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Coluna | Felipe Lemos

A força da comunicação positiva espiritual

Em uma sociedade que infelizmente valoriza o ódio como motor comunicacional, a fé bíblica oferece a perspectiva de uma comunicação diferente.


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A comunicação positiva, sobretudo espiritual, é uma reação muito importante ao tipo de comunicação que se propõe atualmente nas redes sociais. (Foto: Shutterstock e Gemini)

A famosa Universidade de Oxford, na Inglaterra, anunciou que a palavra oficial do ano de 2025 é rage bait. Em português, alguns têm traduzido como “isca de raiva”. No comunicado, Oxford informou que três palavras chegaram como finalistas e, após três dias de votação, mais de 30 mil pessoas participaram, elegendo rage bait como o termo do ano.

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Rage bait pode ser definido como um conteúdo online pensado e planejado para provocar raiva ou indignação nas pessoas. Muitas vezes é ofensivo, agressivo e deliberadamente polarizador. O grande objetivo desse tipo de publicação é aumentar tráfego e engajamento em páginas da web ou em conteúdos específicos de redes sociais.

A ideia de isca é bem adequada. A isca no anzol não é a finalidade da pescaria; ela existe para atrair o peixe. No ambiente digital, algo semelhante ocorre: um dos motores que têm movido as interações é o ódio, a agressividade e o embate constante. A isca é a raiva; a captura é o clique, o comentário e o compartilhamento.

Menos ação concreta, mais viralização

Alguém poderia argumentar: se a raiva gera mobilização e ações para melhorar a vida, será que não valeria a pena tolerar esse tipo de linguagem nas redes sociais? O problema é que pesquisas recentes indicam exatamente o contrário.

Hoje, com um clique, uma pessoa curte, compartilha ou comenta conteúdos ligados ao que se chama de indignação moral: reações de raiva e repulsa diante de injustiças, frequentemente justificadas por um desejo de ver algum tipo de justiça acontecer. No entanto, essa indignação moral nem sempre se converte em ação concreta.

O artigo intitulado Moral Outrage Predicts the Virality of Petitions for Change on Social Media, But Not the Number of Signatures They Receive, publicado na revista Social Psychological and Personality Science, analisou 24.785 petições ativas no site Change.org e 1.286.442 posts em inglês na plataforma X/Twitter que continham links para essas petições. O objetivo era entender se a indignação moral, as postagens carregadas de raiva e repulsa diante de injustiças, levaria a ações práticas ou seria apenas recompensada pelo sistema algorítmico das plataformas.

O estudo mostrou que posts com maior carga de indignação moral recebem mais curtidas e repostagens. Em outras palavras, se encaixam perfeitamente na lógica básica das redes sociais: manter todos dentro do mesmo ecossistema digital, ainda que indignados, protestando e reagindo, mas muitas vezes bem distantes dos problemas reais e no conforto do clique fácil. Porém, não houve evidência de que essa indignação moral tenha levado a um número maior de assinaturas nas petições (efeito praticamente nulo nesse sentido).

Comunicação que move

Nesse contexto digital e, também, bíblico-cristão, é importante refletir que tipo de comunicação desejamos praticar. Especialmente se buscamos uma alternativa mais saudável e eficaz do que a comunicação baseada em ódio, agressividade e embate, tão estimulada pelos algoritmos.

A lógica das redes favorece uma indignação que se esgota em postagens raivosas, sem muito resultado prático. Em contraste, a comunicação cristã se apresenta como uma comunicação positiva, que move as pessoas a fazer algo concreto em favor dos outros. Ela se sustenta, principalmente, em dois aspectos: ensino e chamado à ação.

Gosto dos conselhos do apóstolo Paulo a Timóteo, que estava em Éfeso quando recebeu uma epístola de incentivo e orientação. Ali o jovem líder é aconselhado: “Até a minha chegada, dedique-se à leitura pública das Escrituras, à exortação, ao ensino” (1 Timóteo 4:13, versão NAA). O ensino sempre foi fundamental na então embrionária igreja cristã, porque, a longo prazo, transforma pessoas e muda realidades. O cristianismo dificilmente teria exercido tanto impacto se não houvesse um trabalho sólido de educação de base, em que apóstolos e pregadores saíram ensinando em várias partes do mundo.

