{"id":275183,"date":"2021-01-27T14:43:06","date_gmt":"2021-01-27T17:43:06","modified":"2025-01-09T13:05:32","modified_gmt":"2025-01-09T16:05:32","slug":"eden-fato-ou-ficcao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/noticias.adventistas.org\/pt\/coluna\/rodrigo.silva\/eden-fato-ou-ficcao\/","title":{"rendered":"\u00c9den: fato ou fic\u00e7\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image size-full wp-image-275185\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"920\" src=\"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2021\/01\/eden-fato-ou-ficcao.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-275185\" srcset=\"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2021\/01\/eden-fato-ou-ficcao.jpg 1500w, https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2021\/01\/eden-fato-ou-ficcao-768x471.jpg 768w, https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2021\/01\/eden-fato-ou-ficcao-730x448.jpg 730w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Na B\u00edblia, Mois\u00e9s detalha o surgimento da hist\u00f3ria humana (Foto: Shutterstock)<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Seria o G\u00eanesis um relato hist\u00f3rico das origens? Muitos entendem que n\u00e3o, que ali ter\u00edamos apenas uma alegoria similar a outras narrativas mitol\u00f3gicas do antigo Oriente M\u00e9dio. Chegam a sugerir que \u201cdevemos cortar esses cap\u00edtulos fora de qualquer evento especificamente hist\u00f3rico\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Autores cl\u00e1ssicos como Teilhard de Chardin<a name=\"_ftnref2\" href=\"#_ftn2\">[2]<\/a> chegaram a supor que Ad\u00e3o seria o primeiro exemplar do <em>homo sapiens<\/em> ou de uma ra\u00e7a espiritual que se seguiu \u00e0 cadeia evolutiva. O grande problema com esse tipo de abordagem \u00e9 que seus proponentes se esquecem que a doutrina de Cristo est\u00e1 edificada sobre o conte\u00fado do Antigo Testamento, que, por sua vez, se apoia inteiramente sobre o relato do G\u00eanesis. <\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Leia tamb\u00e9m:<\/h4>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><a href=\"https:\/\/noticias.adventistas.org\/pt\/coluna\/rodrigo.silva\/precisamos-atualizar-a-biblia\/\">Precisamos atualizar a B\u00edblia?<\/a><\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Ora, se a hist\u00f3ria do \u00c9den n\u00e3o aconteceu de fato, ent\u00e3o n\u00e3o houve a \u201cqueda de Ad\u00e3o\u201d e a humanidade n\u00e3o se encontra contaminada por nenhum tipo de \u201cpecado original\u201d. Logo, n\u00e3o existe nenhuma transgress\u00e3o da qual necessit\u00e1ssemos ser redimidos e a morte expiat\u00f3ria de Cristo n\u00e3o passa, na melhor das hip\u00f3teses, de um mart\u00edrio sem significado.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Em busca do Ad\u00e3o hist\u00f3rico<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Embora devamos admitir que a hist\u00f3ria de Ad\u00e3o pare\u00e7a um tanto estranha ao senso comum \u2013 pois n\u00e3o vemos no mundo real nada que lembre o ambiente ed\u00eanico que a B\u00edblia descreve \u2013, devemos nos lembrar de que at\u00e9 mesmo os melhores advogados n\u00e3o se aventurariam a acusar uma pessoa de \u201cmentirosa\u201d apenas porque seu depoimento reflete um fato dif\u00edcil de acontecer. A hist\u00f3ria dos processos jur\u00eddicos est\u00e1 repleta de casos \u201cestranhos\u201d e aparentemente \u201cimprov\u00e1veis\u201d que constitu\u00edam a mais pura verdade. Assim, um jurista experiente prefere avaliar de modo neutro tudo o que \u00e9 dito nos laudos e ent\u00e3o buscar \u201cprovas\u201d ou \u201cevid\u00eancias\u201d fora deles que deponham contra ou a favor daquilo que foi apresentado.