{"id":118160,"date":"2015-10-07T11:34:28","date_gmt":"2015-10-07T14:34:28","modified":"2025-01-21T20:41:10","modified_gmt":"2025-01-21T23:41:10","slug":"a-crise-economica-a-fome-e-o-papel-da-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/noticias.adventistas.org\/pt\/coluna\/heronsantana\/a-crise-economica-a-fome-e-o-papel-da-igreja\/","title":{"rendered":"A crise econ\u00f4mica, a fome e o papel da Igreja"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><a href=\"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2015\/10\/shutterstock_2431295155.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"665\" src=\"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2015\/10\/shutterstock_2431295155.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-402187\" srcset=\"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2015\/10\/shutterstock_2431295155.jpg 1000w, https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2015\/10\/shutterstock_2431295155-768x511.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">A fome tem sido um tema cada vez menos explorado na m\u00eddia, que est\u00e1 cada vez mais metropolitana, cada vez mais concentrada e cada vez mais pautada pelas redes sociais. (Foto: Shutterstock)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n<div class=\"mceTemp\">\n<p>A crise ocupa manchetes e notici\u00e1rios e se transformou mais uma vez em palavra da moda. Decis\u00f5es est\u00e3o sendo tomadas considerando o impacto da crise. O peso j\u00e1 \u00e9 sentido no bolso: redu\u00e7\u00e3o do poder de compra, aumento explosivo de impostos, enfraquecimento de programas sociais, infla\u00e7\u00e3o dando passeio, alerta para o crescimento da pobreza.<\/p>\n<p>Em d\u00e9cadas recentes, o Brasil conseguiu conquistas sociais e econ\u00f4micas que chamaram a aten\u00e7\u00e3o do mundo. Uma delas foi a redu\u00e7\u00e3o da fome. Do in\u00edcio do s\u00e9culo at\u00e9 agora, o pa\u00eds conseguiu reduzir em 82% o n\u00famero de subalimentados em seu territ\u00f3rio. Os dados s\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura (FAO). Programas de transfer\u00eancia de renda e de seguran\u00e7a alimentar contribu\u00edram para esse resultado expressivo. O medo agora \u00e9 ver um retrocesso nessas conquistas. Segundo a mesma organiza\u00e7\u00e3o, a luta contra a fome tem bloqueios claros: cat\u00e1strofes naturais, conflitos, mudan\u00e7as no clima \u2013 e crises econ\u00f4micas, como esta agora.<\/p>\n<p>A fome tem sido um tema cada vez menos explorado na m\u00eddia, que est\u00e1 cada vez mais metropolitana, cada vez mais concentrada e cada vez mais pautada pelas redes sociais. A FAO apresentou relat\u00f3rio este ano, pouco divulgado, mostrando que cerca de 800 milh\u00f5es de pessoas passam fome no mundo. \u00c9 quatro vezes a popula\u00e7\u00e3o brasileira. E muitos desses que est\u00e3o com fome ou mal alimentados est\u00e3o bem aqui, perto da gente.<\/p>\n<p>Eu pesquiso e leio sobre a fome desde a faculdade, h\u00e1 quase 20 anos. Reflexo de uma descoberta: foi l\u00e1 que conheci um m\u00e9dico conterr\u00e2neo, e seus escritos e ideias sobre a fome local e a fome global. Eu me refiro ao pernambucano Josu\u00e9 de Castro. Era m\u00e9dico, soci\u00f3logo, nutricionista, antrop\u00f3logo, humanista. Era tamb\u00e9m um retirante nordestino. Saiu da regi\u00e3o, fugindo da seca, como tantos outros, para se aventurar em terras que n\u00e3o eram suas.<\/p>\n<p>Formou-se em Medicina aos 21 anos, no Rio de Janeiro. Tr\u00eas anos depois apresentou a tese \"O problema fisiol\u00f3gico da alimenta\u00e7\u00e3o no Brasil\". Um sinal de que estava \u00e0 frente do seu tempo, colocando a nutri\u00e7\u00e3o em destaque no interesse sociol\u00f3gico do assunto principal de sua obra, a fome. Dois livros de Josu\u00e9 de Castro s\u00e3o essenciais e recomendo a leitura: \u201cGeografia da Fome\u201d e \u201cFome: Um Tema Proibido\u201d.