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Reportagem especial: Missão de todos

8 de julho de 2014
Com destaque para o programa “Cada Um Salvando Um”, concílio quinquenal enfatizou a visão do pastor como um capacitador, treinador e articulador dos membros na missão. O objetivo agora é não determinar métodos, mas ajudar os fiéis a descobrir e exercer os próprios dons.

Com destaque para o programa “Cada Um Salvando Um”, concílio quinquenal enfatizou a visão do pastor como um capacitador, treinador e articulador dos membros na missão. O objetivo agora é não determinar métodos, mas ajudar os fiéis a descobrir e exercer os próprios dons. Foto: André Martins

Em maio deste ano, a cidade de Foz do Iguaçu (PR) foi o ponto de encontro de 550 pastores do Sul do Brasil que participaram do quinto Concílio Ministerial da União Sul-Brasileira. O evento, que acontece a cada cinco anos, trouxe convidados do Brasil e do exterior, a exemplo dos teólogos Clifford Jones, PhD pela Western Michigan University, que atua como professor na área de Ministérios Cristãos no Seminário de Teologia da Andrews University, e Ricardo Norton, professor na mesma universidade no segmento de Crescimento de Igreja e diretor do Institute of Hispanic Ministry, além de líderes da Igreja Adventista na América do Sul.

A ênfase deste ano foi em um programa que está movimentando a Igreja no Sul do País, denominado “Cada Um Salvando Um”, cuja visão é voltada para o “ministério de todos os crentes”. O objetivo consiste em que cada membro desenvolva um ministério a partir de seus dons, exercendo, assim, papel ativo na missão de evangelizar. “Nós acreditamos que aumentando o número de ceifeiros, nós aumentaremos o resultado da colheita”, afirma o coordenador da iniciativa e presidente da Igreja Adventista nos estados de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, pastor Marlinton Lopes.

O envolvimento dos membros com a pregação do evangelho não é uma realidade da maioria dos fieis no cenário contemporâneo. “Pesquisas indicam que cerca de 20% deles apenas estão engajados em algum ministério”, constata Lopes. Muitos deles, talvez, por acreditarem que não têm o dom de falar em público, cantar, ministrar estudos bíblicos ou se enquadrar nos métodos que são mais comumente divulgados. Nesse contexto, o papel do “Cada Um Salvando Um” é mostrar que qualquer pessoa, independente de sua condição socioeconômica e cultural, pode fazê-lo a partir daquilo que sabe desempenhar e tem prazer em realizar. Histórias como a de seu João Cananéia atestam que isso é possível.

Evangelismo realizado por pescador em comunidades isoladas do litoral paranaense já resultou na implantação de duas congregações. João Cananeia agora planeja se mudar para a localidade a fim de intensificar as ações de evangelização. Foto: André Martins

Evangelismo realizado por pescador em comunidades isoladas do litoral paranaense já resultou na implantação de duas congregações. Foto: André Martins

Pescador de homens – Numa cidade com pouco mais de sete mil habitantes não é difícil encontrá-lo. Seu João leva uma vida simples, ganhando apenas o necessário para a sobrevivência, como a maioria dos moradores do município de Guaraqueçaba, região litorânea do Paraná. Com 44 anos de idade, ele passa boa parte do tempo no mar. “Minha vida é o mar”, como costuma dizer. Aprendeu a pescar com o pai, desde os oito anos de idade.

A casa de João Cananeia é o seu barco. Mas, nos últimos anos, ele trocou as redes por um trabalho voluntário que realiza semanalmente. Aos finais de semana, o pequeno barquinho de madeira e motor à diesel, com capacidade para não mais que cinco pessoas, singra as águas em direção a um vilarejo isolado, numa das extremidades do município.

A saída para a comunidade de Ararapira, onde vivem cerca de 30 famílias que ainda sobrevivem basicamente da pesca, acontece já na madrugada de sexta. Embarcações mais rápidas, como as chamadas “voadeiras” (barco de alumínio com motor de popa), fazem o percurso de Guaraqueçaba até Ararapira em aproximadamente duas horas. Mas seu João Cananéia gasta mais que o dobro desse tempo. Ali, à beira-mar, diante de águas transparentes que formam uma paisagem deslumbrante, parecemos voltar aos tempos bíblicos ao vermos o trabalho de um pescador chamando outros pescadores para serem discípulos. Um povo que provavelmente não seria alcançado por alguém que não falasse a mesma “língua”, entendendo sua cultura e costumes. “Há mais de dois mil anos, Jesus chamou os seus discípulos na beira do mar. Eu entendo que esse chamado também é pra mim. Por isso, como um pescador, eu compreendi que podia alcançar outros pescadores”, justifica João. Ao chegar ao destino, ele sempre dedica algumas horas para visitar os moradores, uma gente hospitaleira que tem sido conquistada pelo exemplo, empatia e amizade.

