{"id":436590,"date":"2025-11-05T06:00:00","date_gmt":"2025-11-05T09:00:00","modified":"2025-11-06T11:42:30","modified_gmt":"2025-11-06T14:42:30","slug":"entre-idolos-e-ideologias-quando-o-evangelho-vira-partidarismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/noticias.adventistas.org\/pt\/entre-idolos-e-ideologias-quando-o-evangelho-vira-partidarismo\/","title":{"rendered":"Entre \u00eddolos e ideologias:\u00a0quando o evangelho vira partidarismo\u00a0"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><a href=\"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2025\/11\/biblialateral.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"960\" height=\"540\" src=\"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2025\/11\/biblialateral-960x540.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-436593\" srcset=\"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2025\/11\/biblialateral-960x540.jpg 960w, https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2025\/11\/biblialateral-480x270.jpg 480w, https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2025\/11\/biblialateral-240x135.jpg 240w\" sizes=\"(max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">A B\u00edblia Sagrada apresenta claras orienta\u00e7\u00f5es sobre os problemas do partidarismo. (Foto: Shutterstock)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Era uma vez um reino dividido...&nbsp;N\u00e3o por espadas ou muralhas, mas por bandeiras. Vermelhas, verdes, azuis. No meio desse campo de batalha simb\u00f3lico, havia uma igreja, uma casa de ora\u00e7\u00e3o transformada, pouco a pouco, em quartel de opini\u00f5es, trincheira de ideologias e palanque de paix\u00f5es partid\u00e1rias baseadas em ideologias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O p\u00falpito, que antes ecoava a mensagem do&nbsp;reino eterno, agora tremia sob o peso de discursos terrenos. E os crist\u00e3os come\u00e7aram a se parecer mais com&nbsp;ativistas ou&nbsp;militantes de partidos em guerra&nbsp;do que com peregrinos em miss\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Leia tamb\u00e9m:<\/h4>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><a href=\"https:\/\/noticias.adventistas.org\/pt\/a-relacao-conflituosa-entre-ensinos-biblicos-e-ideologias-politicas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">A rela\u00e7\u00e3o conflituosa entre ensinos b\u00edblicos e ideologias pol\u00edticas<\/a><\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Neste cen\u00e1rio, precisamos fazer&nbsp;algumas&nbsp;perguntas&nbsp;urgentes:&nbsp;O&nbsp;que acontece quando a f\u00e9 se torna ref\u00e9m de um partido&nbsp;ou ideologia?&nbsp;Por que n\u00e3o devemos&nbsp;transformar a pol\u00edtica em religi\u00e3o e a religi\u00e3o em palanque?&nbsp;Que tipo de testemunho estamos oferecendo ao mundo quando permitimos que ideologias pol\u00edticas moldem nossa compreens\u00e3o do evangelho?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Mundo em ebuli\u00e7\u00e3o&nbsp;<\/h4>\n\n\n\n<p>Antes de&nbsp;qualquer resposta,&nbsp;vale considerar&nbsp;algumas situa\u00e7\u00f5es cr\u00edticas&nbsp;que nos cercam.&nbsp;Vivemos uma era de transforma\u00e7\u00f5es&nbsp;vertiginosas&nbsp;e desafios profundos, em que a pol\u00edtica global parece caminhar sobre terreno inst\u00e1vel. O cen\u00e1rio de 2025 exp\u00f5e um mundo em permanente tens\u00e3o, abalado por&nbsp;rivalidades&nbsp;geopol\u00edticas, disputa feroz de interesses e&nbsp;eros\u00e3o&nbsp;acelerada de valores.