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Vínculo e amizade são a base do trabalho missionário do Clube de Desbravadores

Laços de afeto, constância e testemunho pessoal têm sido a ponte mais eficaz entre a igreja e quem está fora dela, e também o que mantém firme quem já está dentro


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Clube de Desbravadores Ityrapuan têm usado o esporte para atrair novas pessoas ao estudo da Bíblia (Foto: Yan Daniel Lima Quiterio)

Não foi um convite formal, nem um folheto na porta de casa. Foi um projeto de aulas gratuitas de jiu-jitsu que levou a uma amizade de motociclistas que, aos poucos, conduziu um rapaz de cerca de 20 anos a frequentar a igreja, receber estudos bíblicos e manifestar o desejo de um dia integrar o Clube de Desbravadores.

Em Lavras, interior de Minas Gerais, o esporte é o que atrai crianças, adolescentes e adultos ao convívio com os adventistas do sétimo dia. Há pouco mais de dois anos, Rogério Condé de Oliveira, diretor do Clube de Desbravadores Ityrapuan, levantou essa ideia porque ele mesmo gostaria de voltar a praticar essa atividade física. Encontrou na própria diretoria um professor e, quando deram conta, viram a oportunidade de falar de Jesus sem palavras.

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As aulas começaram na garagem da casa de Oliveira. Mas foi chegando gente e começaram a separar por idade, horários. Buscaram um lugar maior para que os participantes do Clube de Desbravadores sediado na Faculdade Adventista de Minas Gerais (Fadminas) pudessem participar.

Depois, abriram para a comunidade e outras pessoas passaram a frequentar as aulas e, consequentemente, conviver com os desbravadores. “A metodologia se baseia no princípio de pregar pelo testemunho, se possível usando palavras”, resume Oliveira. A frase, quase um trocadilho, é também uma confissão de método: o que atrai não é o argumento, é o vínculo. “O interesse surge pelo carinho, pela amizade e pela atenção dedicada às crianças e às famílias”, completa.

A isca que não é armadilha

Para o pastor Jeferson Silva, diretor de Desbravadores e Aventureiros para oito países da América do Sul, essa capacidade de alcançar quem está fora das quatro paredes da igreja é o que torna o clube singular. “Eu enxergo o clube como uma agência ganhadora de pessoas para Jesus, porque ele permite, com suas estratégias e métodos de trabalho, possibilidades que a igreja por si só provavelmente não conseguiria alcançar”, afirma.

A força está nos símbolos: o uniforme, o lenço, a bandeira, as trilhas e os acampamentos despertam curiosidade. E a curiosidade abre espaço para amizade. “O menino se sente atraído, vem para o clube, aprende sobre Jesus, acessa a Bíblia, princípios e valores. De forma muito natural, ele compartilha isso em casa com uma família que não é da igreja”, resume o pastor. Com o tempo, o alcance de uma criança se converte no alcance de uma família inteira.

Quem já está dentro também precisa ser alcançado

Mas o vínculo não trabalha só para fora. Dados recentes do Sistema de Gerenciamento de Clubes mostram que 75% dos membros dos clubes de Desbravadores e Aventureiros na América do Sul já são membros da Igreja Adventista. E é justamente sobre esse grupo que recai uma das funções mais silenciosas do ministério: conservar pelo mesmo caminho da amizade.

Estatísticas internas indicam que adolescentes e jovens que participam do clube apresentam índices de apostasia consideravelmente menores do que os da mesma faixa etária que estão na igreja, mas fora do clube. “Isso acontece porque o clube promove senso de pertencimento, fortalece a identidade e desenvolve a amizade, algo essencial nessa faixa etária”, explica Silva. Na adolescência, período clássico de afastamento, é o vínculo, não o sermão, que segura o jovem no lugar.

Rogério é, ele mesmo, um fruto desse trabalho. Desbravador desde os 13 anos, passou pela fase “rebelde” da adolescência. E foi o vínculo formado nesse ministério que o levou a permanecer na caminhada cristã. Desde então, lidera clubes e busca fazer por outros jovens o que fizeram por ele.

