propriedade. Entretanto, ao se depararem com uma abordagem evolucionista, decidiram permanecer firmes em seus princípios. Eles desejavam que pesquisadores cristãos estudassem aqueles fósseis, comprometidos tanto com a investigação científica quanto com uma visão criacionista da história da vida.

Segundo relatos, o pesquisador evolucionista, frustrado com a negativa, deixou um bilhete que dizia: “Hoje, foi o último dia que a ciência foi feita no Hanson Ranch”. Algum tempo depois, os proprietários entraram em contato com o doutor Arthur Chadwick, da Southwestern Adventist University, que decidiu iniciar os trabalhos no local.

O doutor Chadwick relata que se sentiu profundamente desafiado, pois não bastava apenas fazer boa ciência ali; seria necessário também desenvolver metodologias inovadoras, capazes de se destacar em relação a outros projetos e escavações realizados por outros paleontólogos. O grupo de pesquisadores apresentou esse desafio a Deus em oração.

O resultado desse trabalho, desenvolvido ao longo de três de décadas, é expressivo: quase 50 mil fósseis escavados. Pesquisadores catalogam e estudam esses fósseis, que já deram origem a pesquisas publicadas em periódicos científicos. Além disso, alunos de mestrado e doutorado realizaram e ainda realizam investigações no local. O projeto é liderado por pesquisadores adventistas, com o apoio de instituições adventistas, mostrando que compromisso com a fé e seriedade científica não precisam caminhar em direções opostas.[1]

Habilidades na pesquisa

Na paleontologia, assim como em outras áreas da ciência, o diálogo entre fé e ciência é fundamental. Fósseis despertam curiosidade, encantamento e, muitas vezes, debates sobre a história da Terra, a vida no passado, os processos geológicos e as grandes questões sobre origem, tempo, morte e catástrofes. Para o pesquisador cristão, esses temas exigem seriedade, humildade e disposição para estudar.

Foi isso que aprendi muitas vezes naquele campo de escavação em Wyoming, pois cada fragmento exigia cuidado. Desde cascos de tartaruga e dentes pequenos de tricerátops, até ossos como um fêmur que pode medir mais de 1,5m de comprimento. Cada osso retirado da rocha passava por um processo paciente de proteção, identificação e transporte. Por isso, havia entusiasmo ao encontrar algo novo e relevante, mas também longos momentos de espera diante de estruturas frágeis, quebradiças e incrustradas na rocha dura.

Cientistas em diversas áreas

Essa postura nos ajuda a pensar em nossa vida espiritual. A pressa pode produzir respostas e interpretações superficiais. Entretanto, quando realizamos um estudo cuidadoso, com a orientação divina, nossa fé amadurece e torna-se capaz de dialogar com questões contemporâneas sem que negociemos nossos princípios e percamos nossa convicção.

Ainda assim, ainda há muito trabalho a ser feito. Precisamos de pessoas e pesquisadores que compreendam a importância da Bíblia e que também saibam dialogar com a ciência e com a sociedade. Precisamos de cristãos em laboratórios, escolas, universidades, hospitais, museus, observatórios, centros de pesquisa e em campos de escavação. A ciência precisa de profissionais competentes e éticos. A igreja precisa de pessoas capazes de unir conhecimento, fé, humildade e missão.

Pesquisar é servir. É dedicar tempo para compreender melhor o mundo que Deus criou e usar esse conhecimento para beneficiar outras pessoas. Também é reconhecer que a criação não deve ser explorada com indiferença, mas estudada com responsabilidade. É admitir que ainda há muito a aprender.

Ao final de um dia de escavação, quando o sol começava a baixar sobre as paisagens do Wyoming, eu frequentemente pensava no privilégio de participar daquele trabalho e saber que eu seria a pessoa que, depois de tanto tempo, veria aqueles ossos preservados. Ossos que carregam histórias e marcas de uma grande catástrofe. Para mim, esses momentos não diminuíram minha fé. Na verdade, eles a aprofundaram.

Afinal, quando a ciência é praticada com humildade e a fé é vivida com inteligência, ambas podem nos conduzir a uma postura semelhante: reverência diante da grandeza da criação e responsabilidade diante do Criador.


Referências:

[1] https://swau.edu/dinosaur-museum/experience/

Maura Brandão

Maura Brandão

Ciência e Religião

As principais descobertas da ciência analisadas sob o ponto de vista bíblico

Bióloga formada pelo Centro Universitário Adventista de São Paulo (2008), doutora em Ciências pela Universidade de São Paulo (2021) e mestranda em Fé e Ciência na Faculdade Adventista de Teologia, na Espanha. Atuou como professora de Ciências e Biologia no Ensino Básico (2009–2016; 2022–2025) e foi coordenadora do Origins Museum of Nature, nas Ilhas Galápagos (2020–2021). Desenvolve atividades de divulgação científica nas áreas ligadas às origens, com produção de e-books, capítulos de livros, artigos e vídeos. Também é formadora de Ciências e Biologia para a Igreja Adventista na região Sul do Brasil e consultora de didáticos na Casa Publicadora Brasileira (CPB). Atualmente, é professora e coordenadora associada de Extensão e Pesquisa na Faculdade Adventista do Paraná (FAP) e coordenadora associada do curso de pós-graduação em Filosofia, Ciência e Religião na mesma instituição.