{"id":119890,"date":"2015-10-19T06:54:56","date_gmt":"2015-10-19T09:54:56","modified":"2021-11-15T21:11:45","modified_gmt":"2021-11-16T00:11:45","slug":"a-singularidade-de-daniel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/noticias.adventistas.org\/pt\/coluna\/diogo.cavalcanti\/a-singularidade-de-daniel\/","title":{"rendered":"A singularidade de Daniel"},"content":{"rendered":"<p>Muitos desconhecem as profecias de Daniel, enquanto outros rejeitam sua natureza preditiva. Uma interpreta\u00e7\u00e3o popular situa a data de composi\u00e7\u00e3o do livro no segundo s\u00e9culo a.C. Nessa \u00f3tica, o livro seria decorrente da opress\u00e3o do rei sel\u00eaucida Ant\u00edoco Epif\u00e2nio (c. 175-164 a.C.), que invadiu a Judeia, proibiu a religi\u00e3o judaica, decretou a adora\u00e7\u00e3o a Zeus com sacrif\u00edcios impuros no templo, proibiu a guarda do s\u00e1bado e das festas e iniciou uma carnificina de milhares de homens, mulheres, idosos, crian\u00e7as e beb\u00eas.<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a> Para os adventistas, o livro de Daniel \u00e9 leg\u00edtimo e tem import\u00e2ncia crucial. Nele encontramos profecias fundamentais para nossos dias.<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a> O livro responde \u00e0s principais inquieta\u00e7\u00f5es do fim do Antigo Testamento e constitui uma ponte para o Novo Testamento, e em especial, para o Apocalipse.<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>N\u00e3o se sabe a origem de Daniel, quem seriam seus pais ou qual a sua genealogia. O texto b\u00edblico indica que ele pertencia \u00e0 realeza ou \u00e0 nobreza de Jud\u00e1 (Daniel 1:3), levada para Babil\u00f4nia na primeira das tr\u00eas deporta\u00e7\u00f5es, no ano de 605 a.C. O nome tamb\u00e9m \u00e9 mencionado em Ezequiel (14:14, 20). Segundo Josefo (<em>Antiguidades<\/em>, x.10, \u00a71), Daniel tinha parentesco com o rei Zedequias, informa\u00e7\u00e3o que se encontra no Talmude Babil\u00f4nico (<em>Sanhedrim <\/em>i.3.).<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a> Contudo, a falta de informa\u00e7\u00f5es sobre Daniel e sua vida nas cortes, aparentemente distante do povo, o levaram a n\u00e3o ser classificado entre os <em>Ne<u>b<\/u>i\u2019im<\/em> (Profetas) no c\u00e2non judaico, por ser considerado como um disc\u00edpulo dos profetas, dos quais teria dependido para escrever seu livro (Jeremias 9:2).<\/p>\n<p>Para alguns eruditos cr\u00edticos, Daniel n\u00e3o existiu. Ele seria uma idealiza\u00e7\u00e3o de homem piedoso, pois h\u00e1 um mito sobre esse nome na literatura ugar\u00edtica anterior.<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a> O autor, portanto, teria sido algu\u00e9m bem intencionado que tentou relacionar os fatos do presente com seus estudos das Escrituras e que tamb\u00e9m procurou fazer uma proje\u00e7\u00e3o do futuro. Outros nem chegam a fazer essa \u201cconcess\u00e3o\u201d e (des)classificam completamente o livro de Daniel como uma simples forma de contar fatos atuais como se tivessem sido profetizados (<em>vaticinia ex-eventum<\/em>). Para eles, o livro n\u00e3o teve um autor, por\u00e9m dois ou v\u00e1rios.