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os conflitos armados&nbsp;seguem&nbsp;assombrando&nbsp;o planeta. A&nbsp;guerra na Ucr\u00e2nia,&nbsp;longe de um desfecho, arrasta-se&nbsp;h\u00e1 mais de tr\u00eas anos&nbsp;como uma ferida aberta no leste europeu, com&nbsp;resultados&nbsp;devastadores para as popula\u00e7\u00f5es locais&nbsp;e&nbsp;para o equil\u00edbrio pol\u00edtico entre o Ocidente e a R\u00fassia.&nbsp;A&nbsp;tentativa&nbsp;russa de anexar&nbsp;\u00e1reas&nbsp;do territ\u00f3rio ucraniano,&nbsp;somada a&nbsp;outras exig\u00eancias&nbsp;para se falar em paz,&nbsp;constitui&nbsp;uma afronta flagrante a qualquer princ\u00edpio de justi\u00e7a.&nbsp;Afinal,&nbsp;o territ\u00f3rio n\u00e3o \u00e9 apenas uma \u00e1rea geogr\u00e1fica, mas \u201cum espa\u00e7o de narrativas, identidades coletivas e imagens cient\u00edficas, incluindo as cartogr\u00e1ficas, moldadas por tradi\u00e7\u00f5es formais e informais complexas\u201d, como&nbsp;destaca o cientista pol\u00edtico Oscar&nbsp;Mazzoleni   (<em>Territory&nbsp;and&nbsp;Democratic&nbsp;Politics<\/em>&nbsp;[Palgrave&nbsp;Macmillan, 2024], p. 128).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No Oriente M\u00e9dio, a escalada entre Israel e grupos&nbsp;terroristas&nbsp;como Hamas e Hezbollah&nbsp;extrapola&nbsp;os limites regionais. A dificuldade em alcan\u00e7ar&nbsp;uma solu\u00e7\u00e3o&nbsp;reflete a complexidade hist\u00f3rica,&nbsp;pol\u00edtica, econ\u00f4mica, ideol\u00f3gica e&nbsp;religiosa de um&nbsp;conflito marcado&nbsp;por d\u00e9cadas de viol\u00eancia e desconfian\u00e7a. Interesses externos e rivalidades locais&nbsp;continuam a&nbsp;alimentar&nbsp;o ciclo de hostilidades, tornando a&nbsp;paz&nbsp;duradoura um desafio&nbsp;quase insuper\u00e1vel.&nbsp;Infelizmente, a proposta de dois Estados (Israel e Palestina), que parece racional, ainda n\u00e3o \u00e9 aceita por muitos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse ambiente, a ordem global tamb\u00e9m se redesenha.&nbsp;Enquanto na \u00e9poca da Guerra Fria o bloco dos Estados Unidos e&nbsp;seus aliados&nbsp;representava 64% do PIB global, o bloco da Uni\u00e3o sovi\u00e9tica e&nbsp;seus aliados&nbsp;somava&nbsp;19% e os&nbsp;pa\u00edses&nbsp;n\u00e3o alinhados 8%,&nbsp;hoje&nbsp;o bloco&nbsp;norte-americano e aliados&nbsp;equivale a 30%, o&nbsp;subbloco&nbsp;europeu&nbsp;a 13%, o bloco dos desafiantes (incluindo China e R\u00fassia) a 27% e&nbsp;os&nbsp;pa\u00edses com m\u00faltiplos alinhamentos a 22%. Os dados s\u00e3o do estudo&nbsp;State&nbsp;of&nbsp;Our&nbsp;World 2025, do&nbsp;Oliver Wyman&nbsp;Forum.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No&nbsp;mundo multipolar&nbsp;atual, Estados Unidos, China, R\u00fassia, Uni\u00e3o Europeia, \u00cdndia e outras na\u00e7\u00f5es disputam&nbsp;influ\u00eancia&nbsp;pol\u00edtica, econ\u00f4mica e tecnol\u00f3gica.&nbsp;E novas formas de imperialismo surgem&nbsp;no horizonte, enquanto o&nbsp;multilateralismo, que por d\u00e9cadas sustentou algum equil\u00edbrio,&nbsp;encontra-se&nbsp;sob&nbsp;crescente&nbsp;press\u00e3o.&nbsp;Institui\u00e7\u00f5es internacionais como a ONU&nbsp;(Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas)&nbsp;e a OMS&nbsp;(Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade)&nbsp;s\u00e3o vistas com crescente desconfian\u00e7a, acusadas de inefic\u00e1cia ou parcialidade.