<\/p>\n\n\n\n<p>E n\u00e3o h\u00e1 melhor argumento a favor de um depoimento do que o apelo a testemunhas. H\u00e1 outras pessoas que viram ou ouviram aquilo que se afirmou? Uma pessoa sozinha pode mentir ou se equivocar descrevendo algo que n\u00e3o aconteceu. Por\u00e9m, quando certo n\u00famero de pessoas, sem contato direto entre si ou com o depoente, afirmam basicamente o mesmo que ele contou, diminuem-se para quase zero as chances de haver um equ\u00edvoco sist\u00eamico.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que se trate de um relato estranho, ele tem o m\u00e9rito da l\u00f3gica racional e pode realmente ter ocorrido no passado. Mas \u00e9 claro que duas pessoas jamais contam a mesma hist\u00f3ria ou descrevem o mesmo evento igualmente. Existem contradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o essenciais que s\u00e3o perfeitamente aceit\u00e1veis. O importante \u00e9 que o testemunho se harmonize nas bases que o sustentam.<\/p>\n\n\n\n<p>Transferindo para o G\u00eanesis os conceitos acima apresentados, pergunta-se: h\u00e1 testemunhas, fora da B\u00edblia, que confirmem as bases do que Mois\u00e9s descreveu? Afinal, se Ad\u00e3o de fato existiu, ele estaria no topo das genealogias do mundo inteiro, pois todas as mais antigas civiliza\u00e7\u00f5es procederiam geneticamente dele e deveriam fazer refer\u00eancias a esse ancestral comum.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se deve esperar, contudo, que as antigas tradi\u00e7\u00f5es regionais sejam um decalque exato da narrativa b\u00edblica. A hist\u00f3ria nos revela que houve ondas de \u201capostasia\u201d em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 teologia monote\u00edsta que saiu do \u00c9den. A compara\u00e7\u00e3o, portanto, deve se resumir \u00e0 perman\u00eancia de um esbo\u00e7o similar ou de elementos antigos que sobreviveram ao distanciamento \u00e9tnico em dire\u00e7\u00e3o ao polite\u00edsmo posterior.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Al\u00e9m da narrativa b\u00edblica<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Os tabletes cuneiformes encontrados no Oriente revelaram que desde longo tempo existiu na Mesopot\u00e2mia uma tradicional hist\u00f3ria acerca de Adapa. Dela j\u00e1 foram encontrados quatro fragmentos, sendo tr\u00eas deles derivados da biblioteca de Assurbanipal e o mais extenso e antigo dos arquivos eg\u00edpcios de El Amarna, escritos por volta do s\u00e9culo XIV a.C.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>O poema gira em torno da problem\u00e1tica da vida eterna, pois, segundo seu relato, o primeiro homem, chamado Adapa, recebera grande sabedoria, mas n\u00e3o era naturalmente imortal<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Ele era, pela cria\u00e7\u00e3o, <em>o filho do deus Ea<\/em> e morava na cidade sagrada de <em>Eridu<\/em>. Curioso \u00e9 notar que <em>Eridu<\/em> e <em>\u00c9den<\/em> procedem da mesma raiz etimol\u00f3gica em conjunto com o sumeriano <em>Edin <\/em>ou <em>Edenu<\/em> (que tamb\u00e9m quer dizer \u201cpara\u00edso\u201d ou \u201cplanura\u201d). Coincidentemente, Lucas tamb\u00e9m enumeraria a genealogia humana a partir de Ad\u00e3o, qualificando-o, como no mito de Adapa, de <em>filho de Deus<\/em> (Lucas 3:38).