<\/p>\n<p><strong>Respostas<\/strong><\/p>\n<p>Diante desses questionamentos sobre o livro de Daniel, em primeiro lugar, sua mensagem e linguagem complexa transcendem preocupa\u00e7\u00f5es locais e imediatas supostamente ligadas a Ant\u00edoco Epif\u00e2nio. Projetam-se a mil\u00eanios no futuro, em favor do povo de Deus \u2013 a maior preocupa\u00e7\u00e3o de Daniel. A ansiedade do idoso profeta foi respondida pelo mensageiro de Deus no cap\u00edtulo 9, assegurando a preserva\u00e7\u00e3o de seu povo, por\u00e9m revelando um longo caminho de lutas e dificuldades (Daniel 9:26), o que n\u00e3o parecia fazer sentido para Daniel, que estava atento \u00e0 profecia de Jeremias a qual afirmava que o cativeiro duraria apenas 70 anos (Daniel 8:27; 9:2). Ainda assim, mesmo depois das explica\u00e7\u00f5es do anjo, Daniel continuou com d\u00favidas (Daniel 12:6, 8, 9). Ao fim do livro, ele n\u00e3o entendia parte do que ele mesmo havia sido instru\u00eddo a escrever. Apesar disso, ele se mostra um profeta aut\u00eantico, pois, al\u00e9m de receber sonhos e vis\u00f5es da parte de Deus como um profeta (N\u00fameros 12:6), vis\u00f5es que t\u00eam fundamento na B\u00edblia e na hist\u00f3ria, ele se preocupou profundamente com o povo da alian\u00e7a e intercedeu fervorosamente por ele (Daniel 9:1-19), assim como Mois\u00e9s, o profeta-modelo do Antigo Testamento.<\/p>\n<p>Da perspectiva liter\u00e1ria, o livro de Daniel \u00e9 singular nas Escrituras hebraicas. \u00danico bil\u00edngue,<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a> foi escrito na sequ\u00eancia <em>hebraico<\/em> (1:1-2:4a) \u2013 <em>aramaico<\/em> (2:4b-7:28) \u2013 <em>hebraico<\/em> (8:1-12:13). A se\u00e7\u00e3o aramaica inicia ap\u00f3s as palavras: \u201cOs caldeus disseram ao rei em aramaico\u201d e se encerra em 7:28, marcada por uma frase conclusiva: \u201caqui, terminou o assunto\u201d. Quanto \u00e0 sua forma, o livro tamb\u00e9m \u00e9 o \u00fanico a combinar <em>narrativas<\/em> <em>literais <\/em>(cap\u00edtulos 1-6) e <em>narrativas simb\u00f3licas<\/em> (cap\u00edtulos 7-12). Contudo, na parte literal, encontra-se um trecho simb\u00f3lico (2:31-35, a vis\u00e3o da est\u00e1tua de Nabucodonosor) e na parte simb\u00f3lica encontra-se um trecho literal (9:1-19). Na primeira parte, as refer\u00eancias a Daniel s\u00e3o feitas na terceira pessoa, enquanto, na segunda, ele \u00e9 o narrador em primeira pessoa.<\/p>\n<p>William Shea, erudito adventista j\u00e1 falecido, doutor em medicina e em estudos do Antigo Oriente M\u00e9dio, destacou outro aspecto importante de Daniel: sua ordem tem\u00e1tica. Os cap\u00edtulos 7 e 8, por exemplo, s\u00e3o datados antes do 5 e do 6. Segundo Shea, isso indica que os \u201cpor mais que os eventos registrados em Daniel sejam hist\u00f3ricos no sentido de que realmente tenham acontecido, eles foram arranjados de certa maneira, para certo prop\u00f3sito\u201d. Para Shea, Daniel segue uma <em>ordem de pensamento<\/em>.<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a> As narrativas interagem entre si, complementando-se mutuamente e formando um espelhamento liter\u00e1rio. Nessa ordem, que Shea classifica como \u201cinversa\u201d, a estrutura do livro \u00e9 constru\u00edda na forma de um <em>quiasma<\/em> (da letra grega <em>qui<\/em>, que se parece com um X). Os cap\u00edtulos 2 e 7 tratam sobre os imp\u00e9rios; o 3 e o 6, da persegui\u00e7\u00e3o no ex\u00edlio; o 4 e o 5, de ju\u00edzos divinos contra dois reis babil\u00f4nicos.