Quando João ali chegou, durante a Semana Santa em 2013, não havia presença adventista. Mas hoje há uma igreja no local, a segunda que ele implantou no município. Embora as reuniões aconteçam numa casinha de madeira alugada, o principal patrimônio são as pessoas, que atualmente se reúnem todos os sábados num lugar que, até pouco tempo atrás, não dava margem para que a população abraçasse uma nova fé. E onde essa nova esperança nasce, brotam também novas perspectivas de vida e de futuro.

Com o crescimento da igreja, o objetivo de João Cananéia é se mudar em breve de Guaraqueçaba para o local do evangelismo. Mas sua meta não é apenas continuar compartilhando sua fé neste pequeno povoado. Na região, existem cerca de 20 ilhas onde a mensagem do advento ainda não chegou. Assim, com seu “barco evangelista”, ele deve singrar novos mares, lançando as redes em busca de mais “pescadores de homens”.

Métodos em segundo plano – O objetivo do “Cada Um salvando Um” é que o engajamento de pessoas nessa causa seja potencializado. Segundo Marlinton Lopes, esse propósito parte de uma mudança de mentalidade em relação ao que vinha sendo adotado ao longo das últimas décadas. “Durante muito tempo fomos específicos nos métodos e genéricos nas pessoas. Uma lista de métodos era oferecida aos membros como um prato feito e elas precisavam se adequar. O foco agora é ser genéricos nos métodos e específicos nas pessoas”, explica.

Voto esquecido – Essa visão não consite em algo novo, conforme observa Lopes, mas em uma prática que orientou a própria igreja cristã primitiva, impulsionando a pregação do evangelho ao redor do mundo. Séculos mais tarde, essa preocupação também parece ter voltado à tona. Uma ata de 1937, proveniente de uma comissão diretiva da então Missão Paraná-Santa Catarina, evidencia isso. O documento, de 18 fevereiro, faz referência a uma “Campanha de ‘salvar um’”, cujo objetivo era mobilizar cada membro a salvar ao menos uma pessoa ao longo daquele ano. O voto, que partia de uma política da Igreja Adventista em nível mundial e havia sido também votada pela então União Sul-Brasileira, com sede em São Paulo na época, revela a unificação de objetivos em torno do mesmo propósito. O documento diz:

Ata da União Sul-Brasileira, de 1937, mostra plano da Igreja Adventista de ter "Cada Um Salvando Um"

Ata da União Sul-Brasileira, de 1937, mostra plano da Igreja Adventista de ter “Cada Um Salvando Um”. Foto: Arquivo USB

Cerca de um ano mais tarde, outro voto parece confirmar que esta filosofia de trabalho havia resultado em crescimento espiritual expressivo e multiplicação de novos conversos.

Ata de 1938 mostra que plano de cada membro salvar pelo menos uma pessoa ao longo do ano, impulsionou o crescimento da Igreja.

Ata de 1938 mostra que plano de cada membro salvar pelo menos uma pessoa ao longo do ano, impulsionou o crescimento da Igreja. Foto: Arquivo USB

O coração do programa – O principal meio de mobilização missionária vem acontecendo a partir da Escola Sabatina. Para o pastor Alex Palmeira, responsável por esta área na União Sul-Brasileira, isso se deve ao fato de que este departamento da igreja, que contempla todos os membros, está focado na comunhão, no relacionamento e na missão, possibilitando aspectos como a criação de grupos de afinidades, encontros semanais entre líderes e membros, a ênfase na visão global, bem como a formação de líderes, além de ser uma estrutura aceita pela Igreja. Em síntese, conforme acredita Palmeira, “a unidade de ação da Escola Sabatina é um dos melhores ajuntamentos da igreja”.

