{"id":36246,"date":"2014-04-03T11:31:45","date_gmt":"2014-04-03T14:31:45","modified":"2021-11-15T21:28:10","modified_gmt":"2021-11-16T00:28:10","slug":"voce-merece-ser-estuprada-por-causa-que-veste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/noticias.adventistas.org\/pt\/coluna\/emanuele.salles\/voce-merece-ser-estuprada-por-causa-que-veste\/","title":{"rendered":"Voc\u00ea merece ser estuprada por causa do que veste?"},"content":{"rendered":"<p>\u201cEu n\u00e3o mere\u00e7o ser estuprada\u201d. Esta \u00e9 a frase mais dita do momento. Uma pesquisa coordenada pelo economista Daniel Cerqueira, do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea), causou um bafaf\u00e1 nas redes sociais, que acabou gerando protestos at\u00e9 mesmo nas ruas. Nela, 61,5% dos entrevistados disseram que as mulheres que usam roupas que mostram demais o corpo merecem ser atacadas, e 58,5% afirmaram que, se as mulheres fossem comportadas, haveria menos estupros. A explica\u00e7\u00e3o que os estudiosos e a pr\u00f3pria sociedade d\u00e3o para esse resultado \u00e9 que a cultura machista impregnou no Brasil. N\u00e3o creio que esse seja o motivo, j\u00e1 que muitas mulheres tamb\u00e9m cometem abusos sexuais, s\u00f3 que escolhendo alvos mais f\u00e1ceis, como crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Como jornalista, tenho o h\u00e1bito de comentar em meu Facebook sobre algumas not\u00edcias populares. Para esse caso, nem considerei minha cren\u00e7a religiosa, mas sim vinha vis\u00e3o como cidad\u00e3 comum. Escrevi o seguinte:<\/p>\n<p><i>\u201cDesde pequenos somos orientados a n\u00e3o ficar andando nas ruas tarde da noite. Tudo para n\u00e3o nos colocarmos num territ\u00f3rio perigoso, que combina escurid\u00e3o e gente mal intencionada. Postar na internet fotos que revelem o que se tem em casa, de jeito nenhum! Isso pode atrair bandido, j\u00e1 diziam nossos professores. Hoje, pra muita gente, j\u00e1 virou um h\u00e1bito esconder o celular e outros eletr\u00f4nicos de valor ao andar em cidades com maior \u00edndice de criminalidade. A\u00ed est\u00e1 mais uma forma de prote\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a. N\u00e3o, ningu\u00e9m merece SER ESTUPRADA, assim como nenhum cidad\u00e3o merece ser assaltado, sequestrado ou roubado. Mas n\u00e3o podemos ignorar a p\u00e9ssima condi\u00e7\u00e3o do mundo. O conselho continua sendo o mesmo: n\u00e3o exponha tanto o que voc\u00ea tem de mais atrativo e precioso\u201d.<\/i><\/p>\n<p>Assim como j\u00e1 esperava, um grande debate come\u00e7ou em minha p\u00e1gina. Muita gente compartilhou o pensamento e concordou com ele. Mas, claro, nem todos estavam de acordo, acreditando que eu tamb\u00e9m colocava as mulheres como respons\u00e1veis pela viol\u00eancia sexual. Nada disso! Acredito que, por saberem que sou religiosa e que trabalho diretamente o tema de apar\u00eancia crist\u00e3 com o p\u00fablico feminino, j\u00e1 leram meu texto com certo preconceito.<\/p>\n<p>Quase ningu\u00e9m acredita, mas sempre gostei de muito de assuntos criminais. L\u00f3gico que odeio o crime, mas gosto de estudar a vida e a mente de marginais. J\u00e1 assisti a muitos document\u00e1rios do g\u00eanero e entrevistei v\u00e1rios criminosos. Inclusive, j\u00e1 escrevi at\u00e9 um livro-reportagem sobre isso. Ao mergulhar no tema, algo aprendi: atos criminosos quase nunca s\u00e3o \u00f3bvios. O \u00f3dio, ci\u00fames, vingan\u00e7a e paix\u00e3o doentia podem desencadear crimes, assim como transtornos mentais tamb\u00e9m s\u00e3o respons\u00e1veis por v\u00e1rios deles. De repente, descobrimos que aquele homem de fam\u00edlia \u00e9 um psicopata ou ped\u00f3filo. Como saber quem \u00e9 perigoso? \u00c9 praticamente imposs\u00edvel. Geralmente esse tipo de gente tem uma vida de face e m\u00e1scaras. Por isso, todo cuidado \u00e9 pouco.<\/p>\n<p>Algumas pessoas, ao verem meu posicionamento sobre o assunto da pesquisa, me questionaram. Uma das boas coloca\u00e7\u00f5es que me escreveram foi: \u201cMuitas tribos ind\u00edgenas n\u00e3o usam roupas, e os indiv\u00edduos n\u00e3o sofrem com esse mal [estupro]\u201d. Esses dias vi em uma mat\u00e9ria que os sauditas culpam o uso da m\u00e1scara de c\u00edlios (r\u00edmel) pelo aumento do ass\u00e9dio sexual. \u00c9 a\u00ed que devemos diferenciar costumes de princ\u00edpios, que s\u00e3o coisas bem distintas. Princ\u00edpio \u00e9 lei, costume \u00e9 interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Independente da sua vida, voc\u00ea tem preceitos. Muita gente, por exemplo, preza a dec\u00eancia e discri\u00e7\u00e3o, mesmo sem ter religi\u00e3o nenhuma. Acho super interessante o fato de \u00edndios andarem nus em suas tribos e ainda assim n\u00e3o parecerem vulgares, enquanto na nossa vida urbana seria inadmiss\u00edvel sair de casa sem roupa. Um decote profundo j\u00e1 gera olhares e coment\u00e1rios\u00a0 maliciosos. Aqui no Brasil uma mulher de cal\u00e7a justa ou um homem sem camisa j\u00e1 fazem as pessoas virarem 180graus para os \u201csecarem\u201d. J\u00e1 vi muita namorada estapeando o namorado depois de flagr\u00e1-lo com toda essa curiosidade! Em pa\u00edses isl\u00e2micos, a vestimenta ideal preza a dec\u00eancia, por\u00e9m de forma mais radical: v\u00e9u e burca para mulheres, e nada de roupas justas e transparentes para os homens. Aqui n\u00e3o precisamos de tanto pano assim para fazer jus ao mesmo princ\u00edpio. Consegue notar a diferen\u00e7a? N\u00e3o d\u00e1 pra viver aqui aderindo a costumes tribais ou sauditas, por exemplo.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m merece ser assaltado no tr\u00e2nsito, mas todos est\u00e3o sujeitos a passar por essa experi\u00eancia. Para evitar isso, costumamos andar de carro com as janelas fechadas. Sim, se o bandido quiser, ele quebra o vidro. Mas para que facilitar, sabendo que estamos cercados de m\u00e1s inten\u00e7\u00f5es? Andar ou n\u00e3o com roupas reveladoras? Isso vai al\u00e9m de uma opini\u00e3o religiosa. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 de culpa, mas sim de precau\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEu n\u00e3o mere\u00e7o ser estuprada\u201d. Esta \u00e9 a frase mais dita do momento. Uma pesquisa coordenada pelo economista Daniel Cerqueira, do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea), causou um bafaf\u00e1 nas redes sociais, que acabou gerando protestos at\u00e9 mesmo nas ruas. 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