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Democracias mais fracas&nbsp;<\/h4>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m das amea\u00e7as b\u00e9licas, outro fen\u00f4meno inquietante se espalha silenciosamente: o enfraquecimento das democracias. Em diversos pa\u00edses, vemos o crescimento do autoritarismo, a supress\u00e3o de liberdades civis, a manipula\u00e7\u00e3o eleitoral e o uso da desinforma\u00e7\u00e3o como arma pol\u00edtica. O populismo, impulsionado pelas&nbsp;redes sociais, tem corro\u00eddo institui\u00e7\u00f5es e distanciado as sociedades de um debate saud\u00e1vel.&nbsp;A polariza\u00e7\u00e3o se adensa como nuvem de tempestade sobre a paisagem social. O di\u00e1logo cede lugar ao duelo, e o debate, que deveria ser a arena da conviv\u00eancia democr\u00e1tica, \u00e9 substitu\u00eddo por trincheiras cavadas na areia movedi\u00e7a das narrativas absolutas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No&nbsp;Brasil&nbsp;e em outros pa\u00edses sul-americanos, a tens\u00e3o crescente entre defensores de polos pol\u00edticos antag\u00f4nicos reflete uma crise mais ampla de confian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es, radicaliza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e politiza\u00e7\u00e3o de entidades independentes. Esse cen\u00e1rio alimenta a instabilidade democr\u00e1tica, fragiliza o di\u00e1logo e coloca&nbsp;os pa\u00edses&nbsp;entre as na\u00e7\u00f5es em que a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica se tornou um risco real \u00e0 coes\u00e3o social e \u00e0 governabilidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O nacionalismo&nbsp;religioso, ao fundir f\u00e9 e identidade nacional, transforma a devo\u00e7\u00e3o em arma e o \u201cn\u00f3s\u201d contra \u201celes\u201d em doutrina.&nbsp;Philip Gorski descreve o nacionalismo crist\u00e3o como uma \u201cesp\u00e9cie de&nbsp;hiperpatriotismo&nbsp;apocal\u00edptico e nativista\u201d (<em>American&nbsp;Covenant<\/em>&nbsp;[Princeton&nbsp;University&nbsp;Press, 2017], p\u00e1gina&nbsp;7).&nbsp;Esse fen\u00f4meno alimenta conflitos, sufoca minorias e mina os princ\u00edpios democr\u00e1ticos, tornando-se uma das for\u00e7as mais perigosas por tr\u00e1s da polariza\u00e7\u00e3o global e da escalada da intoler\u00e2ncia.&nbsp;Como discorrem N. T. Wright e Michael F. Bird em&nbsp;<em>Jesus&nbsp;and&nbsp;the&nbsp;Powers<\/em>&nbsp;(Zondervan, 2024), a mensagem do reino de Deus confronta os poderes terrenos, mas os crist\u00e3os n\u00e3o s\u00e3o chamados a instituir uma teocracia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A imposi\u00e7\u00e3o de altas&nbsp;tarifas sobre importa\u00e7\u00f5es e exporta\u00e7\u00f5es entre pa\u00edses, que recentemente ganhou um novo cap\u00edtulo, tem&nbsp;trazido grande turbul\u00eancia, com potencial para causar graves efeitos colaterais.&nbsp;As crises migrat\u00f3rias atingem n\u00edveis alarmantes.&nbsp;O total estimado de migrantes internacionais chegou&nbsp;a 304 milh\u00f5es, o que representa 3,7% da popula\u00e7\u00e3o mundial, segundo um estudo da ONU intitulado International&nbsp;Migrant&nbsp;Stock 2024, divulgado em 2025.&nbsp;Milh\u00f5es de pessoas s\u00e3o for\u00e7adas a deixar suas casas&nbsp;devido a&nbsp;guerras, fome, persegui\u00e7\u00f5es ou mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m das estat\u00edsticas, o problema&nbsp;ganhou contornos de um radicalismo&nbsp;sem precedentes.&nbsp;Enquanto alguns pa\u00edses&nbsp;lutam para acolher e integrar,&nbsp;v\u00e1rios&nbsp;outros&nbsp;erguem barreiras.&nbsp;A&nbsp;press\u00e3o social,&nbsp;pol\u00edtica&nbsp;e policial&nbsp;\u00e9 enorme, e o discurso xenof\u00f3bico encontra terreno f\u00e9rtil em tempos de medo.&nbsp;A radicaliza\u00e7\u00e3o das&nbsp;pol\u00edticas&nbsp;de imigra\u00e7\u00e3o&nbsp;revela&nbsp;uma mudan\u00e7a ideol\u00f3gica&nbsp;profunda, cujos&nbsp;efeitos&nbsp;atravessam&nbsp;fronteiras e impactam&nbsp;o fluxo migrat\u00f3rio em escala global.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em um mundo em r\u00e1pida mudan\u00e7a, pautas culturais, sexuais e \u00e9ticas\u00a0se\u00a0tornaram campos decisivos de disputa pelo futuro da sociedade. Esses temas exp\u00f5em o choque entre tradi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e novas vis\u00f5es de mundo, exigindo coragem e lucidez para lidar com sua complexidade.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Acrescente-se a isso o impacto avassalador da tecnologia. Recursos digitais e intelig\u00eancia artificial avan\u00e7am em ritmo acelerado, desafiando governos a estabelecer regulamenta\u00e7\u00f5es capazes de garantir seguran\u00e7a e \u00e9tica. O uso dessas tecnologias para manipular informa\u00e7\u00f5es e os ataques cibern\u00e9ticos a infraestruturas cr\u00edticas s\u00e3o apenas alguns dos novos riscos que se imp\u00f5em.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Paralelamente, o planeta clama por socorro diante da crise clim\u00e1tica. Enchentes devastadoras, secas prolongadas e ondas de calor j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o previs\u00f5es distantes, mas realidades cotidianas.&nbsp;Esses&nbsp;novos&nbsp;desafios globais e nacionais, somados aos persistentes problemas de desigualdade, corrup\u00e7\u00e3o, inseguran\u00e7a e viol\u00eancia, fazem do mundo um lugar cada vez mais inst\u00e1vel, sombrio e dif\u00edcil de governar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">A tenta\u00e7\u00e3o da partidariza\u00e7\u00e3o&nbsp;<\/h4>\n\n\n\n<p>Nesse ambiente carregado de tens\u00e3o,&nbsp;em que&nbsp;cada grupo ergue seu altar de certezas e sacrifica a escuta em nome da lealdade partid\u00e1ria, os crist\u00e3os&nbsp;podem ser&nbsp;tentados a trocar a cruz pelo estandarte de suas prefer\u00eancias pol\u00edticas, como se o&nbsp;reino de Deus, que transcende as ideologias humanas,&nbsp;estivesse circunscrito \u00e0 l\u00f3gica de um lado apenas.&nbsp;O reino \u00e9 sequestrado e instrumentalizado&nbsp;por ideologias ditas alinhadas ao que se conhece como esquerda e direita.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os&nbsp;apelos ideol\u00f3gicos e o sentimento de urg\u00eancia moral tornam atraente a ideia de alinhar o evangelho a um partido, a uma bandeira ou a um l\u00edder humano.&nbsp;Em certos casos, a lealdade pol\u00edtica tem rivalizado com a fidelidade ao evangelho<em>.&nbsp;<\/em>No entanto, essa mistura \u00e9 como \u00e1gua e gasolina: pode parecer compat\u00edvel \u00e0 primeira vista, mas, quando posta sob press\u00e3o, explode em divis\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A partidariza\u00e7\u00e3o da f\u00e9 se&nbsp;insinua de forma&nbsp;sutil, oferecendo aos disc\u00edpulos de Cristo o c\u00e1lice do poder imediato, do engajamento inflamado e da ret\u00f3rica sem miseric\u00f3rdia. \u00c9 f\u00e1cil confundir zelo com raiva&nbsp;e convic\u00e7\u00e3o com milit\u00e2ncia cega.&nbsp;Essa tend\u00eancia est\u00e1 criando ra\u00edzes no solo&nbsp;do cristianismo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa&nbsp;tenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nova, mas hoje ela ressurge com intensidade febril, amplificada pelas redes digitais que transformam cada cidad\u00e3o em pregador de suas pr\u00f3prias certezas, e cada&nbsp;<em>feed&nbsp;<\/em>em p\u00falpito. A cruz, que chama \u00e0 ren\u00fancia de si, \u00e0 humildade e ao amor pelo inimigo, \u00e9 substitu\u00edda por uma espada empunhada em nome de causas que, ainda que leg\u00edtimas em parte, n\u00e3o podem usurpar o trono de Cristo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a f\u00e9 se torna bandeira de ideologias humanas&nbsp;e a identidade crist\u00e3 \u00e9 sugada pelo v\u00f3rtice da polariza\u00e7\u00e3o, o evangelho come\u00e7a a ser moldado \u00e0 imagem de um projeto pol\u00edtico, e n\u00e3o o contr\u00e1rio. Jesus deixa de ser o Cordeiro que tira o pecado do mundo para Se tornar \u201cmascote\u201d de partido&nbsp;\u2013&nbsp;um Cristo capturado por slogans, instrumentalizado por discursos, distorcido por paix\u00f5es ideol\u00f3gicas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o&nbsp;\u00e9&nbsp;s\u00f3&nbsp;a&nbsp;religi\u00e3o&nbsp;que&nbsp;influencia&nbsp;a&nbsp;pol\u00edtica;&nbsp;uma&nbsp;identidade&nbsp;partid\u00e1ria&nbsp;forte&nbsp;tem&nbsp;efeitos&nbsp;religiosos, como mostra Michele F.&nbsp;Margolis&nbsp;no&nbsp;livro&nbsp;<em>From Politics to the Pews<\/em>&nbsp;(University of Chicago Press, 2018).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, quando a pol\u00edtica sequestra a f\u00e9, o sal perde seu sabor e a luz se apaga. As poderosas met\u00e1foras de Cristo em Mateus 5:13-16 n\u00e3o s\u00e3o&nbsp;meras figuras&nbsp;po\u00e9ticas; s\u00e3o diagn\u00f3sticos espirituais&nbsp;profundos. Elas&nbsp;apontam para uma atua\u00e7\u00e3o consciente e equilibrada,&nbsp;sem imposi\u00e7\u00e3o nem fuga.&nbsp;A aus\u00eancia do&nbsp;sal&nbsp;deixa o mundo insosso e vulner\u00e1vel \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, mas o&nbsp;excesso&nbsp;o&nbsp;torna intrag\u00e1vel, adoecendo o corpo social. A luz, escondida, falha em guiar; mas, quando confundida com outras luzes ou intensificada de modo descontrolado, cega em vez de revelar, e j\u00e1 n\u00e3o distingue os contornos da geografia moral e \u00e9tica.&nbsp;Cristo nos chama a sermos presen\u00e7a transformadora: sal que cura e luz que revela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, \u00e9 urgente que os crist\u00e3os olhem para al\u00e9m das bandeiras humanas e recobrem o senso de alteridade&nbsp;(olhar o outro)&nbsp;e transcend\u00eancia que o&nbsp;evangelho exige. O&nbsp;reino de Deus n\u00e3o \u00e9 de direita nem de esquerda,&nbsp;nem conservador ou progressista,&nbsp;mas de justi\u00e7a, paz e alegria no Esp\u00edrito Santo. A igreja n\u00e3o \u00e9 um comit\u00ea de campanha, mas um corpo vivo que testemunha o amor de Cristo em meio \u00e0s ru\u00ednas do \u00f3dio. Em tempos de polariza\u00e7\u00e3o, permanecer fiel a Jesus \u00e9 resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de ser devoto de C\u00e9sar.&nbsp;A voca\u00e7\u00e3o do crist\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a de um soldado de guerra pol\u00edtica e cultural, mas a de um embaixador da reconcilia\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA cruz oferece uma justificativa radicalmente diferente para a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica crist\u00e3, pois demonstra que n\u00e3o vencemos por demonstra\u00e7\u00f5es de poder\u201d, escreve Daniel K. Williams. \u201cEla tamb\u00e9m mostra que j\u00e1 conquistamos a vit\u00f3ria definitiva e que nosso&nbsp;Rei soberano j\u00e1 est\u00e1 no trono\u201d (<em>The&nbsp;Politics&nbsp;of&nbsp;the&nbsp;Cross<\/em>&nbsp;[Eerdmans, 2021], p.&nbsp;9).&nbsp;A cruz redefine vit\u00f3ria e poder: na pol\u00edtica do evangelho, o trono \u00e9 conquistado com sangue, n\u00e3o com espada; n\u00e3o conquistamos, fomos conquistados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Cidadania sem siglas&nbsp;<\/h4>\n\n\n\n<p>As igrejas comprometidas com o evangelho, bem como seus l\u00edderes, t\u00eam s\u00f3lidos motivos para evitar qualquer tipo de engajamento partid\u00e1rio, mesmo quando ele se apresenta de forma sutil ou informal. O ap\u00f3stolo Paulo adverte que os crist\u00e3os n\u00e3o devem agir por \u201cpartidarismo\u201d (Filipenses\u00a02:3, ARA). O termo grego utilizado,\u00a0<em>eritheia<\/em>, originalmente denotava \u201cambi\u00e7\u00e3o ego\u00edsta\u201d\u00a0e \u201crivalidade\u201d, mas, no contexto pol\u00edtico,\u00a0tamb\u00e9m era empregado\u00a0para descrever \u201cintrigas de partido\u201d, \u201cdisputas por poder\u201d ou \u201cforma\u00e7\u00e3o de fac\u00e7\u00f5es\u201d.\u00a0O termo indicava ainda candidatos a cargos eletivos que cortejavam o aplauso popular por meio de truques e m\u00e9todos ileg\u00edtimos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Embora Paulo estivesse&nbsp;tratando das rela\u00e7\u00f5es dentro da comunidade crist\u00e3, o princ\u00edpio tem implica\u00e7\u00f5es mais amplas, inclusive para a maneira pela&nbsp;qual&nbsp;os crist\u00e3os se posicionam diante da pol\u00edtica. A busca por poder, influ\u00eancia ou identifica\u00e7\u00e3o com um grupo pol\u00edtico pode comprometer o testemunho do evangelho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Neutraliza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria&nbsp;<\/h4>\n\n\n\n<p>A seguir, apresento sete&nbsp;raz\u00f5es para a neutralidade partid\u00e1ria&nbsp;da&nbsp;igreja:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>1.\u00a0<\/em><strong><em>Argumento teol\u00f3gico:\u00a0o\u00a0reino de Deus \u00e9 eterno, os partidos s\u00e3o passageiros<\/em><\/strong><em>.<\/em>\u00a0A teologia crist\u00e3 enfatiza que o\u00a0reino de Deus n\u00e3o \u00e9 deste mundo (Jo\u00e3o\u00a018:36). Quando crist\u00e3os se tornam militantes partid\u00e1rios, correm o risco de\u00a0apagar a fronteira entre o eterno e o\u00a0tempor\u00e1rio. A igreja n\u00e3o pode confundir a cruz de Cristo com bandeira partid\u00e1ria, pois uma \u00e9 eterna e redentora, a outra \u00e9 transit\u00f3ria e fal\u00edvel.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><em>2.