<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a> Esse paralelismo tem\u00e1tico entre os seis cap\u00edtulos mencionados ocorre na se\u00e7\u00e3o aramaica do livro, que se concentra mais nas na\u00e7\u00f5es, enquanto os cap\u00edtulos das se\u00e7\u00f5es hebraicas tratam mais do povo de Deus.<\/p>\n<p>Na se\u00e7\u00e3o apocal\u00edptica (cap\u00edtulos 7 a 12), Shea destaca que a ordem n\u00e3o \u00e9 inversa, mas <em>reversa<\/em>. Os eventos dos cap\u00edtulos 7 a 9 foram revertidos, partindo <em>do efeito para a causa<\/em>, ou seja, do estabelecimento final do reino de Deus para a primeira vinda do Messias. Primeira em ordem cronol\u00f3gica, a vinda do Messias foi apresentada por \u00faltimo, seguindo uma linha de racioc\u00ednio peculiar \u00e0 mentalidade oriental, por\u00e9m estranha ao pensamento ocidental.<\/p>\n<p>O livro de Daniel \u00e9 inteiramente entrela\u00e7ado, uma pe\u00e7a liter\u00e1ria sem igual. Mesmo seus cr\u00edticos, que prop\u00f5em um autoria m\u00faltipla do livro, reconhecem em sua unidade liter\u00e1ria um tremendo desafio que faz alguns deles reduzir o n\u00famero de autores para dois ou at\u00e9 para um. Quanto ao elemento preditivo, ainda que a data do livro fosse deslocada para o tempo de Epif\u00e2nio, ainda apontaria com precis\u00e3o para ano da primeira vinda de Jesus (9:24-27), o que confirma a natureza prof\u00e9tica do livro e a veracidade de tudo o que ele afirma ser.<\/p>\n<p>Daniel inaugura o g\u00eanero apocal\u00edptico. Diante das falhas do povo, da amea\u00e7a de aniquila\u00e7\u00e3o de sua identidade religiosa no cativeiro, a profecia apocal\u00edptica indica a dire\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es divinas para o longo prazo. N\u00e3o se trata das profecias cl\u00e1ssicas que, como vimos, s\u00e3o relativas a circunst\u00e2ncias e pessoas num n\u00edvel mais local e restrito. A profecia apocal\u00edptica apresenta eventos que s\u00e3o incondicionais, que \u201cdevem acontecer\u201d (Apocalipse 1:1), relativos \u00e0 macroestrutura do plano divino e de sua vis\u00e3o onisciente \u00e0 qual n\u00e3o escapa o futuro mais long\u00ednquo. Revela um Deus fiel \u00e0 alian\u00e7a, que assegura o prevalecimento final de sua vontade em favor de seu povo.<\/p>\n<p>\u00daltimo aspecto a ser considerado aqui, dentre outros que poderiam ser mencionados, \u00e9 o da experi\u00eancia pessoal de Daniel com Deus, que se torna um modelo. Segundo Shea, a dimens\u00e3o experiencial n\u00e3o pode ser negligenciada em detrimento das outras.<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a> A experi\u00eancia de Daniel com Deus \u00e9 t\u00e3o importante quanto suas profecias. Para quem estuda as profecias, um relacionamento vivo com Deus n\u00e3o \u00e9 menos necess\u00e1rio. \u00c9 o que d\u00e1 sentido ao conhecimento te\u00f3rico, aproximando o estudante a Deus, numa conex\u00e3o mais viva e pessoal. O livro de Daniel se mostra verdadeiro como Escritura que inspira a uma vida espiritual mais profunda e comprometida com o Senhor e seu reino. Para quem descobre a singularidade do livro de Daniel, ele \u00e9 um tesouro inestim\u00e1vel que tem um peso enorme na compreens\u00e3o de toda a Palavra de Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Ver 2 Macabeus 5 e 6.