Quebrando o Silêncio leva 20 mil pessoas à Avenida Paulista
Quinta edição da passeata reuniu participantes de diversas regiões do estado de São Paulo em ampla mobilização contra violência aos idosos.

Severino dos Santos, de 64 anos, trabalha como manobrista na Avenida Paulista, em São Paulo, e costuma acompanhar de perto as passeatas do projeto Quebrando o Silêncio. Na tarde do último sábado, 22, porém, o tema da mobilização teve um significado pessoal para ele. O manobrista contou que já sofreu maus-tratos por parte de um dos filhos. “Esse movimento me representa porque eu também sou idoso. Toda ação que representa o idoso, sendo de boa-fé, é bem-vinda”, afirmou.
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Severino estava entre as milhares de pessoas que acompanharam a mobilização. Segundo a Polícia Militar, cerca de 20 mil participantes percorreram a Avenida Paulista na quinta edição da passeata do projeto Quebrando o Silêncio. Neste ano, a campanha trouxe o tema “Idosos em Risco - A violência que atinge quem mais precisa de cuidado”.

A passeata teve início nas proximidades do Museu de Arte de São Paulo (MASP) e seguiu até a região da TV Gazeta. Pelo caminho, fanfarras, cartazes, materiais educativos e um trio elétrico chamaram a atenção de quem passava pela avenida. Crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos de diferentes regiões do estado participaram da ação, que também contou com a participação da turma do Nosso Amiguinho.
Para Telma Brenha, diretora do Quebrando o Silêncio no estado de São Paulo, a escolha da Avenida Paulista ajuda a ampliar a visibilidade da campanha. “Estar na Paulista dá credibilidade ao projeto e nos dá a possibilidade de envolver muitas igrejas e pessoas de diferentes regiões. Já estamos na quinta edição e, para nós, isso virou uma tradição”, afirma.

Violência contra a pessoa idosa
A experiência relatada por Severino é uma das diferentes formas de violência que atingem a população idosa. Entre janeiro e maio de 2026, a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos registrou mais de 92 mil denúncias de violações contra pessoas idosas no Brasil. No período, foram contabilizadas mais de 536 mil violações de direitos.
O cenário ganha ainda mais relevância diante do envelhecimento da população brasileira. Dados do Censo Demográfico 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que o país tinha 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a 15,8% da população. Em relação a 2010, esse grupo cresceu 56%.
A violência contra o idoso não significa apenas agressão física. A campanha deste ano também chama a atenção para humilhações, ameaças, negligência, abandono, isolamento e exploração financeira ou patrimonial. Fraudes digitais e o controle indevido de dinheiro, documentos e decisões da pessoa idosa também podem configurar abuso.
Tânia dos Reis Santos conhece de perto histórias assim. Ela já havia participado da passeata em 2025 e voltou à Paulista para representar pessoas que, segundo ela, ainda têm dificuldade de falar sobre o que vivem. “Eu conheço pessoas que passaram por violência. Estou aqui para ajudar essas pessoas a contar, a abrir o coração para alguém e não esconder”, diz.

Cuidado entre gerações
Com apenas 11 anos de idade, o desbravador Mateus Rodrigues da Silva saiu de Cotia com a família para participar da passeata pela primeira vez. “Eu acho importante a gente ir contra a violência aos idosos porque a violência é uma coisa muito ruim. A gente precisa proteger aqueles que cuidaram da gente, ficar perto, dar carinho, amor e abraço. É por isso que eu estou aqui", destacou.
Para Telma, esse é um dos motivos para manter a mobilização na Avenida Paulista. “Estar na Paulista é um privilégio enorme porque estamos no coração de São Paulo. Além disso, conseguimos envolver muitas igrejas e pessoas de diferentes regiões. Para nós, já virou uma tradição e queremos dar continuidade a esse projeto aqui no próximo ano”, revela.

Campanha integra calendários oficiais
O Quebrando o Silêncio também integra o calendário oficial do estado de São Paulo. A Lei Estadual nº 17.186, de 21 de outubro de 2019, instituiu o Dia da Campanha Quebrando o Silêncio, celebrado anualmente no quarto sábado de agosto.
Em 2026, a iniciativa também ganhou reconhecimento na cidade de São Paulo. A Lei Municipal nº 18.458/2026 incluiu no Calendário de Eventos da cidade a Semana “Quebrando o Silêncio em prol da mulher, da criança e do idoso vítimas de violência”, realizada na terceira semana de agosto.
O projeto
Promovido pela Igreja Adventista do Sétimo Dia desde 2002, o Quebrando o Silêncio é um programa educativo de prevenção e combate ao abuso e à violência doméstica realizado no Brasil e em outros sete países da América do Sul: Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Paraguai, Peru e Uruguai. Embora as iniciativas sejam desenvolvidas ao longo de todo o ano, a campanha tem como marco o quarto sábado de agosto, com palestras, fóruns, ações educativas e distribuição de materiais informativos.
O projeto busca conscientizar a população, orientar famílias sobre direitos e caminhos de proteção e incentivar vítimas ou pessoas próximas a romperem o silêncio e procurarem os órgãos competentes.
Como denunciar
Casos de violência, negligência, abandono e outras violações de direitos contra pessoas idosas podem ser denunciados pelo Disque 100. O serviço é gratuito, funciona 24 horas por dia e pode ser acionado pela própria vítima ou por qualquer pessoa que tenha conhecimento da situação.
Veja mais fotos da quinta edição da passeata do projeto Quebrando o Silêncio na Avenida Paulista:
