{"id":281933,"date":"2021-05-26T05:30:39","date_gmt":"2021-05-26T08:30:39","modified":"2022-10-25T11:30:49","modified_gmt":"2022-10-25T14:30:49","slug":"as-origens-da-separacao-do-cristianismo-e-judaismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/noticias.adventistas.org\/pt\/as-origens-da-separacao-do-cristianismo-e-judaismo\/","title":{"rendered":"As origens da separa\u00e7\u00e3o do cristianismo e juda\u00edsmo"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_281937\" style=\"width: 1010px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2021\/05\/sinagoga.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-281937\" class=\"size-full wp-image-281937\" src=\"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2021\/05\/sinagoga.jpeg\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"646\" srcset=\"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2021\/05\/sinagoga.jpeg 1000w, https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2021\/05\/sinagoga-140x90.jpeg 140w, https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2021\/05\/sinagoga-768x496.jpeg 768w, https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2021\/05\/sinagoga-70x45.jpeg 70w, https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2021\/05\/sinagoga-132x85.jpeg 132w, https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2021\/05\/sinagoga-290x186.jpeg 290w, https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2021\/05\/sinagoga-730x472.jpeg 730w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-281937\" class=\"wp-caption-text\">H\u00e1 aspectos importantes a serem compreendidos historicamente na rela\u00e7\u00e3o entre cristianismo e juda\u00edsmo. (Foto: Shutterstock)<\/p><\/div>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que muitos podem pensar, o antissemitismo n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno moderno, surgido do nazismo.&nbsp; N\u00e3o \u00e9 nem mesmo uma cria\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo 19. De fato, o antissemitismo existe j\u00e1 desde muito tempo. Pode ser encontrado de forma mais ou menos expl\u00edcita desde a partir do segundo s\u00e9culo da era crist\u00e3. &nbsp;\u00c9 representativa dessa posi\u00e7\u00e3o a declara\u00e7\u00e3o de Ign\u00e1cio de Antioquia, em sua carta aos Magn\u00e9sios 10:1, segundo a qual \u201cs\u00e3o monstros os que falam de Jesus, ao mesmo tempo que praticam o juda\u00edsmo.\u201d<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li class=\"p1\"><a href=\"https:\/\/noticias.adventistas.org\/pt\/noticia\/biblia\/israel-existe-para-ajudar-a-cumprir-as-profecias-afirma-teologo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cIsrael existe para ajudar a cumprir as profecias\u201d, afirma te\u00f3logo<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<p>O objetivo desse artigo n\u00e3o \u00e9 expor de forma completa e aprofundada as ra\u00edzes do antissemitismo, muito menos todos os fatores e vari\u00e1veis que podem ser identificadas na g\u00eanese e no processo de desenvolvimento do antissemitismo, mas apresentar uma s\u00edntese dessa filosofia com o intuito de entender seu impacto nas rela\u00e7\u00f5es entre cristianismo e Juda\u00edsmo e na leitura das Escrituras no cristianismo.<\/p>\n<h4><strong>As origens\u00ad<\/strong><\/h4>\n<p>O primeiro aspecto a ser muito bem esclarecido e jamais esquecido \u00e9 que o per\u00edodo neotestament\u00e1rio n\u00e3o pode ser visto como contendo o embri\u00e3o do antissemitismo. Isso porque, ao contr\u00e1rio do senso comum, o Novo Testamento n\u00e3o pode ser lido atrav\u00e9s de lentes de uma constante dissens\u00e3o e descontinuidade entre o juda\u00edsmo e a B\u00edblia Hebraica e a igreja crist\u00e3 e sua B\u00edblia. Essa \u00e9 uma leitura carregada de perspectiva externa, estranha ao pr\u00f3prio texto, como veremos adiante.