Em Curitiba, a integração entre o Cada Um Salvando Um e a Escola Sabatiba vem proporcionando mudanças significativas na comunidade adventista do Boqueirão. Ao invés de restringir os encontros às dependências da Igreja durante os cultos de sábado, cada uma das 17 unidades locais hoje está voltada para fora, para o evangelismo. Nesse propósito, elas receberam nomes relacionados ao tipo de atividade que passaram a desempenhar, a exemplo de visitas regulares a lares de idosos, orfanatos, bem como o atendimento à moradores de rua.

“As pessoas estão se envolvendo mais porque percebem Deus agindo. Até os relacionamentos mudaram ao envolver todos na missão”, conta o empresário Josué Votroba, um dos líderes do templo.

Teoria e prática – Essa realidade também começou a ser divisada pelo pastor Tomaz Abrantis, depois que decidiu transformar sua tese doutoral desenvolvida pela Andrews University em prática pastoral no distrito em que atua. Abrantis atende cinco Igrejas na região de Ponta Grossa (PR), entre elas a igreja adventista central da cidade, que conta com 750 integrantes. Autor de um livro publicado recentemente com o título “Qual é a minha função no corpo de Cristo?”, ele busca atuar com foco em ministérios. “O ensino do Novo Testamento é radicalmente contrário à ideia do cristão consumidor de culto. Para os escritores no Novo Testamento, ser cristão é ser um ministro. É participar ativamente da edificação do corpo de Cristo chamado Igreja”, argumenta.

Segundo ele, a prática desse conceito tem motivado os membros a saírem de uma condição de passividade. “Já temos mais de 65% dos fieis envolvidos efetivamente em ministérios”, comemora. E as formas encontradas pelos membros são as mais variadas possíveis, envolvendo atividades que vão desde visitas periódicas em asilos até evangelismo em prisões.

Ciclistas de Foz do Iguaçu unem atividade física com evangelismo. Foto: Arquivo USB

Ciclistas de Foz do Iguaçu unem atividade física com evangelismo. Pedaladas solidárias atraem novos participantes à cada edição. Foto: Arquivo USB

Evangelismo criativo – Essa mesma compreensão levou uma comunidade adventista de Foz do Iguaçu (PR) a desenvolver projetos criativos e relevantes, aproximando a comunidade da igreja. Entre os ministérios que surgiram na região está um que une atividade física com evangelismo. Para eles, a bicileta pode ser mais que um meio de transporte. Assim nasceu o “Bike Clube Adventista”.

O profissional de informática Renato Godois é um dos integrantes do projeto que existe há um ano. Ele conta que o número de ciclistas na cidade é expressivo e que, a partir dessa percepção, a ideia de um ministério voltado para esse público ganhou relevância. Entre as ações realizadas pelo “Bike Clube” estão as pedaladas voluntárias. Periodicamente, eles se mobilizam sobre duas rodas para arrecadar alimentos. Com as doações, famílias carentes da cidade são beneficiadas, gerando, assim, maior aproximação delas com a Igreja. “Às vezes você convida a pessoa para vir à Igreja e ela acaba não vindo. Então, a gente passou a chamar as pessoas para pedalar. E como em Foz do Iguaçu há muitos ciclistas, muitos deles participam das atividades que realizamos. Com isso, acabam fazendo parte do nosso círculo de amizade, se sentem bem e vem para a Igreja”, conta Renato.

O clube tem 20 membros e a cada ação agrega novos participantes, de acordo com o voluntário. “Muita gente que vem pedalar uma vez acaba não saindo mais”, realça.

A iniciativa começou depois que a igreja local incorporou a proposta do “Cada Um Salvando Um”. Segundo Claudir Dallacort, responsável pela mobilização missionária dos membros da comunidade local, até pouco tempo os fieis que exerciam, efetivamente, um ministério, eram minoria. Mas a realidade hoje é bem diferente. “Já temos 70% deles envolvidos efetivamente com a pregação do evangelho”, realça.

Igreja inclusiva – Para o presidente sul-americano da Igreja Adventista, pastor Erton Köhler, quando a igreja é engajada pelos dons, a mobilização passa a ser inclusiva. “Ou seja, todo mundo entra porque cada um tem um dom e se identifica de alguma maneira”, conclui. [Márcio Tonetti, equipe USB]

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