{"id":209439,"date":"2017-10-27T09:16:47","date_gmt":"2017-10-27T12:16:47","modified":"2017-10-30T10:59:26","modified_gmt":"2017-10-30T13:59:26","slug":"divida-da-ciencia-com-religiao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/noticias.adventistas.org\/pt\/divida-da-ciencia-com-religiao\/","title":{"rendered":"A d\u00edvida da ci\u00eancia com a religi\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Glauber Ara\u00fajo<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_209441\" style=\"width: 904px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/noticias.adventistas.org\/pt\/noticia\/biblia\/divida-da-ciencia-com-religiao\/divida-da-ciencia-com-religiao\/\" rel=\"attachment wp-att-209441\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-209441\" class=\"wp-image-209441\" src=\"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2017\/10\/27085228\/divida-da-ciencia-com-religiao.jpg\" alt=\"\" width=\"894\" height=\"597\" srcset=\"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2017\/10\/27085228\/divida-da-ciencia-com-religiao.jpg 1500w, https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2017\/10\/27085228\/divida-da-ciencia-com-religiao-768x513.jpg 768w, https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2017\/10\/27085228\/divida-da-ciencia-com-religiao-150x100.jpg 150w, https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2017\/10\/27085228\/divida-da-ciencia-com-religiao-730x488.jpg 730w\" sizes=\"(max-width: 894px) 100vw, 894px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-209441\" class=\"wp-caption-text\">A partir do exemplo que viram nos int\u00e9rpretes da B\u00edblia no in\u00edcio do protestantismo, estudiosos de outras \u00e1reas buscaram novas formas de obter conhecimento (Foto: Shutterstock)<\/p><\/div>\n<p>Vivemos num mundo estruturado sobre a tecnologia e que, por isso, \u00e9 incrivelmente dependente dela. Gra\u00e7as ao avan\u00e7o cient\u00edfico, somos capazes de enviar rob\u00f4s a outros planetas, carregar computadores na palma da m\u00e3o ou amarrados ao pulso e at\u00e9 modificar o c\u00f3digo gen\u00e9tico de esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>No entanto, a ci\u00eancia nem sempre teve essa precis\u00e3o e status. Os \u201ccientistas\u201d da Idade M\u00e9dia trabalharam em condi\u00e7\u00f5es bem prec\u00e1rias, comparadas \u00e0s atuais. E essa diferen\u00e7a n\u00e3o se explica somente pelo abismo tecnol\u00f3gico e de conhecimento que separa os dois \u00adper\u00edodos, mas tamb\u00e9m pelo modo com o qual as pessoas interpretavam os fen\u00f4menos naturais.<\/p>\n<p>Alguns estudiosos defendem a ideia de que existe uma rela\u00e7\u00e3o \u00edntima entre a forma com que a B\u00edblia (o livro da revela\u00e7\u00e3o especial de Deus) era interpretada e como a natureza (o livro da revela\u00e7\u00e3o natural de Deus) era estudada. Este artigo pretende mostrar como o m\u00e9todo de interpretar o texto sagrado redescoberto pelos protestantes teve impacto no modo de fazer ci\u00eancia.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h2><span style=\"color: #339966\"><strong>Do aleg\u00f3rico para o literal<\/strong><\/span><\/h2>\n<p>Durante a Idade M\u00e9dia, o m\u00e9todo de interpreta\u00e7\u00e3o aleg\u00f3rico proposto por Or\u00edgenes (185-253) foi o mais empregado no estudo da B\u00edblia. Em seu livro\u00a0<em>Tratado Sobre os Princ\u00edpios<\/em>, ele desenvolve sua teoria hermen\u00eautica (de interpreta\u00e7\u00e3o) defendendo que todo texto b\u00edblico tem tr\u00eas sentidos: o literal, o moral e o aleg\u00f3rico, sendo que o \u00faltimo deveria ser o mais almejado pelos int\u00e9rpretes crist\u00e3os (<em>The AnteNicene Fathers<\/em>, v. 4, p. 359).