Hoje, porém, valoriza-se pouco a comunicação que ensina. O imediatismo adoecido de parte da sociedade contemporânea busca respostas rápidas, relacionamentos superficiais e conteúdos descartáveis. Quase tudo é facilmente esquecido em meio à profusão de dados descontextualizados e mal compreendidos.

Pessoas e organizações que investem em comunicação por meio da educação de conceitos, valores e princípios estão plantando hoje para colher amanhã. Isso realmente demanda mais tempo e, muitas vezes, não gera conteúdos virais nem produz explosões de engajamento em curto prazo. Mas o ensino deixa marcas consistentes e profundas.

Ação prática

Um dos grandes dilemas da comunicação digital moderna é a capacidade das pessoas de se indignarem sem agir. O cristianismo bíblico nos mostra que o ensino verdadeiro leva à ação; no caso da religião, conduz a uma fé prática que opera em favor do próximo.

Mais uma vez, Paulo orienta Timóteo. Desta vez, já preso em Roma. Em sua segunda epístola, ele afirma: “Porque Deus não nos deu espírito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação” (2 Timóteo 1:7, versão NAA). Poder, amor e moderação são, em essência, a fé em ação. Paulo declara que o espírito de covardia não deve guiar o cristão. Logo, quem crê é chamado a agir de maneira concreta, agradando a Deus e auxiliando as pessoas.

Ellen White, profetisa e pioneira adventista, escreveu que “a fé genuína se manifestará em boas obras, pois boas obras são frutos da fé”. Em outras palavras, fé que não se traduz em atitude fica apenas no discurso.

Dicas práticas

Se você não deseja ser vítima e nem agressor, pense em algumas possibilidades:

1. Pause antes de reagir: não comente no calor da emoção

Antes de curtir, comentar ou compartilhar um conteúdo que provoque raiva, faça uma pausa intencional. Pergunte a si mesmo: Isso é verdade? Isso me ajuda a entender melhor a situação ou só me deixa mais irritado?

2. Verifique fonte e intenção: quem ganha com a minha raiva?

Antes de clicar ou espalhar um conteúdo indignado, vale checar se as fontes são confiáveis ou só têm polêmica; além disso, é preciso analisar se o texto ou vídeo apresentam fatos, ou apenas frases inflamadas e generalizações.

Quando você se acostuma a perguntar “quem ganha com a minha raiva?”fica mais fácil perceber quando está sendo manipulado. E, assim, evita ser vítima do rage bait e, também, deixa de funcionar como multiplicador dessa agressividade.

3. Transformar indignação em ação concreta e linguagem respeitosa

Indignar-se com a injustiça pode ser algo legítimo, mas a saída cristã não é o ataque pessoal, e sim a ação responsável e a comunicação respeitosa. Ao invés de partir para o desabafo agressivo nas redes: procure se informar melhor sobre o tema e apoie iniciativas sérias que enfrentam o problema (projetos, instituições, ações práticas).

A comunicação positiva, especialmente no âmbito espiritual, convida as pessoas a saírem do terreno confortável do discurso negativo e estéril. É um movimento em direção à mudança real — no próprio comportamento e no mundo ao redor. A fé bíblica não é inativa, nem meramente contemplativa, muito menos restrita a reclamações e críticas genéricas. Ela opera para fazer diferença concreta na vida de muitas pessoas.

Em resumo, ensino que leva à ação é o que realmente precisa acontecer. É menos chamativo do que o rage bait, mas tende a ser mais efetivo e a produzir resultados mais duradouros, tanto na vida de quem comunica quanto na de quem recebe a mensagem.


Referências:

1.OXFORD UNIVERSITY PRESS. The Oxford Word of the Year 2025 is rage bait. 1 dez. 2025. Disponível em: <https://corp.oup.com/news/the-oxford-word-of-the-year-2025-is-rage-bait/\>. Acesso em: 3 dez. 2025.

2. WHITE, Ellen G. Justificados pela fé. In: WHITE, Ellen G. Mensagens escolhidas. Vol. 1. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2021. p. 397.


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Felipe Lemos

Felipe Lemos

Comunicação estratégica

Ideias para uma melhor comunicação pessoal e organizacional.

Jornalista, especialista em marketing, comunicação corporativa e mestre na linha de Comunicação nas Organizações. Autor de crônicas e artigos diversos. Gerencia a Assessoria de Comunicação da sede sul-americana adventista, localizada em Brasília. @felipelemos29