Aos 5 anos e surdo, Eliel cresce em uma família decidida a tornar a fé acessível a ele
Menino é acompanhado por pais e fiéis que aprenderam Libras para incluí-lo na vida espiritual

Andreia e Leonardo Rocha enfrentam uma realidade que é a de milhares de famílias brasileiras. Segundo o Censo Escolar 2022, divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), vinculado ao Ministério da Educação (MEC), em 2023, 61.594 alunos matriculados na educação básica no Brasil têm alguma deficiência relacionada à surdez. Desde que descobriram a perda auditiva de Eliel, a maior preocupação do casal tem sido garantir que a mensagem bíblica também chegue até o filho.
A acessibilidade nas igrejas ainda é uma construção recente no Brasil, mas a família tem visto esse caminho avançar através de iniciativas como o Ministério Adventista das Possibilidades (MAP) e do empenho de membros que se dispõem a aprender Libras para incluir crianças como Eliel.
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Professora que decidiu aprender Libras por ele
Todos os sábados, na classe de Infantis da Escola Sabatina, Eliel acompanha a lição pelas mãos de Rute Bichet. Quando soube que o menino era surdo e estava prestes a ingressar na turma, formada por crianças de 4 a 6 anos, Rute se dispôs a fazer aulas de Libras para poder ensiná-lo. Hoje é ela quem leva a lição até Eliel, sinal por sinal, e se tornou, segundo Andreia, a "tão estimada professora" do filho.

O gesto de Rute não é isolado. A igreja que a família frequenta também passou a administrar um curso básico de Libras, que já formou 13 pessoas na congregação. São passos ainda curtos, na avaliação de Andreia, mas que mostram um caminho possível. "Na igreja temos dado alguns curtos passos em relação à acessibilidade", diz ela, "mas o passo mais importante foi dado pela nossa querida irmã Rute."
Diagnóstico que veio aos poucos
Eliel não nasceu surdo. Segundo Andreia, a suspeita da família é de que a perda auditiva tenha se instalado por volta dos 7 meses de vida, período em que o menino teve um refluxo associado a uma perda de peso repentina. Porém, algum tempo depois, uma professora da escola percebeu sinais de que algo não ia bem e orientou a família a buscar avaliação médica.
O caminho até a confirmação não foi rápido. Os médicos indicaram um exame chamado BERA, que mede a resposta do cérebro a estímulos sonoros e, em crianças pequenas, precisa ser feito sob sedação. A família teve que arrecadar o valor do procedimento, e o exame só foi realizado quando Eliel já tinha 3 anos. O resultado apontou uma perda auditiva mista, nos dois ouvidos, de origem neurossensorial, ligada a uma alteração nos nervos responsáveis pela audição, moderadamente severa no ouvido direito e severa no esquerdo.
"Foi um misto de sentimentos na nossa família", conta Andreia. "Começamos a pensar em como seria difícil ter que lidar com a falta de acessibilidade, com as barreiras na comunicação, medo de não conseguir nos comunicar bem." A mãe descreve esse período como parte do que chama de "luto do filho perfeito", um processo que, segundo ela, hoje já está superado.

A escola e a comunidade surda
Hoje Eliel estuda na Escola de Educação Especial Bilíngue Professor Alfredo Dub, uma escola de surdos onde, segundo Andreia, a família é acolhida e incentivada a manter contato com a comunidade surda, algo que ela considera indispensável para a construção da identidade do filho.
Diretora que também é mãe

