{"id":205258,"date":"2017-08-17T07:00:57","date_gmt":"2017-08-17T10:00:57","modified":"2021-11-15T20:47:47","modified_gmt":"2021-11-15T23:47:47","slug":"a-palavra-e-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/noticias.adventistas.org\/pt\/coluna\/edson.nunes\/a-palavra-e-vida\/","title":{"rendered":"A Palavra \u00e9 vida"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_205259\" style=\"width: 722px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/noticias.adventistas.org\/pt\/?attachment_id=205259\" rel=\"attachment wp-att-205259\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-205259\" class=\"wp-image-205259 \" src=\"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2017\/08\/16152847\/a-palavra-e-vida.jpg\" alt=\"\" width=\"712\" height=\"445\" srcset=\"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2017\/08\/16152847\/a-palavra-e-vida.jpg 1500w, https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2017\/08\/16152847\/a-palavra-e-vida-768x480.jpg 768w, https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2017\/08\/16152847\/a-palavra-e-vida-70x45.jpg 70w, https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2017\/08\/16152847\/a-palavra-e-vida-730x456.jpg 730w\" sizes=\"(max-width: 712px) 100vw, 712px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-205259\" class=\"wp-caption-text\">O epis\u00f3dio da cria\u00e7\u00e3o do mundo encontrado na B\u00edblia ressalta o poder existente nas palavras proferidas por Deus (Foto: Shutterstock)<\/p><\/div>\n<p>O relato de G\u00eanesis 1 encontra paralelos em diversas literaturas antigas. Entretanto, apesar de algumas liga\u00e7\u00f5es \u00f3bvias, h\u00e1 sempre diferencia\u00e7\u00f5es importantes que apontam a singularidade do texto b\u00edblico, tanto em sua forma quanto em seu conte\u00fado. Em seu princ\u00edpio, por exemplo, a B\u00edblia n\u00e3o explica o per\u00edodo anterior \u00e0 Cria\u00e7\u00e3o da terra e dos c\u00e9us, nem descreve Deus ou seu <em>habitat<\/em>, como o fazem as outras culturas. O relato come\u00e7a de maneira direta e assertiva, apresentando a divindade apenas em sua rela\u00e7\u00e3o com a cria\u00e7\u00e3o: \u201cNo princ\u00edpio criou Deus os c\u00e9us e a terra\u201d (1:1).<\/p>\n<p>O verso 2, iniciado por uma cl\u00e1usula disjuntiva, n\u00e3o progride com a narrativa. Na verdade, cada uma das tr\u00eas senten\u00e7as \u00e9 introduzida por uma conjun\u00e7\u00e3o em hebraico e faz uma declara\u00e7\u00e3o sobre o estado da terra anterior ao primeiro ato criativo de Deus. Assim, a primeira declara\u00e7\u00e3o sobre a terra \u00e9 de sua condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9-criativa: \u05ea\u05b9\u05d4\ufb35 (<em>t\u00f4hu<\/em>) e \u05d1\u05b9\u05d4\ufb35 (<em>v\u00f4hu<\/em>). Essas duas palavras aparentam ser um par usado para criar o que chamamos de hend\u00edadis, ou seja, o uso de dois substantivos ligados por conjun\u00e7\u00e3o para transmitir uma ideia que poderia ser dita com apenas um deles e assim tornar o texto mais po\u00e9tico.<\/p>\n<p>S\u00e3o diversas as tentativas de achar uma raiz etimol\u00f3gica para <em>v\u00f4hu<\/em>. As teorias v\u00e3o desde a liga\u00e7\u00e3o com uma deusa canaanita (<em>B\u03b1\u03b1\u03bd<\/em>) ou com a deusa mesopot\u00e2mica <em>Ba-u<\/em>, at\u00e9 uma liga\u00e7\u00e3o com o \u00e1rabe <em>bahiya<\/em>, que significa \u201cser vazio\u201d. J\u00e1 <em>t\u00f4hu<\/em> n\u00e3o foi, at\u00e9 agora, ligado a nenhuma base hebraica, apesar de ser considerado um substantivo prim\u00e1rio. Dentre as v\u00e1rias possibilidades da etimologia de <em>t\u00f4hu<\/em>, h\u00e1 o termo ugar\u00edtico <em>thw<\/em>, \u201cdeserto\u201d, de onde poderia ser derivado. Essa vis\u00e3o ainda \u00e9 encarada com certo ceticismo, mas parece existir uma tend\u00eancia de consider\u00e1-la a principal possibilidade e \u00e9 o que ser\u00e1 demonstrado a seguir.