<\/p>\n<p>Apesar disso, o primeiro s\u00e9culo da Era Comum j\u00e1 apresenta evid\u00eancias de discuss\u00f5es identit\u00e1rias tanto crist\u00e3s quanto judaicas, cujas consequ\u00eancias ser\u00e3o, ao final, um afastamento definitivo entre a f\u00e9 judaica e a f\u00e9 crist\u00e3. N\u00e3o \u00e9 que a f\u00e9 crist\u00e3 n\u00e3o fosse vista como judaica ou mesmo que ela n\u00e3o se entendesse judaica.<\/p>\n<h4><strong>Cristianismo e juda\u00edsmo juntos<\/strong><\/h4>\n<p>O testemunho hist\u00f3rico do Novo Testamento demonstra que o cristianismo era percebido e se percebia como parte do juda\u00edsmo. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que, em Atos 24:5, o mesmo termo utilizado para descrever os fariseus no cap\u00edtulo 26 \u00e9 utilizado para a seita dos nazarenos, da qual Paulo era o principal l\u00edder.&nbsp; Essa era a conforma\u00e7\u00e3o do juda\u00edsmo naquele tempo. N\u00e3o existia um \u00fanico juda\u00edsmo (como hoje tampouco h\u00e1), mas algumas seitas (<em>heireisis<\/em> - o termo grego cuja origem significa escolha), que conviviam de forma n\u00e3o muito harm\u00f4nica, mas tolerante. Inclusive com discuss\u00f5es constantes, diferen\u00e7as e maior ou menor influ\u00eancia frente ao povo e sua rela\u00e7\u00e3o com a religi\u00e3o e a tradi\u00e7\u00e3o dos pais. Assim, temos desde os liberais saduceus at\u00e9 os estritos ess\u00eanios, passando pelos fariseus, e, tamb\u00e9m crist\u00e3os e zelotes.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto de conviv\u00eancia de m\u00faltiplas ideias e no f\u00e9rtil terreno das esperan\u00e7as m\u00faltiplas que surge o juda\u00edsmo nazareno, ou o cristianismo. E n\u00e3o estamos falando aqui do advento de Jesus, mas da sistematiza\u00e7\u00e3o da comunidade de seus seguidores, que refletiam sobre seus ensinos e como estes se relacionavam com os ensinos que eles mesmos haviam recebido pela tradi\u00e7\u00e3o dos pais ou de seus mestres judeus.<\/p>\n<p>Como se relacionariam agora com seus cong\u00eaneres, uma vez que adotavam a recente e \u201cnovidadeira\u201d doutrina de Jesus o Nazareno, transmitida por seus mais pr\u00f3ximos disc\u00edpulos? Como poderiam seguir, dentro do juda\u00edsmo, crendo que este Jesus cumpria as profecias messi\u00e2nicas, enquanto seus l\u00edderes e vizinhos afirmavam que n\u00e3o ele era um falso Messias? Por outro lado, perguntas semelhantes eram feitas por seus compatriotas judeus, oprimidos pelos romanos, ansiosos pela liberdade que o Rei Messias traria.<\/p>\n<h4><strong>Invas\u00e3o romana<\/strong><\/h4>\n<p>Essas perguntas dirigiram os esfor\u00e7os de organiza\u00e7\u00e3o e crescimento de ambos os partidos ou seitas sobreviventes \u00e0 invas\u00e3o romana no ano 70 EC: os fariseus e os do Caminho. \u00c9 verdade que ainda encontramos rastros dos saduceus, ess\u00eanios (h\u00e1 mesmo d\u00favidas quanto a se eles existiram de fato ou n\u00e3o) e outras seitas menores. Por outro lado, n\u00e3o resta d\u00favidas de que aquilo que conhecemos como juda\u00edsmo, nos s\u00e9culos posteriores, \u00e9 uma reminisc\u00eancia dos fariseus (veja Jacob Neusner e Bruce Childon, no livro <em>Quest of Historical Pharisees<\/em>).<\/p>\n<p>As tradi\u00e7\u00f5es sobre os fariseus ap\u00f3s o ano 70 EC, mostram que os fariseus buscaram sistematizar o pensamento judaico de maneira a manter uma linha que os ligasse \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es anteriores. Ainda que permitindo certa liberdade, mas com profundo interesse na preserva\u00e7\u00e3o dos aspectos legais e tradicionais de sua f\u00e9. \u00c9 por isso que, por volta do ano 90, foi convocado o segundo \u201cconc\u00edlio\u201d de Jamnia, com um dos objetivos sendo o de definir as bases de sua doutrina.<\/p>\n<p>Por outro lado, a seita da Caminho n\u00e3o demonstrou interesse algum em abandonar o juda\u00edsmo. Ao contr\u00e1rio, os documentos legados, que est\u00e3o no Novo Testamento, demonstram uma grande aproxima\u00e7\u00e3o com a comunidade judaica em geral, mas com os fariseus em particular. Paulo, anteriormente Shaul, n\u00e3o poucas vezes se declara fariseu (Atos 23; Romanos 11; etc.) e as intera\u00e7\u00f5es marcantes e descritas na literatura hist\u00f3rica indicam que o lugar de culto da comunidade ainda era a sinagoga.