&nbsp;<\/em><strong><em>Argumento filos\u00f3fico: a&nbsp;milit\u00e2ncia imposta anula a consci\u00eancia crist\u00e3<\/em><\/strong><em>.<\/em>&nbsp;A filosofia crist\u00e3, desde os tempos antigos at\u00e9 pensadores contempor\u00e2neos, defende a centralidade da consci\u00eancia individual e da liberdade de pensamento. Ao se envolverem em milit\u00e2ncia partid\u00e1ria, l\u00edderes e membros da igreja podem impor vis\u00f5es ideol\u00f3gicas sobre a congrega\u00e7\u00e3o, suprimindo o di\u00e1logo, a reflex\u00e3o e a liberdade de consci\u00eancia que s\u00e3o fundamentais para o amadurecimento&nbsp;crist\u00e3o. A f\u00e9 se fortalece na liberdade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>3.&nbsp;<\/em><strong><em>Argumento hist\u00f3rico: o comprometimento com partidos deforma a miss\u00e3o da igreja<\/em><\/strong><em>.&nbsp;<\/em>A hist\u00f3ria mostra que a associa\u00e7\u00e3o direta entre igreja e partidos pol\u00edticos costuma gerar s\u00e9rias distor\u00e7\u00f5es da f\u00e9 crist\u00e3, como ocorreu em per\u00edodos em que o cristianismo se aliou ao poder estatal para perseguir dissidentes ou impor doutrinas. Esse tipo de&nbsp;envolvimento&nbsp;pol\u00edtico compromete o testemunho da igreja, reduzindo sua autoridade moral e espiritual diante da sociedade.&nbsp;Quando a igreja se casa com o poder pol\u00edtico, ela se divorcia do evangelho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>4.&nbsp;<\/em><strong><em>Argumento eclesiol\u00f3gico: a igreja deve ser casa de comunh\u00e3o, n\u00e3o trincheira ideol\u00f3gica<\/em><\/strong><em>.<\/em>&nbsp;A pluralidade pol\u00edtica entre os fi\u00e9is exige que a igreja se mantenha como um espa\u00e7o de acolhimento e unidade. Quando representantes da igreja assumem bandeiras partid\u00e1rias, inevitavelmente criam divis\u00f5es internas e afastam membros que pensam diferente, contrariando o chamado \u00e0 comunh\u00e3o e ao amor m\u00fatuo.&nbsp;Quando um partido entra pela porta da frente da igreja, muitos irm\u00e3os saem pela dos fundos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>5.&nbsp;<\/em><strong><em>Argumento missional: o foco da igreja \u00e9 Cristo, n\u00e3o&nbsp;os&nbsp;candidatos<\/em><\/strong><em>.<\/em>&nbsp;O testemunho crist\u00e3o deve apontar para Cristo, n\u00e3o para partidos ou l\u00edderes humanos. Quando a&nbsp;igreja \u00e9 associada a um grupo pol\u00edtico espec\u00edfico, ela corre o risco de ser instrumentalizada e sua mensagem confundida com os interesses de poder terreno. O compromisso crist\u00e3o deve ser com a justi\u00e7a, a verdade e o amor, n\u00e3o com ideologias passageiras e, muitas vezes, contradit\u00f3rias com os valores do evangelho. Se a voz da igreja ecoa slogans em vez do evangelho, ela j\u00e1 perdeu o p\u00falpito para o palanque.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>6.&nbsp;<\/em><strong><em>Argumento pastoral: a miss\u00e3o da igreja \u00e9 reconciliar, n\u00e3o polarizar<\/em><\/strong><em>.<\/em>&nbsp;A pol\u00edtica partid\u00e1ria, por sua natureza, divide, polariza e antagoniza. Por sua vez, o evangelho&nbsp;reconcilia&nbsp;as pessoas&nbsp;com Deus e&nbsp;umas com&nbsp;as outras (2&nbsp;Cor\u00edntios&nbsp;5:18-20). A igreja&nbsp;deve buscar&nbsp;caminhos de paz, reconcilia\u00e7\u00e3o e servi\u00e7o, sendo um ref\u00fagio espiritual acima das disputas ideol\u00f3gicas. Ao evitar a milit\u00e2ncia partid\u00e1ria, os crist\u00e3os preservam sua identidade e relev\u00e2ncia como mensageiros do&nbsp;reino eterno. Onde a igreja toma partido, ela perde sua voca\u00e7\u00e3o de ser ponte entre os opostos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>7.