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de G\u00eaneses 1:2, a mesma constru\u00e7\u00e3o aparece mais duas vezes. Em Isa\u00edas 34:11, lemos: \u201cMas o pelicano e o ouri\u00e7o a possuir\u00e3o; o bufo e o corvo habitar\u00e3o nela. Estender-se-\u00e1 sobre ela o cordel de destrui\u00e7\u00e3o e o prumo de ru\u00edna\u201d. O contexto em que o verso aparece \u00e9 de ju\u00edzo de Deus sobre Edom. Nesse ju\u00edzo que a divindade trar\u00e1, os rios e a terra se tornar\u00e3o como piche e o p\u00f3 da terra ser\u00e1 sulfuroso (v.9). A terra ficar\u00e1 em chamas dia e noite e a fuma\u00e7a subir\u00e1 de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o (v.10). O contexto dos versos 9-10 sugere que, nesse caso, a melhor tradu\u00e7\u00e3o para o par de palavras n\u00e3o seria \u201cdestrui\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cru\u00edna\u201d, como lemos, mas algo como: deserto, vazio, n\u00e3o produtivo.<\/p>\n<p><strong>Poder da Palavra<\/strong><\/p>\n<p>Em Jeremias 4:23, encontramos: \u201cOlhei para a terra, e ei-la sem forma e vazia; para os c\u00e9us, e n\u00e3o tinham luz\u201d. Como o texto anterior de Isa\u00edas, tamb\u00e9m aparece em um contexto de ju\u00edzo. O profeta anuncia ju\u00edzo contra Jerusal\u00e9m e Jud\u00e1, e no verso 20 do mesmo cap\u00edtulo, Jeremias fala de uma terra devastada, destru\u00edda, sem nada de valor. O verbo usado para descrever essa terra devastada \u00e9 \ufb2a\u05d3\u05d3 (<em>sh-d-d<\/em>). Esse verbo pode ser traduzido como devastar, pilhar, lidar violentamente com uma pessoa, ou coisa. Al\u00e9m disso, em suas mais de 50 apari\u00e7\u00f5es verbais, o contexto mais frequente \u00e9 o de guerra. E apesar de o principal agente de destrui\u00e7\u00e3o ser, geralmente, um ex\u00e9rcito estrangeiro, \u00e9 YHWH (Deus) a fonte \u00faltima de destrui\u00e7\u00e3o em 33 das 40 ocorr\u00eancias de <em>sh-d-d<\/em> nos escritos prof\u00e9ticos.<\/p>\n<p>Em 4:26, Jeremias fala que v\u00ea a terra frut\u00edfera deserta e as cidades em ru\u00ednas. Ainda \u00e9 poss\u00edvel perceber que a mensagem envolve a ideia de um estado de desola\u00e7\u00e3o da terra (v. 27). O verbo usado para se referir a essa desola\u00e7\u00e3o, a raiz <em>sh-m-m<\/em> (\ufb2a\u05de\u05dd), pode ser entendido como algo tornado des\u00e9rtico, n\u00e3o habitado, sem vida. Sobre a rela\u00e7\u00e3o entre os versos da profecia, a conclus\u00e3o \u00e9 que a constru\u00e7\u00e3o <em>t\u00f4hu<\/em> <em>vav\u00f4hu<\/em> corresponde ao verbo \u2018secar\u2019 e sugere aridez e improdutividade da terra. \u00c9 como se o profeta estivesse descrevendo, em sua vis\u00e3o, a cria\u00e7\u00e3o sendo desfeita. Parece existir, portanto, uma certa intertextualidade entre Jeremias 4:23 e G\u00eanesis 1:2 que permite entender a constru\u00e7\u00e3o <em>t\u00f4hu vav\u00f4hu<\/em> como uma refer\u00eancia a um estado des\u00e9rtico da terra pr\u00e9-cria\u00e7\u00e3o. Esse estado da terra descrito pelo par de palavras analisado, pode ent\u00e3o ser caracterizado por uma aus\u00eancia de vida.<\/p>\n<p>A palavra <em>t\u00f4hu<\/em> aparece ainda outras 17 vezes sozinha, mas a an\u00e1lise de todas as ocorr\u00eancias na B\u00edblia Hebraica (B.H.) afasta qualquer possibilidade de relacionar a descri\u00e7\u00e3o inicial da terra em G\u00eanesis 1:2 a algum tipo de personifica\u00e7\u00e3o ou alus\u00e3o mitol\u00f3gica de um deus cananeu\/eg\u00edpcio\/mesopot\u00e2mico. Apesar de a origem etimol\u00f3gica ser incerta para ambas palavras, uma grande parte dos textos sugere que devem ser entendidas num contexto de estado des\u00e9rtico e de aus\u00eancia de vida, sendo esse o <em>status<\/em> da terra pr\u00e9-cria\u00e7\u00e3o e n\u00e3o um caos aquoso como certos te\u00f3logos apontam.