<\/p>\n<p>O m\u00e9todo aleg\u00f3rico buscava encontrar o sentido espiritual do texto b\u00edblico. Assim, objetos, animais, lugares ou pessoas relatados na B\u00edblia representavam verdades espirituais al\u00e9m deles mesmas. As cinco pedrinhas que Davi pegou para matar Golias, por exemplo, eram interpretadas por exegetas (int\u00e9rpretes) cat\u00f3licos como significando f\u00e9, obedi\u00eancia, servi\u00e7o, ora\u00e7\u00e3o e Esp\u00edrito Santo. Por sua vez, para o abade franc\u00eas Bernardo de Claraval (1090-1153), os dentes da amada de Cantares 4:2 significavam os monges e a vida no mosteiro.<\/p>\n<p>Nesse tempo, tudo era visto de forma simb\u00f3lica; e esse m\u00e9todo era aplicado \u00e0 natureza tamb\u00e9m. O valor simb\u00f3lico da natureza era visto como superior a seu aspecto f\u00edsico. E somente os fen\u00f4menos naturais mencionados nas Escrituras recebiam aten\u00e7\u00e3o. Sendo assim, a natureza n\u00e3o era explorada por seu valor intr\u00ednseco nem pelo interesse em seus mecanismos, mas era utilizada apenas como um repert\u00f3rio para li\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas e morais.<\/p>\n<p>Bas\u00edlio de Cesareia (329-379), por exemplo, afirmava que \u201ctodo animal venenoso \u00e9 aceito como a representa\u00e7\u00e3o dos poderes contr\u00e1rios e perversos\u201d encontrados no ser humano (<em>Fathers of the Church<\/em>, v. 46, p. 207). Agostinho, por sua vez, acreditava que criaturas aladas representassem os fi\u00e9is que haviam recebido instru\u00e7\u00e3o na f\u00e9 crist\u00e3, e que, assim, poderiam \u201cvoar pelos c\u00e9us\u201d (<em>Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church<\/em>, v. 1, p. 199).<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h2><span style=\"color: #339966\"><strong>Pesquisa restrita aos livros<\/strong><\/span><\/h2>\n<p>Outro contraste entre a ci\u00eancia moderna e a medieval \u00e9 que a daquela \u00e9poca n\u00e3o tinha como base a observa\u00e7\u00e3o e a experimenta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o era emp\u00edrica como a de hoje. Os \u201ccientistas\u201d, como podemos chamar os fil\u00f3sofos naturais daquele per\u00edodo, restringiam suas pesquisas \u00e0s bibliotecas. Quando os oceanos ou as estrelas eram o objeto de estudo, eles recorriam aos livros de\u00a0pensadores gregos como Arist\u00f3teles e Plat\u00e3o, porque n\u00e3o entendiam a pesquisa cient\u00edfica como um empreendimento explorat\u00f3rio ou inquisitivo. Predominava a cultura do livro, na qual a ci\u00eancia era entendida como uma atividade de preserva\u00e7\u00e3o e transmiss\u00e3o do conhecimento obtido pelos autores cl\u00e1ssicos da Antiguidade (<em>The\u00a0New Cambridge Modern History:\u00a0The Reformation, 1520-1559<\/em>, v. 2, p. 423).<\/p>\n<p>Por\u00e9m, com o advento do protestantismo, Lutero passou a defender uma hermen\u00eautica literalista da B\u00edblia. Para muitos protestantes, o que importava era o sentido \u00f3bvio que emana do texto. Desse ponto de vista, n\u00e3o mais era preciso depender dos pais da igreja para entender a B\u00edblia. Cada leitor tinha autonomia para interpretar as Escrituras.<\/p>\n<p>Em busca do sentido literal do texto, os exegetas protestantes se voltaram para as l\u00ednguas originais da B\u00edblia a fim de corrigir os erros que haviam sido inseridos nas tradu\u00e7\u00f5es do livro sagrado e que, consequentemente, influenciaram a distor\u00e7\u00e3o de algumas doutrinas crist\u00e3s. O esfor\u00e7o deles acabou resultando no retorno \u00e0 fonte do verdadeiro conhecimento espiritual.