<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria prossegue dizendo que Adapa vivia em meio aos \u201cAnunnakis\u201d, palavra que lembra muito o termo Anaquins - ou gigantes - que temos na B\u00edblia. Depois apresenta sua falha ao quebrar com a vela do seu barco a \u201casa\u201d do vento sul, impedindo-o de soprar sobre a Terra.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seu julgamento perante os deuses, Adapa se recusa a alimentar-se do p\u00e3o e da \u00e1gua da vida. Aquilo, na verdade, era um teste, pois ele sabia que n\u00e3o lhe era permitido participar de um alimento reservado aos deuses. Inconformado, o deus Anu lhe pergunta: \u201cPor que n\u00e3o tens comido, nem bebido [da \u00e1gua da vida]? Se [assim fazes] n\u00e3o poder\u00e1s ter a vida eterna!\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> Estas palavras ecoam a mesma proposta da serpente ao oferecer o fruto para Eva: \u201c\u00c9 certo que n\u00e3o morrereis, pois no dia em que dele comerdes sereis iguais a Deus\u201d. Tamb\u00e9m lembram a proibi\u00e7\u00e3o divina do acesso ad\u00e2mico \u00e0 \u00e1rvore da vida eterna (G\u00eanesis 3:24).<\/p>\n\n\n\n<p>Adapa \u00e9, portanto, elogiado em sua atitude de recusar comer do alimento proibido. A \u00fanica coisa que ele aceitou dos deuses foi tomar sobre si um segundo manto \u2013 dado para substituir o primeiro, que era o manto da lamenta\u00e7\u00e3o - e ser ungido com azeite. Esses elementos simbolizam a justi\u00e7a que \u00e9 outorgada por outrem \u00e0quele que merecia morrer. Embora o G\u00eanesis n\u00e3o fale nada sobre o azeite, traz o tema das duas vestes de Ad\u00e3o, que primeiro faz para si e sua mulher a partir de cintas de folhas, e no final \u00e9 vestido com um segundo manto produzido a partir da pele de um animal (G\u00eanesis 3:7 e 21).<\/p>\n\n\n\n<p>Na mentalidade da \u00e9poca, era forte a ideia de que a imortalidade n\u00e3o \u00e9 algo que nos pertence naturalmente: ela \u00e9 outorgada pelos deuses. Igualmente na vis\u00e3o b\u00edblica, o homem n\u00e3o \u00e9 criado um ser imortal, mas um candidato \u00e0 imortalidade mediante a obedi\u00eancia. Com a entrada do pecado perdemos a vida eterna e somente em Cristo podemos recuper\u00e1-la<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Com peculiaridades pr\u00f3prias de cada poema, essa mesma estrutura de cria\u00e7\u00e3o e queda do g\u00eanero humano aparece em outras hist\u00f3rias espalhadas pelo antigo Oriente M\u00e9dio. E todas, igualmente, possuem semelhan\u00e7as incr\u00edveis com o relato b\u00edblico.<\/p>\n\n\n\n<p>No \u00e9pico babil\u00f4nico do Gilgamesh, o lenged\u00e1rio her\u00f3i sumeriano tem um amigo, Enkidu, que \u00e9 seduzido por uma cortes\u00e3 da deusa Ishtar e passa a ter um \u201cconhecimento pleno\u201d [conhecimento do bem e do mal?]. Ap\u00f3s este ocorrido, Ishtar lhe declara: \u201cvoc\u00ea agora \u00e9 um conhecedor, Enkidu. Voc\u00ea ser\u00e1 igual a deus\u201d. Ent\u00e3o ela improvisa vestiduras e o veste com elas.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Curiosamente, os primeiros registros escritos da humanidade foram produzidos mais ou menos na mesma \u00e9poca, tanto na Mesopot\u00e2mia quanto no Egito. Por que justamente nestes dois pa\u00edses? Provavelmente porque foram estes os dois centros que mais r\u00e1pido se desenvolveram ap\u00f3s o dil\u00favio, gerando as mais antigas comunidades urbanas da hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Ali, a unifica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos cl\u00e3s e das tribos em torno de um sistema religioso\/governamental (como foi o caso da torre de Babel) resultou numa sociedade centralizada que se organizava a partir de uma estrutura bastante complexa. Este modelo social exigiu em pouco tempo a cria\u00e7\u00e3o de um sistema de contabilidade e comunica\u00e7\u00e3o confi\u00e1veis que pudesse servir de refer\u00eancia no com\u00e9rcio e na reparti\u00e7\u00e3o dos bens<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, passariam ainda mais de mil anos entre este per\u00edodo e o nascimento de Mois\u00e9s. Por\u00e9m, se a hist\u00f3ria que ele escreve for verdadeira, devemos obrigatoriamente encontrar a partir daqui as primeiras refer\u00eancias a Ad\u00e3o, j\u00e1 que este seria, de acordo com o G\u00eanesis, o genitor comum de todos os povos. E, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, essa refer\u00eancia existe e foi encontrada numa quantidade maior que o necess\u00e1rio para validar texto b\u00edblico.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Origem comum<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Milhares de tabletes cuneiformes foram escavados na regi\u00e3o que compreende a antiga Mesopot\u00e2mia. Eram recibos, cartas, leis, documentos de propriedade etc. Alguns tinham por conte\u00fado listas geneal\u00f3gicas e hist\u00f3rias tradicionais sobre os prim\u00f3rdios da humanidade. Ao avali\u00e1-los, qual n\u00e3o foi a surpresa dos arque\u00f3logos ao perceberem que muitos traziam semelhan\u00e7as bastante acentuadas com o que seria posteriormente escrito na B\u00edblia.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma extraordin\u00e1ria coincid\u00eancia foi percebida, por exemplo, na forma como os antigos documentos eg\u00edpcios e mesopot\u00e2micos chamavam o primeiro ancestral da humanidade: <em>Adamu<\/em>, <em>Adime<\/em>, <em>Adapa, Alulim<\/em>, <em>Alorus<\/em>, <em>At\u00fbm<\/em>, <em>Adumuzi<\/em> etc. Ora, n\u00e3o seria razo\u00e1vel supor que todas estas formas constituam varia\u00e7\u00f5es ortogr\u00e1ficas do mesmo nome, <em>Ad\u00e3o<\/em>?<\/p>\n\n\n\n<p>Note que a forma hebraica <em>\u2019Adam<\/em> se adequa naturalmente em todas estas varia\u00e7\u00f5es. A semelhan\u00e7a fon\u00e9tica \u00e9 muito acentuada. \u00c9 como se conhec\u00eassemos um homem chamado Jo\u00e3o, mas que os alem\u00e3es chamam de <em>Johann<\/em>, os ingleses de <em>John<\/em>, os espanh\u00f3is <em>Juan<\/em> e os franceses de <em>Jean<\/em>. Apesar das diferen\u00e7as idiom\u00e1ticas, existe uma raiz tem\u00e1tica que permanece em todas as formas de escrita ou pron\u00fancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Um tablete encontrado em 1934 no s\u00edtio arqueol\u00f3gico de Khorsaba, a 22 km de N\u00ednive, cont\u00e9m uma lista de reis ass\u00edrios come\u00e7ando com \u201cdezessete reis que viveram em tendas\u201d, provavelmente l\u00edderes de povos n\u00f4mades. \u201c<em>Tudia<\/em>\u201d \u00e9 o primeiro nome da lista seguido por \u201c<em>Adamu<\/em>\u201d, que muito provavelmente seria um t\u00edtulo de realeza advindo de um ancestral famoso, como foi o nome C\u00e9sar para os imperadores romanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais \u00e0 frente, noutra lista, est\u00e1 o 37<sup>o<\/sup> rei, chamado <em>Puzar-Assur<\/em>. Ele era um dos v\u00e1rios reis nomeados em homenagem ao seu ancestral Assur, o fundador da Ass\u00edria. Em G\u00eanesis 4:22 encontramos o mesmo costume num dos descendentes de Caim que se autodenominou Tubalcaim. Assim, \u00e9 poss\u00edvel que <em>Adamu<\/em> tenha sido um rei que assumiu esse nome em homenagem a outro <em>Adamu<\/em> importante que existiu antes dele. E por que n\u00e3o supor que seria uma homenagem ao Ad\u00e3o que viveu no \u00c9den?