&nbsp;<\/em><strong><em>Argumento prof\u00e9tico: envolvimento partid\u00e1rio tende a comprometer a&nbsp;mensagem&nbsp;prof\u00e9tica da igreja<\/em><\/strong><em>.<\/em>&nbsp;O papel prof\u00e9tico exige independ\u00eancia cr\u00edtica para denunciar injusti\u00e7as em qualquer governo ou sistema. Milit\u00e2ncia partid\u00e1ria mina essa autoridade, pois a igreja passa a ser vista como c\u00famplice de um lado e inimiga do outro.&nbsp;Uma igreja partid\u00e1ria n\u00e3o profetiza;&nbsp;faz campanha.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No turbilh\u00e3o das crises e paix\u00f5es partid\u00e1rias atuais, em que todos parecem pressionados a escolher um lado, a igreja enfrenta a tenta\u00e7\u00e3o de confundir sua miss\u00e3o com milit\u00e2ncia partid\u00e1ria, abra\u00e7ando bandeiras que n\u00e3o lhe pertencem. \u00c9 preciso, por\u00e9m, resistir. Crist\u00e3os podem atuar na pol\u00edtica com coragem e discernimento, e a pr\u00f3pria igreja tem o dever de confrontar injusti\u00e7as e abusos de poder. Ainda assim, ela \u00e9 chamada a eleger o horizonte eterno, em vez de se prender \u00e0 luta passageira. Sua for\u00e7a n\u00e3o reside em votos, partidos ou alian\u00e7as ef\u00eameras, mas na capacidade de irradiar luz, verdade e esperan\u00e7a que nenhum partido jamais poder\u00e1 oferecer ou monopolizar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n\n\n\n<p><strong>Marcos De Benedicto<\/strong>&nbsp;\u00e9&nbsp;te\u00f3logo e&nbsp;editor em\u00e9rito da Casa&nbsp;Publicadora&nbsp;Brasileira&nbsp;e autor do livro&nbsp;<em>Pol\u00edtica: O que Voc\u00ea&nbsp;Precisa Saber<\/em>&nbsp;&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um alerta importante sobre os riscos de se transformar a religiosidade b\u00edblica em objeto de discuss\u00e3o com vi\u00e9s pol\u00edtico-partid\u00e1rio<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":436593,"comment_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"xtt-pa-format":[3884],"xtt-pa-classification":[],"xtt-pa-editorias":[4012],"xtt-pa-departamentos":[4013],"xtt-pa-projetos":[],"xtt-pa-regiao":[61],"xtt-pa-sedes":[119],"xtt-pa-owner":[1170],"class_list":["post-436590","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","xtt-pa-format-artigo","xtt-pa-editorias-politica-2","xtt-pa-departamentos-assuntos-publicos","xtt-pa-regiao-brasil","xtt-pa-sedes-dsa","xtt-pa-owner-divisao-sul-americana"],"acf":{"embed_url":"","embed_length":"","custom_author":"Marcos De Benedicto"},"terms":{"editorial":"Pol\u00edtica","format":"Artigo"},"featured_media_url":{"full":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2025\/11\/biblialateral.jpg","medium":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2025\/11\/biblialateral-768x512.jpg","small":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2025\/11\/biblialateral-240x135.jpg","pa-block-preview":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2025\/11\/biblialateral-240x135.jpg","pa-block-render":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2025\/11\/biblialateral-480x270.jpg"}}