Andreia integra o Ministério Adventista das Possibilidades (MAP), voltado ao acolhimento de pessoas que necessitam de acessibilidade. Ela conta que, no início, não compreendia bem a proposta do ministério e chegou a se sentir ‘um pouco egoísta’, por perceber que havia aceitado ser diretora do MAP também por interesse pessoal na inclusão do próprio filho.
Esse sentimento mudou com a convivência com Kátia Quadros, intérprete e coordenadora do MAP na União Sul-Brasileira (USB), sede administrativa da Igreja Adventista para a região Sul do país. "Ela nos acolheu, mostrou que eu não precisava me sentir egoísta, que o Eliel é um presente de Deus e não há nada de errado em lutar pela inclusão dele", diz Andreia. Para ela, o MAP ainda é um ministério em fase de crescimento em sua região, mas que, segundo acredita, "com a graça de Deus, irá abençoar muitas vidas".
Congresso que reforçou a missão da família
Foi nesse contexto de fé e busca por inclusão que a família de Eliel participou, entre os dias 19 e 21 de junho, do 1º Congresso de Surdos Adventistas da região Sul do Brasil, realizado na Fazenda Maranata, em Sentinela do Sul (RS). O evento reuniu 113 pessoas, entre surdos, intérpretes, adventistas e amigos não adventistas, vindos não só do Rio Grande do Sul, mas de estados como Bahia, Espírito Santo, Maranhão, São Paulo, Minas Gerais, Distrito Federal, além de participantes do Uruguai.

Organizado pela comunidade surda da USB, sob coordenação de Kátia Quadros, o congresso teve como tema "Coração Fiel, o Jeito de Ser de Isaque", inspirado no personagem bíblico filho de Abraão. Segundo Kátia, ao longo dos dias foram trabalhadas as habilidades espirituais e socioemocionais associadas a Isaque por meio de encenações e do estudo da Palavra, ministrado pelo evangelista surdo Alex Silva, de Brasília. "À tarde realizamos a Trilha de Isaque, um circuito de dinâmicas e atividades práticas para treinar as habilidades de Isaque aprendidas", conta a organizadora, "e para encerrar, após finalizar o circuito, todos receberam um pin comemorativo como lembrança, para serem 'fiel até a morte e dar-te-ei a coroa da vida'."
O congresso teve ainda a participação de Waldenildo, surdo profundo que toca violão e compõe músicas, e que se apresentou após os sermões de sábado. No domingo pela manhã, a programação foi livre, e os participantes puderam explorar a fazenda e viver um dia de vida no campo, com passeios a cavalo, ordenha de vacas, brincadeiras com ovelhas, pedalinho no lago, bergamota colhida direto do pé e descida de tirolesa.
Para Andreia, participar do encontro foi "gratificante demais". "Lá percebemos que a vida espiritual de uma criança surda deve ser amparada pela igreja, de modo que ele não se sinta excluído", diz. A família conheceu histórias de surdos bem desenvolvidos em suas áreas de atuação, dentro e fora da igreja. Esses relatos, segundo ela, confortaram e estimularam ainda mais a luta pela inclusão de Eliel na congregação que ele frequenta desde bebê. "Todos os surdos que conhecemos lá fazem parte de igrejas com intérpretes e de um ministério que cresceu e levou a mensagem através da Libras para os surdos. Lá entendemos que temos uma missão, não só como família, mas como cristãos."
E foi Eliel quem deu, à sua mãe, um dos momentos mais marcantes do congresso. "No final, nosso filho foi abraçando cada um e sinalizando 'todos aqui são amigos', o que nos emocionou demais", relembra Andreia.
Mensagem para outras famílias
Ao pensar em outras famílias que enfrentam desafios semelhantes e que desejam envolver os filhos na fé mesmo sem materiais ou apoio adaptado à disposição, Andreia deixa um recado direto. "Corram atrás da inclusão, ela não chegará até você em uma bandeja, mas peça a Deus e ao Espírito Santo que vocês sejam fortalecidos e não esmoreçam. Não é uma luta fácil, encontramos muitas barreiras, mas vale a pena pela fé, pelo amor a Cristo e pela vida espiritual de todos da família."
E complementa com um convite que estende à igreja como um todo. "Se tem uma pessoa surda na sua família, na sua comunidade, na sua igreja, aprenda Libras, se comunique, inclua. O maior beneficiado será você, pode acreditar."