<\/p>\n<h4><strong>Discuss\u00f5es de identidade<\/strong><\/h4>\n<p>\u00c9 por isso que os rabinos em suas sinagogas inclu\u00edram, entre suas ora\u00e7\u00f5es, uma maldi\u00e7\u00e3o contra os <em>minim<\/em> (hereges), que n\u00e3o se restringia aos crist\u00e3os, mas que certamente os inclu\u00eda. Atrav\u00e9s dessa maldi\u00e7\u00e3o, os hereges eram detectados nas sinagogas e expulsos. A pr\u00f3pria maldi\u00e7\u00e3o, no entanto, como acentuou de forma precisa Pieter Willem van der Horst (The Birkat ha-minim in Recent Research, em&nbsp;<em>The Expository Times<\/em>, 1994, p.367), sempre se referiu a judeus, o que indica de forma precisa que havendo separa\u00e7\u00e3o e dissens\u00e3o, os do Caminho ainda era vistos como judeus. Hereges, mas judeus.<\/p>\n<p>E assim terminou o primeiro s\u00e9culo, com discuss\u00f5es de identidade e o in\u00edcio de rela\u00e7\u00f5es atribuladas entre crist\u00e3os e judeus. \u00c9 um fato, contudo, que os primeiros ainda eram judeus, cujas doutrinas e cren\u00e7as estavam ainda dentro do pano de fundo judaico geral, conhecido naqueles tempos.<\/p>\n<p>Ao sairmos desse s\u00e9culo, n\u00e3o podemos deixar de notar que a identidade judaica fluida foi deixada para tr\u00e1s, ap\u00f3s a quase destrui\u00e7\u00e3o do juda\u00edsmo no ano 70. A necessidade de fixa\u00e7\u00e3o de uma identidade que n\u00e3o fosse demasiadamente aberta e ampla, foi uma decis\u00e3o tomada pelos principais partidos sobreviventes, fariseus e crist\u00e3os. Nesse processo, as diferen\u00e7as passaram a pesar muito mais do que as similitudes e essas foram se acentuando cada vez mais nos s\u00e9culos seguintes e migrando da periferia para o centro. Junte-se a este quadro, as press\u00f5es pol\u00edticas tanto sobre o juda\u00edsmo nos dois primeiros s\u00e9culos, quanto sobre o cristianismo at\u00e9 a \u00e9poca do compromisso e a unidade na diversidade se transforma na diversidade da diferen\u00e7a, como veremos nas partes seguintes dessa s\u00e9rie.&nbsp;Mais do que n\u00e3o sermos antissemitas, precisamos entender que a gra\u00e7a alcan\u00e7a a todos.<\/p>\n<hr>\n<p><strong><em>S\u00e9rgio Monteiro<\/em><\/strong>&nbsp;\u00e9 te\u00f3logo, capel\u00e3o e membro do Instituto de Estudos Judaicos Feodor Meyer, membro da <em>Adventist Theological Society<\/em>, <em>International Association for the Old Testament Studies<\/em> e Associa\u00e7\u00e3o dos Biblistas Brasileiros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como historicamente as correntes do cristianismo e juda\u00edsmo conviveram, inclusive dentro daquilo que pode ser lido nos textos do Novo Testamento? <\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":281937,"comment_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"xtt-pa-format":[3876],"xtt-pa-classification":[],"xtt-pa-editorias":[],"xtt-pa-departamentos":[3590],"xtt-pa-projetos":[],"xtt-pa-regiao":[61],"xtt-pa-sedes":[119],"xtt-pa-owner":[1170],"class_list":["post-281933","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","xtt-pa-format-noticia","xtt-pa-departamentos-salt","xtt-pa-regiao-brasil","xtt-pa-sedes-dsa","xtt-pa-owner-divisao-sul-americana"],"acf":{"custom_author":"S\u00e9rgio Monteiro"},"terms":{"editorial":"","format":"Not\u00edcia"},"featured_media_url":{"full":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2021\/05\/sinagoga.jpeg","medium":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2021\/05\/sinagoga-768x496.jpeg","small":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2021\/05\/sinagoga-140x90.jpeg","pa-block-preview":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2021\/05\/sinagoga-140x90.jpeg","pa-block-render":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2021\/05\/sinagoga-290x220.jpeg"}}