<\/p>\n\n\n\n<p>Os arque\u00f3logos tamb\u00e9m perceberam que pelo menos seis elementos hist\u00f3ricos do G\u00eanesis foram encontrados nos tabletes que agora eram traduzidos por peritos em paleografia.<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a> De maneira bastante comum, eles mencionavam:<\/p>\n\n\n\n<p>1 \u2013 A cria\u00e7\u00e3o e desobedi\u00eancia de um casal humano que perde o para\u00edso.<\/p>\n\n\n\n<p>2 \u2013 A maldi\u00e7\u00e3o que segue \u00e0 desobedi\u00eancia, trazendo a morte aos habitantes da Terra.<\/p>\n\n\n\n<p>3 \u2013 O in\u00edcio da fam\u00edlia humana marcado pela trag\u00e9dia de um homic\u00eddio.<\/p>\n\n\n\n<p>4 \u2013 A humanidade que se torna m\u00e1 e, por isso, \u00e9 destru\u00edda num dil\u00favio.<\/p>\n\n\n\n<p>5 \u2013 O perecimento de quase todos, menos alguns que s\u00e3o preservados pelos deuses.<\/p>\n\n\n\n<p>6 \u2013 Uma confus\u00e3o de idiomas que espalha os homens pelos quatro cantos da Terra.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Tradi\u00e7\u00e3o universal<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Esses paralelos liter\u00e1rios derrubaram a tese de que a narrativa do G\u00eanesis seria um mito criado por Mois\u00e9s. Alguns, no entanto, continuaram a negar a historicidade b\u00edblica, sugerindo desta vez que esses relatos mesopot\u00e2micos eram os originais e que o G\u00eanesis seria um pl\u00e1gio de obras liter\u00e1rias j\u00e1 existentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Desmentindo esta \u00faltima hip\u00f3tese, K. A. Kitchen escreveu que \u201ca suposi\u00e7\u00e3o comum de que este relato [b\u00edblico] \u00e9 simplesmente uma vers\u00e3o simplificada de lendas babil\u00f4nicas \u00e9 um sofisma em suas bases metodol\u00f3gicas. No Antigo Oriente Pr\u00f3ximo, a regra \u00e9 que relatos e tradi\u00e7\u00f5es podem surgir (por acr\u00e9scimo ou embelezamento) na elabora\u00e7\u00e3o de lendas, mas n\u00e3o o contr\u00e1rio. No Antigo Oriente, as lendas n\u00e3o eram simplificadas para se tornar pseudo-hist\u00f3rias como tem sido sugerido para o G\u00eanesis\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio de ser um pl\u00e1gio, o G\u00eanesis possui caracter\u00edsticas de ser quase uma \u201ccorre\u00e7\u00e3o\u201d daquilo que o antecede. Prova disso \u00e9 o fato de que dentre todos os textos ele \u00e9 o \u00fanico que assume um monote\u00edsmo cl\u00e1ssico em meio a vers\u00f5es milenares que preferiam atribuir aos \u201cdeuses\u201d a obra de cria\u00e7\u00e3o e julgamento do planeta Terra.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 mesmo Levi-Strauss, que considerava o relato da cria\u00e7\u00e3o um mito, foi for\u00e7ado a admitir que \u201cgrande surpresa e perplexidade surgem do fato de que esses temas b\u00e1sicos para os mitos da cria\u00e7\u00e3o s\u00e3o mundialmente os mesmos em diferentes \u00e1reas do globo\u201d, principalmente fora do Oriente M\u00e9dio<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, o que nos resta \u00e9 aceitar a hip\u00f3tese de que tanto o G\u00eanesis quanto esses mitos (por mais distorcidos que estejam) procedam igualmente de uma mesma ra\u00edz hist\u00f3rica, a saber, a tradi\u00e7\u00e3o ad\u00e2mica. Todos eles narram, \u00e0 sua maneira, um fato que realmente aconteceu e ficou marcado, por muitas gera\u00e7\u00f5es, na mem\u00f3ria dos povos. A distor\u00e7\u00e3o, \u00e9 claro, foi se tornando mais acentuada \u00e0 medida que os descendentes de Ad\u00e3o mergulhavam no polite\u00edsmo, perdendo de vista o aspecto monote\u00edsta de Deus, que vinha desde o \u00c9den.