<\/p>\n<p>Josu\u00e9 de Castro descobriu a fome nos manguezais de Recife. Vendo o homem ali, mergulhado na lama, catando caranguejos para sobreviver, ele escreveu:<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o foi na Sorbonne, nem em qualquer outra universidade s\u00e1bia que travei conhecimento com o fen\u00f4meno da fome. A fome se revelou espontaneamente aos meus olhos nos mangues do (Rio) Capibaribe, nos bairros miser\u00e1veis do Recife - Afogados, Pina, Santo Amaro, Ilha do Leite. Esta foi a minha Sorbonne. A lama dos mangues de Recife, fervilhando de caranguejos e povoada de seres humanos feitos de carne de caranguejo, pensando e sentindo como caranguejo. S\u00e3o seres anf\u00edbios - habitantes da terra e da \u00e1gua, meio homens e meio bichos. Alimentados na inf\u00e2ncia com caldo de caranguejo - este leite de lama -, se faziam irm\u00e3os de leite dos caranguejos. Cedo me dei conta desse estranho mimetismo: os homens se assemelhando em tudo aos caranguejos. Arrastando-se, acachapando-se como caranguejos para poderem sobreviver. A impress\u00e3o que eu tinha, era de que os habitantes dos mangues - homens e caranguejos nascidos \u00e0 beira do rio - \u00e0 medida que iam crescendo, iam cada vez se atolando mais na lama. Foi assim que senti formigar dentro de mim a terr\u00edvel descoberta da fome\u201d \u2013 Pref\u00e1cio do livro Homens e Caranguejos.<\/p>\n<p><strong>Manguezais de Recife<\/strong><\/p>\n<p>E foi a partir dos manguezais de Recife que Josu\u00e9 de Castro percebeu que a fome est\u00e1 em todo o lugar. Sua obra \u00e9 leitura de doer o est\u00f4mago. E \u00e9 leitura que me leva a outra, da escritora Ellen White, apontando crian\u00e7as como v\u00edtimas principais desse flagelo:<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 nas grandes cidades multid\u00f5es que recebem menos cuidado e considera\u00e7\u00e3o do que os que s\u00e3o concedidos a mudos animais. Pensai nas fam\u00edlias amontoadas como rebanhos em miser\u00e1veis corti\u00e7os, sombrios por\u00f5es muitos deles, exalando umidade e imund\u00edcia. Nesses s\u00f3rdidos lugares as crian\u00e7as nascem, crescem e morrem. Nada veem das belezas naturais que Deus criou para deleitar os sentidos e elevar a alma. Rotas e quase morrendo de fome, vivem elas entre o v\u00edcio e a deprava\u00e7\u00e3o, moldadas no car\u00e1ter pela mis\u00e9ria e o pecado que as rodeia. As crian\u00e7as s\u00f3 ouvem o nome de Deus de maneira profana. A linguagem suja, as impreca\u00e7\u00f5es e os insultos enchem-lhes os ouvidos. As exala\u00e7\u00f5es da bebida e do fumo, nocivos maus cheiros e degrada\u00e7\u00e3o moral pervertem-lhes os sentidos. Assim se preparam multid\u00f5es para se tornarem criminosos, inimigos da sociedade que os abandonou \u00e0 mis\u00e9ria e \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 <em>A Ci\u00eancia do Bom Viver, 189 e 190.<\/em><\/p>\n<p>Ao estudar a fome, Josu\u00e9 de Castro se tornou um indispens\u00e1vel agitador social e pol\u00edtico. Com ele aprendi que a fome \u00e9 multifacetada. Existe a fome individual e coletiva. A fome total e parcial. A fome espec\u00edfica e a fome oculta. A fome tabu. A fome estabelecida em cadeias de subnutri\u00e7\u00e3o. O grande objetivo era denunciar a fome como algo presente no cotidiano das pessoas. Mostrar que era um crime, e era inaceit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Eu entendo que um lugar bom para a Igreja estar \u00e9 em meio a crise, cuidando das pessoas e apontando um caminho diferente para sair da situa\u00e7\u00e3o infeliz a que est\u00e3o sujeitas. A Igreja do s\u00e9culo 21 precisa de profetas, mas profetas mais preocupados em estar em meio \u00e0s pessoas, denunciando a corrup\u00e7\u00e3o e apontando caminhos de esperan\u00e7a, como Jeremias, e menos preocupados em defender seu status quo religioso, como Jonas. Pessoalmente, acredito que a Igreja pode servir como uma rede de assist\u00eancia a pessoas com car\u00eancias de seguran\u00e7a alimentar.