<\/p>\n<p>Esse cen\u00e1rio criado em G\u00eanesis 1:2 aponta para uma realidade important\u00edssima: sem a a\u00e7\u00e3o divina, n\u00e3o h\u00e1 vida. Sem a fala criativa de Deus, tudo \u00e9 \u201cn\u00e3o ainda\u201d. Esse \u00e9 o pano de fundo para a sequ\u00eancia do relato de G\u00eanesis 1 e para todo o restante da B\u00edblia: antes da palavra de Deus, n\u00e3o h\u00e1 vida. A leitura inicial do que \u00e9 a terra estabelece um ponto de partida: a terra que antecede a a\u00e7\u00e3o criativa divina, que antecede o homem, \u00e9 um deserto vazio, ausente de vida e improdutiva.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o, o ap\u00f3stolo, interpreta exatamente assim, com um leve e vital <em>insight<\/em>: \u201cNo princ\u00edpio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princ\u00edpio com Deus. Todas as coisas foram feitas por interm\u00e9dio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez. A vida estava nele e a vida era a luz dos homens\u201d. (Jo\u00e3o 1:1-4). Sem a Palavra, tudo \u00e9 deserto; na Palavra est\u00e1 a vida.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Bibliografia<\/strong><\/p>\n<p>BANDSTRA, Barry. <em>Genesis 1-11: a handbook on the Hebrew text<\/em>. Waco, TX: Baylor University Press, 2008. (Baylor Handbook on the Hebrew Bible)<\/p>\n<p>CASSUTO, Umberto. <em>A Commentary on the Book of Genesis: from Adam to Noah<\/em>. Jerusalem: Magnes Press, 1959.<\/p>\n<p>EVEN-SHOSHAN, Abraham (ed.). <em>A New Concordance of the Old Testament: using the hebrew and aramaic text.<\/em> Jerusalem: Kiryat Sefer Publishing House, 1989.<\/p>\n<p>G\u00d6RG, M. \u201c\ufb4a\u05b9\u05d4\ufb35\u201d.In: BOTTERWECK, Johannes; RINGGREN, Helmer; FABRY, Heinz-Josef (eds.). <em>Theological Dicionary of the Old Testament<\/em>. Vol. XV. Grand Rapids, MI: William B. Eerdmand Publishing Company, 2006.<\/p>\n<p>KOEHLER, Ludwig; BAUMGARTNER, Walter. <em>The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament<\/em>. Study Edition. 2 vols. Leiden: Brill, 2001.<\/p>\n<p>TSUMURA, David Toshio. <em>Creation and Destruction: a reappraisal of the Chaoskampf Theory in the Old Testament<\/em>. Winona Lake, In: Eisenbrauns, 2005.<\/p>\n<p>TURNER, Laurence A. <em>Announcements of Plot in Genesis<\/em>. Eugene, OR: Wipf &amp; Stock, 1990.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De acordo com a B\u00edblia, a exist\u00eancia s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel a partir da a\u00e7\u00e3o divina<\/p>\n","protected":false},"author":255,"featured_media":205259,"comment_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"xtt-pa-format":[3879],"xtt-pa-classification":[],"xtt-pa-editorias":[3668],"xtt-pa-departamentos":[],"xtt-pa-projetos":[],"xtt-pa-regiao":[],"xtt-pa-sedes":[],"xtt-pa-owner":[],"class_list":["post-205258","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","xtt-pa-format-coluna","xtt-pa-editorias-biblia"],"acf":false,"terms":{"editorial":"B\u00edblia","format":"Coluna"},"featured_media_url":{"full":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2017\/08\/16152847\/a-palavra-e-vida.jpg","medium":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2017\/08\/16152847\/a-palavra-e-vida-768x480.jpg","small":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2017\/08\/16152847\/a-palavra-e-vida-140x90.jpg","pa-block-preview":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2017\/08\/16152847\/a-palavra-e-vida-140x90.jpg","pa-block-render":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2017\/08\/16152847\/a-palavra-e-vida-290x220.jpg"}}