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Peter James Cousins, <em>Ci\u00eancia e F\u00e9 \u2013 <\/em>novas perspectivas, S\u00e3o Paulo: ABU Editora, 1997, 174.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Pierre Teilhard de Chardin, <em>The Appearance of Man<\/em>, Nova Iorque: Harper and Row, 1965.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Cf. a tradu\u00e7\u00e3o inglesa em <em>ANET<\/em>. 101-103; 313, 314, 450, 606.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> A ideia de que Adapa seria o primeiro homem est\u00e1 na express\u00e3o: \u201cEa o criou como um <em>modelo<\/em> dos homens\u201d (<em>ANET,<\/em> 101, linha 6). Aqui a palavra traduzida por \u201cmodelo\u201d pode ser lida no sentido de chefe ou exemplo a ser seguido, mas sempre mantendo a conota\u00e7\u00e3o cronol\u00f3gica e moral de \u201co primeiro de todos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> <em>ANET<\/em>, 102 linha 67.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Para mais compara\u00e7\u00f5es veja: William H. Shea, \u201cAdam in Ancient Mesopotamian Traditions\u201d <em>AUSS, <\/em>(Spring 1977), 27-42.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> <em>ANET, <\/em>73 linhas 16ss.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Andr\u00e9 Lamaire, \u201cEscrita e l\u00ednguas do Oriente M\u00e9dio antigo\u201d, in A. Barucq [et.al], <em>Escritos do Oriente antigo e fontes b\u00edblicas<\/em>, S\u00e3o Paulo: Ed. Paulinas, 1992, 13.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Paleografia \u00e9 o estudo dos mais antigos registros e formas de escrita da humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> K. A. Kitchen, <em>Ancient Orient and Old Testament, <\/em>Downers Grove, IL: Inter Varsity Press, 1966, 89.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Claude Levi-Strauss, \u201cThe Structural Study of Myth\u201d in <em>Structural Anthropology, <\/em>Nova Iorque:&nbsp; Basic Books, 1963, 208.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A narrativa sobre os primeiros cap\u00edtulos da hist\u00f3ria humana n\u00e3o est\u00e1 restrita ao texto b\u00edblico<\/p>\n","protected":false},"author":237,"featured_media":275185,"comment_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"xtt-pa-format":[3879],"xtt-pa-classification":[],"xtt-pa-editorias":[3668],"xtt-pa-departamentos":[],"xtt-pa-projetos":[],"xtt-pa-regiao":[259],"xtt-pa-sedes":[119],"xtt-pa-owner":[1170],"class_list":["post-275183","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","xtt-pa-format-coluna","xtt-pa-editorias-biblia","xtt-pa-regiao-mundo","xtt-pa-sedes-dsa","xtt-pa-owner-divisao-sul-americana"],"acf":{"embed_url":"","embed_length":"","custom_author":""},"terms":{"editorial":"B\u00edblia","format":"Coluna"},"featured_media_url":{"full":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2021\/01\/eden-fato-ou-ficcao.jpg","medium":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2021\/01\/eden-fato-ou-ficcao-768x471.jpg","small":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2021\/01\/eden-fato-ou-ficcao-140x90.jpg","pa-block-preview":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2021\/01\/eden-fato-ou-ficcao-140x90.jpg","pa-block-render":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2021\/01\/eden-fato-ou-ficcao-290x220.jpg"}}