{"id":389262,"date":"2024-11-02T07:00:00","date_gmt":"2024-11-02T10:00:00","modified":"2024-11-01T12:12:25","modified_gmt":"2024-11-01T15:12:25","slug":"senti-dor-de-morte-luto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/noticias.adventistas.org\/pt\/senti-dor-de-morte-luto\/","title":{"rendered":"\"\u00c9 uma dor de morte\", revela m\u00e3e que perdeu duas filhas"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><a href=\"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2024\/09\/shutterstock_1874080954.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"960\" height=\"515\" src=\"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2024\/09\/shutterstock_1874080954-960x515.jpg\" alt=\"luto\" class=\"wp-image-389264\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">O luto n\u00e3o acontece da mesma forma para todos, mas pode ser ressignificado (Foto: Shutterstock)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>H\u00e1 cinco anos, Deisy Moura recebeu a liga\u00e7\u00e3o que mudaria os dias que viriam. Suas duas filhas, com 7 e 13 anos foram v\u00edtimas de um acidente de tr\u00e2nsito que tirou suas vidas imediatamente. Come\u00e7ou ali o luto e o maior sofrimento que poderia imaginar.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Essa experi\u00eancia a levou a ser conselheira volunt\u00e1ria para os enlutados do <a href=\"https:\/\/www.adventistas.org\/pt\/possibilidades\/\">Minist\u00e9rio Adventista das Possibilidades (MAP)<\/a>, ajudando outros a ressignificar seus sentimentos em rela\u00e7\u00e3o a morte e todos os desdobramentos desse acontecimento.\u00a0Ela compartilha nesta entrevista como tem sido o processo de recome\u00e7ar a vida depois da trag\u00e9dia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><a href=\"https:\/\/noticias.adventistas.org\/pt\/o-estado-dos-mortos\/\">O estado dos mortos<\/a><\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p><strong>O que aconteceu para que voc\u00ea assumisse a fun\u00e7\u00e3o de conselheira para enlutados?<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em janeiro de 2019 aconteceu uma trag\u00e9dia que levou minhas filhas \u00e0 morte. Isso me desolou, isso tirou tudo de mim, eu realmente n\u00e3o sabia como eu ia continuar. Do fundo do meu cora\u00e7\u00e3o, eu n\u00e3o sabia se eu duraria mais seis meses. Tinha medo de voltar a ter crises depressivas, eu n\u00e3o sabia o que Deus ia fazer da minha vida. Era o \u00fanico questionamento que eu tinha coragem de fazer era: o que Deus vai fazer da minha vida? Eu n\u00e3o tinha coragem de perguntar por que Ele tinha feito aquilo, mas o que Ele ia conseguir fazer do resto de mim a partir daquele dia. E as coisas foram acontecendo e eu s\u00f3 queria encontrar um motivo para continuar, me agarrando a cada mil\u00edmetro de for\u00e7a que eu encontrava. Todas as manh\u00e3s eu pedia a Ele um parzinho de muletas para eu conseguir levantar da minha cama. A cada manh\u00e3 era uma gotinha de for\u00e7a que vinha, eu passava o dia, mas a noite estava prostrada de novo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Foi o pastor Maicon e sua esposa, Juliana (conselheira do MAP para pessoas com defici\u00eancia visual), que enxergaram em mim o potencial. Eu gosto muito do trabalho na \u00e1rea social, ent\u00e3o eles passaram a delegar a mim esse trabalho na regi\u00e3o. Em meio a isso, conheci o pastor Alacy Barbosa, diretor do MAP na Am\u00e9rica do Sul. Em 2020 fizemos uma reuni\u00e3o e ele me fez o convite para essa fun\u00e7\u00e3o. Mais uma vez, me enxergavam com uma lupa que eu n\u00e3o entendia. Mas naquele janeiro de 2019 eu falei pra Deus que o que Ele quisesse, eu faria. Algum prop\u00f3sito tinha que existir em tudo aquilo. Apesar de toda aquela trag\u00e9dia, Ele tinha ainda prop\u00f3sitos em minha vida. E eu gostaria de viver esses prop\u00f3sitos. Desde ent\u00e3o, eu estou nessa fun\u00e7\u00e3o que eu amo que \u00e9 falar da minha vida, da minha experi\u00eancia, e n\u00e3o s\u00f3 de enlutados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Geralmente, o luto vem em fases. Como foram essas etapas para voc\u00ea?