<\/em><\/p>\n<p><em><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Podem ser destacadas as profecias: dos 2.300 anos, sobre a purifica\u00e7\u00e3o do santu\u00e1rio celestial (cap. 8), das 70 semanas e o tempo da primeira vinda do Messias (cap. 9) e a dos 1.260 anos, que denuncia o poder blasfemo e perseguidor do anticristo (cap. 7:25; 12:7; comparar com Ap 11:2; 12:6, 14; 13:5; Mt 24:15; 2Ts 2:1-4)<\/em><\/p>\n<p><em><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Sobre mais informa\u00e7\u00f5es introdut\u00f3rias ao livro de Daniel, ver White, Ellen G. Profetas e Reis. Tatu\u00ed-SP: Casa Publicadora Brasileira, p. 479-490. Nichol, Francis D. (ed.). Coment\u00e1rio B\u00edblico Adventista. Tatu\u00ed-SP: Casa Publicadora Brasileira, vol. 4, p. 821-829. Sobre a hist\u00f3ria da interpreta\u00e7\u00e3o de Daniel, ver p. 26 a 64.<\/em><\/p>\n<p><em><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Hirsch, E. G. e outros. \u201cDaniel\u201d. Jewish Encyclopedia.<\/em><\/p>\n<p><em><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Hartman, Louis F.; Di Lella, Alexander A. The Anchor Bible. The Book of Daniel, Nova York: Doubleday, 2005, p. 7.<\/em><\/p>\n<p><em><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> O livro b\u00edblico de Esdras tamb\u00e9m cont\u00e9m se\u00e7\u00f5es em aramaico: 4:8-6:18;7:12-26, mas estas se referem apenas \u00e0 transcri\u00e7\u00e3o dos decretos reais, o que n\u00e3o chegam a caracteriz\u00e1-lo como bil\u00edngue como o livro de Daniel, em que as duas l\u00ednguas se complementam.<\/em><\/p>\n<p><em><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Shea, William H. Daniel: A Reader\u2019s Guide. Nampa, Idaho: Pacific Press Publishing Association. 2005, p. 13.<\/em><\/p>\n<p><em><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> Ibid., p. 14.<\/em><\/p>\n<p><em><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a> Ibid., p. 13.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um panorama completo sobre o livro b\u00edblico de Daniel na nova coluna do te\u00f3logo Diogo Calvancanti. <\/p>\n","protected":false},"author":146,"featured_media":119891,"comment_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"xtt-pa-format":[3879],"xtt-pa-classification":[],"xtt-pa-editorias":[3668],"xtt-pa-departamentos":[],"xtt-pa-projetos":[],"xtt-pa-regiao":[],"xtt-pa-sedes":[],"xtt-pa-owner":[],"class_list":["post-119890","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","xtt-pa-format-coluna","xtt-pa-editorias-biblia"],"acf":false,"terms":{"editorial":"B\u00edblia","format":"Coluna"},"featured_media_url":{"full":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2015\/10\/19065211\/statue-of-nebuchadnezzar-daniel-chapter-2-iron-and-clay-hyrbid-nephilim-kingdom-853x1024.jpg","medium":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2015\/10\/19065211\/statue-of-nebuchadnezzar-daniel-chapter-2-iron-and-clay-hyrbid-nephilim-kingdom-853x1024-768x922.jpg","small":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2015\/10\/19065211\/statue-of-nebuchadnezzar-daniel-chapter-2-iron-and-clay-hyrbid-nephilim-kingdom-853x1024-140x90.jpg","pa-block-preview":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2015\/10\/19065211\/statue-of-nebuchadnezzar-daniel-chapter-2-iron-and-clay-hyrbid-nephilim-kingdom-853x1024-140x90.jpg","pa-block-render":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2015\/10\/19065211\/statue-of-nebuchadnezzar-daniel-chapter-2-iron-and-clay-hyrbid-nephilim-kingdom-853x1024-290x220.jpg"}}