Formação de líderes e missionários

A ideia de transformar o esporte em ministério deu origem a um projeto que hoje atende entre 30 e 40 crianças e cerca de 30 adultos em Lavras, além de outras 50 crianças e até 40 adultos na cidade vizinha, Itumirim.

Aliás, a expansão do projeto aconteceu justamente porque o Ityrapuan tem uma característica muito específica. Por estar em um internato adventista, quase que a totalidade de seus cerca de 100 membros já são batizados. Por isso, Rogério destaca que seu objetivo maior é formar líderes e missionários.

Em Itumirim, quem coordena o novo Clube de Desbravadores é justamente uma pessoa que era da liderança do clube de Lavras. E isso se repete em outras regiões. Pessoas que passaram pelo clube da Fadminas hoje lideram e expandem esse ministério em todo o Brasil. “Funcionamos como um polo de formação de líderes: temos pessoas de várias partes do Brasil que passam por aqui e depois difundem essa liderança pelo país”, explica Oliveira.

Quando a comunidade bate à porta do clube

A relevância social do trabalho não passa despercebida fora da igreja. Prefeituras convidam regularmente os Desbravadores para apoiar campanhas de saúde, combate às drogas, conscientização sobre tabagismo, prevenção à dengue e à violência. Em contextos missionários mais resistentes à pregação direta, o clube costuma ser a primeira porta a ser aberta. “Ao iniciar um clube, presta-se um serviço relevante, conquista-se a confiança dos pais e, a partir desse relacionamento, abrem-se as portas para o evangelho”, diz Jeferson Silva.

E foi em um desfile cívico que uma família conheceu o Clube de Desbravadores e se interessou. Conseguiu o contato do diretor com um amigo em comum e passaram a levar o filho, portador de uma neurodivergência, para as reuniões.

“Pelo acolhimento e cuidado que a diretoria e os próprios desbravadores tiveram com ele, a mãe me procurou dizendo que admirava o que fazíamos pelo filho dela e pediu para visitar a nossa igreja, sem que tivéssemos feito um convite formal prévio”, relata Oliveira.

Outra ação que desperta o interesse das pessoas, ou ao menos a curiosidade, é o lenço amarelo. Em setembro acontece a Semana do Lenço, em que os desbravadores usam o acessório na escola, faculdade, trabalho. E foi assim, em uma das aulas de jiu-jitsu em Lavras, que um rapaz de 20 anos demonstrou interesse em participar do clube e conhecer mais a Igreja Adventista. Lá também fez amigos que dividem uma outra paixão: o motociclismo. Agora, está frequentando a igreja, estudando a Bíblia e se preparando para o batismo.

Dedicação e aprendizado

Nada disso acontece sozinho. Rogério lembra que a diretoria de um clube dedica cerca de 25% dos fins de semana do ano, além de feriados prolongados, para acampamentos e camporis, além de recursos para pagar inscrições e transporte, inclusive de desbravadores que não têm condições financeiras. “Já passei por quase todas as funções na igreja e afirmo que a liderança ativa de clube é o ministério que mais exige tempo e dedicação”, resume.

É também, segundo ele, o que mais forma. “O clube me ensinou a gerir pessoas, ter empatia, agir com carinho, cultivar pontualidade e organização. Lidar com seres humanos é o maior desafio de qualquer gestão, e o ambiente do clube foi o responsável direto por moldar minha postura de liderança”, afirma Rogério, hoje administrador na Universidade Federal de Lavras e desbravador há 36 anos.

Uma geração que nasceu com a IA na mão

Se o vínculo continua sendo o motor, a linguagem para construí-lo precisa mudar. Essa é, hoje, uma das maiores tarefas da liderança. “A faixa de 10 a 15 anos hoje é altamente tecnológica, já nasceu no universo digital e possui maior sensibilidade emocional, o que exige cuidado com a saúde mental. Ao mesmo tempo, é uma geração mais impaciente e com menor tempo de concentração”, observa Jeferson Silva.

A última grande atualização dos manuais de classes regulares e avançadas dos Desbravadores aconteceu há quase 20 anos. Já são quatro gerações de jovens formadas sob o mesmo material. Por isso, uma revisão completa está em curso, com lançamento previsto para o Campori Sul-Americano “Sempre Desbravador”, previsto para janeiro de 2027.


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