<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Olha, eu diria que eu n\u00e3o vivi nenhuma das fases do luto. Eu n\u00e3o tive a nega\u00e7\u00e3o, n\u00e3o passei pela raiva, pela revolta. Mas voc\u00ea me pergunta: ent\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o sentiu nada, n\u00e3o teve nenhuma experi\u00eancia ruim? Claro, eu tenho sempre. At\u00e9 hoje eu tenho e terei at\u00e9 que Jesus volte. Talvez n\u00e3o que eu saiba definir com a nomenclatura que a Psicologia d\u00e1, mas eu tenho as minhas fases de luto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele primeiro momento, o que eu sentia era o vazio, a falta da fala, dos sons das minhas filhas em casa. Ent\u00e3o, eu n\u00e3o queria ficar dentro de casa, eu buscava o barulho de crian\u00e7as. Eu ligava para a casa da minha irm\u00e3 depois do hor\u00e1rio da escola porque era o momento que eu mais sentia falta: chegar em casa e ouvir como tinha sido o dia das minhas filhas. Ent\u00e3o eu fazia chamadas de v\u00eddeo para ouvir a fala dos meus sobrinhos, para que aquilo enchesse os meus ouvidos. Mas eles n\u00e3o sabiam que esse era o motivo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Depois disso veio o momento de me desfazer das coisas. Eu me dei tempo para isso. J\u00e1 faz quatro anos e at\u00e9 hoje eu me desfa\u00e7o das coisas. Tem pessoas que deixam o quarto e as coisas como est\u00e3o. Eu n\u00e3o deixei. Eu desmontei tudo, mas tem coisas que eu ainda guardo e sei que com o tempo eu vou conseguir deixar. De tempos em tempos eu abro aquelas malas e digo: \u00e9 hora de me desapegar disso. O meu luto ainda est\u00e1 em processo e eu sei que esse processo vai durar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Eu tive um outro filho, o Saulo, gra\u00e7as a Deus. Isso foi para mim um presente de Deus. Eu e meu esposo oramos e dissemos a Deus que, se fossemos pais novamente, seria uma b\u00ean\u00e7\u00e3o. Mas se n\u00e3o, n\u00f3s aceitar\u00edamos. Meu filho completou um ano recentemente. Mas a gesta\u00e7\u00e3o e tudo isso me trouxe momentos, lembran\u00e7as, medos de como seria, de como eu me comportaria. Me perguntava: e se for uma menina, ser\u00e1 que eu vou comparar?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em dezembro minha filha mais velha faria 18 anos. E eu fico imaginando como eu estaria ao lado de uma filha adulta agora. Eu fico projetando elas, olho os amigos delas e me pergunto como estariam, que altura teriam, quais seriam os gostos, que curso escolheria para a faculdade.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, falar que eu n\u00e3o vivi as fases do luto \u00e9 real, pelo menos n\u00e3o na intensidade que muitas pessoas vivem, e eu agrade\u00e7o muito a Deus por isso. Mas isso n\u00e3o significa que eu n\u00e3o vivi e ainda vivo momentos de luto com muita intensidade. Eu sei como s\u00e3o v\u00e1rias fases do luto por ouvir, aconselhar, acolher, mas n\u00e3o por ter vivido.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Existe a dor do momento da trag\u00e9dia e existe a dor do dia a dia, da falta, coisas que n\u00e3o se pensa na hora. Como voc\u00ea entende esses dois momentos?<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Objetivamente: a dor do momento, quando recebi a not\u00edcia, \u00e9 uma dor de morte. Aquela dor, eu achei que ia me matar. Eu falava para o meu marido: eu n\u00e3o vou aguentar, eu vou morrer.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As pessoas costumam dizer que a dor passa e vai ficar a saudade e as lembran\u00e7as. Eu n\u00e3o vou falar que isso \u00e9 mentira, mas eu ainda n\u00e3o vivi isso. Essas lembran\u00e7as, s\u00f3 saudade boa. Eu nunca tive saudade boa. A dor que eu sinto agora \u00e9 a do sentimento de \u201cSenhor, est\u00e1 demorando muito. Volta logo!\u201d Com base no que eu acredito, est\u00e1 demorando muito para eu reencontrar as minhas filhas. Me preparo todos os dias para reuni-las com o irm\u00e3o, com a fam\u00edlia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A trag\u00e9dia das minhas filhas n\u00e3o foi a minha primeira trag\u00e9dia. Aos 11 anos, perdi meus pais. Meu pai assassinou a minha m\u00e3e e se suicidou. Talvez em uma propor\u00e7\u00e3o diferente, n\u00e3o maior ou menor, mas a dor de uma crian\u00e7a abandonada no mundo, que n\u00e3o sabia onde ia dormir, comer, foi a mesma dor que senti com a morte das minhas filhas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Existe o \u201csuperar\u201d? Ou \u00e9 s\u00f3 uma forma de as pessoas tentarem te consolar?<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Eu n\u00e3o definiria como como supera\u00e7\u00e3o. Eu acho que a palavra que melhor define isso \u00e9 \u201cressignificar\u201d. Foi o que eu aprendi de 2019 para c\u00e1. Quando elas se foram, a primeira necessidade que eu tive foi de me conhecer a partir daquele momento. Eu precisava conhecer essa mulher. Depois de tudo isso, desde a minha inf\u00e2ncia, eu precisava saber quem sou eu. Eu precisava ressignificar muitas coisas na minha vida.