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h2><span style=\"color: #339966\"><strong>Da contempla\u00e7\u00e3o para a observa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/span><\/h2>\n<p>As mudan\u00e7as propostas por reformadores como Martinho Lutero, Jo\u00e3o Calvino e Ulrico Zu\u00ednglio impactaram a sociedade europeia do s\u00e9culo 16 de tal maneira a ponto de mudar a filosofia, a educa\u00e7\u00e3o e as ci\u00eancias. A exemplo dos int\u00e9rpretes da B\u00edblia, estudiosos de outras \u00e1reas perceberam que precisavam urgentemente romper com o pensamento medieval a fim de encontrar novos m\u00e9todos para a obten\u00e7\u00e3o do conhecimento.<\/p>\n<p>Assim como os te\u00f3logos, os cientistas migraram do estudo aleg\u00f3rico ou simb\u00f3lico da natureza para uma an\u00e1lise literal e concreta do mundo que os cercava. Deixaram a \u00eanfase mais contemplativa para procurar entender os mecanismos naturais por meio da observa\u00e7\u00e3o e experimenta\u00e7\u00e3o. O objetivo deles era controlar a natureza a fim de aprimorar a condi\u00e7\u00e3o humana. De certa maneira, o ideal protestante de encontrar o sentido \u00f3bvio do texto b\u00edblico contribuiu para que a sociedade da \u00e9poca procurasse m\u00e9todos \u201ccient\u00edficos\u201d de explicar os fen\u00f4menos naturais e de utilizar esse conhecimento de forma pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a leitura literalista do livro de G\u00eanesis ajudou os cientistas a olhar de outra forma para o mundo natural, pois eventos, pessoas e lugares relatados na B\u00edblia passaram a ser interpretados como reais e hist\u00f3ricos. As refer\u00eancias ao jardim do \u00c9den, por exemplo, atra\u00edram esfor\u00e7os de curiosos para identificar sua verdadeira localiza\u00e7\u00e3o e caracter\u00edsticas f\u00edsicas. \u201cO texto de G\u00eanesis, lido literalmente, proporciona lampejos de volta \u00e0 \u00e9poca em que a humanidade teve conhecimento completo do mundo natural, exerceu dom\u00ednio total sobre todas as criaturas e se comunicou numa linguagem natural que fosse perfeitamente capaz de retratar a ess\u00eancia de todas as coisas\u201d, analisa o historiador Peter Harrison, no seu livro\u00a0<em>The Bible, Protestantism, and the Rise of Natural Science<\/em>\u00a0(p. 70).<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h2><span style=\"color: #339966\"><strong>O papel redentivo da ci\u00eancia<\/strong><\/span><\/h2>\n<p>Naquele contexto, a queda moral de Ad\u00e3o e Eva tamb\u00e9m passou a ser interpretada como um fato hist\u00f3rico. Assim, exegetas protestantes come\u00e7aram a acreditar que toda a perfei\u00e7\u00e3o da humanidade, incluindo sua capacidade de obter conhecimento, havia se perdido com a expuls\u00e3o do para\u00edso. Por isso, como forma de reden\u00e7\u00e3o, os cientistas protestantes passaram a ver na empreitada cient\u00edfica um modo de restaurar a humanidade \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o de soberania original.<\/p>\n<p>Essa restaura\u00e7\u00e3o do ser humano (e da cria\u00e7\u00e3o, por consequ\u00eancia) deveria se dar em duas frentes. Na primeira, a mente humana restauraria todas as coisas \u00e0 sua unidade original pelo conhecimento do mundo natural. Na segunda, o ser humano assumiria o controle da natureza, retomando a posi\u00e7\u00e3o de Ad\u00e3o como mordomo da cria\u00e7\u00e3o. Como podemos ver, para muitos, a investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica se tornou uma atividade redentiva e com motiva\u00e7\u00e3o espiritual.<\/p>\n<p>Esse foi um conceito especialmente defendido pelo ingl\u00eas Francis Bacon (1561-1626). Em sua obra\u00a0<em>Novum Organum<\/em>, Bacon argumenta que \u201co ser humano, por meio de sua queda no pecado, perdeu tanto seu estado de inoc\u00eancia quanto seu dom\u00ednio sobre a cria\u00e7\u00e3o. Ambas as perdas, entretanto, podem ser reparadas nesta vida de forma parcial \u2013 a primeira por meio da religi\u00e3o e da f\u00e9; a \u00faltima por meio das artes e das ci\u00eancias\u201d (<em>Works<\/em>, v. 4, p. 247). Movido por esse ideal \u201crestauracionista\u201d, ele conseguiu criar uma \u201creforma das ci\u00eancias\u201d, fundamentando-a em seu conhecido m\u00e9todo de indu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Bacon tamb\u00e9m foi fundamental no estabelecimento da Sociedade Real de Londres, renomada institui\u00e7\u00e3o que at\u00e9 hoje patrocina o avan\u00e7o da ci\u00eancia no Reino Unido. \u201cO dom\u00ednio sobre as coisas\u201d era um dos objetivos da sociedade, conforme relata Thomas Sprat, primeiro historiador da entidade (<em>History of the Royal Society<\/em>, p. 62).<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a esse esp\u00edrito, a Inglaterra foi o ber\u00e7o do m\u00e9todo emp\u00edrico de Bacon e das inven\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas que viabilizaram a revolu\u00e7\u00e3o industrial nos s\u00e9culos 18 e 19. \u201cSe n\u00e3o fosse o conhecido empirismo brit\u00e2nico, fundado por Francis Bacon durante a era elisabetana, as ci\u00eancias modernas teriam permanecido, em grande medida, um ramo especulativo da \u2018filosofia \u00adnatural\u2019\u201d, analisa o fil\u00f3sofo e te\u00f3logo norte-americano Carl Raschke, num verbete da\u00a0<em>Encyclopedia of Sciences and Religions<\/em>\u00a0(p. 1751).<\/p>\n<p>Em resumo, podemos concluir que a interpreta\u00e7\u00e3o literal do texto b\u00edblico resgatada pelos protestantes foi um dos fatores a impulsionar o surgimento da ci\u00eancia moderna, com sua \u00eanfase no estudo emp\u00edrico da natureza. \u00c9, portanto, uma ironia pensar que, em nossos dias, interpretar literalmente o texto b\u00edblico seja visto como s\u00edmbolo de fundamentalismo e um obst\u00e1culo para o avan\u00e7o cient\u00edfico. Ao que parece, a moral da hist\u00f3ria entre ci\u00eancia e religi\u00e3o \u00e9 que a primeira tem uma d\u00edvida com a Reforma Protestante.\u00a0<strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong><em>GLAUBER ARA\u00daJO<\/em><\/strong><em>\u00a0\u00e9 pastor, mestre em Ci\u00eancias da Religi\u00e3o e editor de livros na Casa Publicadora Brasileira<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>(Artigo publicado originalmente na edi\u00e7\u00e3o de agosto de 2017 da <em>Revista Adventista<\/em>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O estudo cient\u00edfico teve como impulso o m\u00e9todo de interpreta\u00e7\u00e3o da B\u00edblia redescoberto pelos protestantes<\/p>\n","protected":false},"author":32,"featured_media":209444,"comment_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"xtt-pa-format":[3876],"xtt-pa-classification":[],"xtt-pa-editorias":[3668,3216],"xtt-pa-departamentos":[272],"xtt-pa-projetos":[],"xtt-pa-regiao":[],"xtt-pa-sedes":[184,119],"xtt-pa-owner":[1170],"class_list":["post-209439","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","xtt-pa-format-noticia","xtt-pa-editorias-biblia","xtt-pa-editorias-ciencia","xtt-pa-departamentos-institucional","xtt-pa-sedes-asr","xtt-pa-sedes-dsa","xtt-pa-owner-divisao-sul-americana"],"acf":false,"terms":{"editorial":"B\u00edblia","format":"Not\u00edcia"},"featured_media_url":{"full":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2017\/10\/27091906\/divida-da-ciencia-com-religiao-capa.jpg","medium":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2017\/10\/27091906\/divida-da-ciencia-com-religiao-capa-768x513.jpg","small":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2017\/10\/27091906\/divida-da-ciencia-com-religiao-capa-140x90.jpg","pa-block-preview":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2017\/10\/27091906\/divida-da-ciencia-com-religiao-capa-140x90.jpg","pa-block-render":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2017\/10\/27091906\/divida-da-ciencia-com-religiao-capa-290x220.jpg"}}