<\/p>\n<p>Isso pode ser feito de duas maneiras:<\/p>\n<p>1) <strong>Fortalecendo o Mutir\u00e3o de Natal:<\/strong> A campanha adventista de doa\u00e7\u00e3o de alimentos \u00e9 uma das mais importantes mobiliza\u00e7\u00f5es do pa\u00eds pela seguran\u00e7a alimentar. A Igreja pode ampliar ainda mais esta relev\u00e2ncia, fortalecendo as iniciativas de cada congrega\u00e7\u00e3o para estimular a participa\u00e7\u00e3o dos seguidores nesta campanha. Eu me lembro de um tempo em que assessorei pastores e l\u00edderes religiosos volunt\u00e1rios do Mutir\u00e3o de Natal a tomar duas medidas importantes. A primeira, tentar conhecer nas cidades se havia conselhos de seguran\u00e7a alimentar, e participar ativamente dessas reuni\u00f5es, em nome do Mutir\u00e3o de Natal. A segunda, visitar e conhecer entidades municipais que poderiam ser beneficiadas pelo programa volunt\u00e1rio de coleta de alimentos.<\/p>\n<p>2) A segunda sugest\u00e3o \u00e9 <strong>levar conhecimento para as comunidades sobre reaproveitamento de alimentos<\/strong>. O desperd\u00edcio de alimentos \u00e9 um problema cr\u00f4nico de seguran\u00e7a alimentar. H\u00e1 registro da FAO mostrando que o desperd\u00edcio de alimentos no mundo chega a 1,7 bilh\u00e3o de toneladas por ano - um ter\u00e7o de tudo o que \u00e9 produzido. S\u00f3 aqui ter\u00edamos o suficiente para alimentar as cerca de 925 milh\u00f5es de pessoas que passam fome todos os dias. Seria o verdadeiro fome zero.<\/p>\n<p>No Brasil 26,3 milh\u00f5es de toneladas de comida s\u00e3o jogados no lixo a cada ano. Se aproveitadas, daria para alimentar todos os brasileiros que sofrem pela fome. Esse \u00e9 um papel que poderia ser assumido por muitas igrejas. H\u00e1 igrejas que fazem cursos de culin\u00e1ria vegetariana, natural e saud\u00e1vel. Em comunidades pobres, esses cursos ganhariam ainda mais relev\u00e2ncia, ao incluir o reaproveitamento de alimentos na receita. Uma medida simples, mas que faria a diferen\u00e7a no problema de desperd\u00edcio de alimentos.<\/p>\n<p>Se tem algo que me deixa feliz \u00e9 perceber que a Igreja pode ser uma b\u00ean\u00e7\u00e3o para as pessoas, por meio do minist\u00e9rio e do magist\u00e9rio. A Igreja tem essa voca\u00e7\u00e3o de salvar e ensinar - para agora e para a eternidade. N\u00e3o consigo saber a extens\u00e3o dessa crise, quando ela vai passar e se ela vai passar. Mas consigo entender que estar atento \u00e0s necessidades humanas e demonstrar o acolhimento crist\u00e3o genu\u00edno \u00e9 uma obra mission\u00e1ria das mais relevantes que podem ser realizadas nesses tempos sombrios.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Duas sugest\u00f5es para a Igreja promover a seguran\u00e7a alimentar nas comunidades.<\/p>\n","protected":false},"author":135,"featured_media":402187,"comment_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"xtt-pa-format":[3879],"xtt-pa-classification":[],"xtt-pa-editorias":[3217],"xtt-pa-departamentos":[],"xtt-pa-projetos":[],"xtt-pa-regiao":[],"xtt-pa-sedes":[119],"xtt-pa-owner":[1170],"class_list":["post-118160","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","xtt-pa-format-coluna","xtt-pa-editorias-comportamento","xtt-pa-sedes-dsa","xtt-pa-owner-divisao-sul-americana"],"acf":{"embed_url":"","embed_length":"","custom_author":""},"terms":{"editorial":"Comportamento","format":"Coluna"},"featured_media_url":{"full":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2015\/10\/shutterstock_2431295155.jpg","medium":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2015\/10\/shutterstock_2431295155-768x511.jpg","small":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2015\/10\/shutterstock_2431295155-240x135.jpg","pa-block-preview":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2015\/10\/shutterstock_2431295155-240x135.jpg","pa-block-render":"https:\/\/files.adventistas.org\/noticias\/pt\/2015\/10\/shutterstock_2431295155-480x270.jpg"}}