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Eu recebo muitas mensagens, sobretudo quando fa\u00e7o palestras, dizendo que eu sou um exemplo de supera\u00e7\u00e3o, mas eu discordo. Eu tenho ressignificado essa trag\u00e9dia, especialmente a \u00faltima, para esperar meu reencontro com minhas filhas. Eu ressignifico essa perda trabalhando em fun\u00e7\u00e3o dos outros, de pessoas que tamb\u00e9m sofrem, enquanto eu espero. Enquanto isso, eu trabalho para Quem eu estou esperando.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Voc\u00ea entende que a sua dor, hoje, est\u00e1 mais ligada a falta que sente das suas filhas ou do que voc\u00eas deveriam ter vivido, mas foram impedidas?<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um misto dos dois. Eu n\u00e3o tenho remorso de coisas que eu n\u00e3o fiz. Eu costumo dizer que eu amo a maternidade, \u00e9 um papel que eu exer\u00e7o com tudo de mim. Ent\u00e3o eu n\u00e3o penso: eu podia ter feito mais. Mas eu penso: ser\u00e1 que o que eu fiz, eu fiz direitinho? Fica essa interroga\u00e7\u00e3o aqui dentro. Ser\u00e1 que eu fui uma m\u00e3e do jeito que elas mereciam? Mas ao mesmo tempo eu penso: se elas estivessem aqui agora, seria a hora de levar para conhecer a universidade, para onde estar\u00edamos indo agora? O luto \u00e9 isso. Acaba sendo um monte de questionamento que precisa ser respeitado, porque \u00e9 um direito do enlutado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Voc\u00ea acha que a experi\u00eancia do luto pode ativar gatilhos de outros traumas?<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, e que eu precisei e ainda trato. Coisas que eu nunca imaginei em pautas de tratamentos psicol\u00f3gicos. E voc\u00ea descobre por que o luto abre as gavetinhas dessa caixinha t\u00e3o perfeita e t\u00e3o complexa.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele primeiro momento, eu tomava antidepressivos. E eu comecei a passar mal com antidepressivos e eu n\u00e3o entendia. Fui com urg\u00eancia para o meu m\u00e9dico. Ele me disse: \u201cvoc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 em depress\u00e3o, voc\u00ea est\u00e1 em luto.\u201d Em outro momento eu usei medicamentos, mas n\u00e3o foram os antidepressivos. Muitas vezes a gente n\u00e3o respeita e ouve o que o nosso corpo est\u00e1 dizendo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A dor do luto traz muita coisa e isso \u00e9 muito importante para quem est\u00e1 do lado de um enlutado. Familiares, amigos, \u00e0s vezes fazem a pessoa engolir o sentimento daquele momento. \u201cN\u00e3o chora, n\u00e3o fala, isso vai passar, essa dor vai passar, vai ficar s\u00f3 a saudade boa\u201d, dizem. A gente tem tamb\u00e9m as lembran\u00e7as boas, mas, infelizmente, para quem perde \u00e9 muito dif\u00edcil falar que vai ser s\u00f3 isso. E a\u00ed voc\u00ea vai tolindo a pessoa e ela j\u00e1 n\u00e3o tem for\u00e7as para procurar ajuda profissional. E voc\u00ea acaba tirando dela a coragem de pedir a \u00fanica coisa que consegue naquele momento, que \u00e9 um ombro amigo. E a\u00ed ela se fecha nela mesma e vai morrendo aos poucos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Voc\u00ea fala muito sobre a terapia e a f\u00e9. Voc\u00ea acha que estaria vivendo hoje sem essas duas coisas?<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De forma nenhuma. Essas s\u00e3o as minhas duas muletas todas as manh\u00e3s. Ouso dizer mais. A minha f\u00e9 \u00e9 a corda lan\u00e7ada todos os dias no fundo do po\u00e7o. Jesus lan\u00e7a a corda todos os dias e me resgata e me traz. Porque \u00e9 di\u00e1rio. Um dia ap\u00f3s o outro. As pessoas me perguntam: como voc\u00ea consegue? E eu falo: eu n\u00e3o consigo nada. Nem eu acredito, porque eu n\u00e3o consigo. Ent\u00e3o, honestamente, s\u00f3 a miseric\u00f3rdia de Deus.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s vezes voc\u00ea est\u00e1 muito bem, mas, \u00e0s vezes, em datas como o anivers\u00e1rio das meninas, eu tento tirar o dia de folga porque \u00e9 uma data que eu gosto de viajar nas fotos, gosto de imaginar, e a\u00ed eu choro, choro. E eu gosto de chorar sozinha. E quando eu n\u00e3o posso, visto minha armadura para sair e tiro ao chegar em casa. Choro uma madrugada inteira e, no dia seguinte, visto de novo a minha armadura e vou trabalhar. Porque \u00e9 a minha dor. Eu n\u00e3o condeno quem diz que o dia das saudades e lembran\u00e7as boas v\u00e3o chegar, mas eu n\u00e3o acredito que um dia eu v\u00e1 sentir isso. Eu acredito no dia em que vou abra\u00e7ar minhas filhas de novo e dizer: acabou. Acabou para sempre essa dist\u00e2ncia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n\n\n\n<p>Voc\u00ea tamb\u00e9m pode receber esse e outros conte\u00fados&nbsp;<strong>diretamente<\/strong>&nbsp;no seu dispositivo. 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