Sem parentes no local, mulher escolhe ser família de idosos que vivem em um lar no sul da Bahia
Há cinco anos, Telma Lúcia visita moradores do Lar São Francisco; história reforça a importância da presença, do cuidado e da atenção à pessoa idosa
Aos sábados, Telma Lúcia Silva dos Santos, de 53 anos, tem um compromisso marcado no Lar São Francisco, em Itabuna-BA. Não há parentes esperando por ela. Também não havia amigos quando começou a visitar a instituição, há cerca de cinco anos. Os vínculos surgiram depois, entre conversas, abraços e histórias compartilhadas.

A iniciativa nasceu de uma vontade espontânea. Telma chegou a interromper as visitas, mas, quando a mãe adoeceu e ficou acamada, a sensibilidade diante das necessidades dos idosos se tornou ainda mais forte.
“Simplesmente surgiu no meu coração a vontade de vir. Depois, minha mãe adoeceu, ficou acamada, e isso foi ficando mais forte”, conta.
Com o tempo, os moradores passaram a reconhecê-la. Alguns aguardam sua chegada e já a consideram uma pessoa da família.
“Eles têm necessidade de visita. Como venho com frequência, alguns já se identificam comigo e me têm como uma pessoa da família. Muitos não recebem visitas de familiares, e a gente acaba preenchendo um pouco desse vazio”, relata.
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Vínculos construídos pela presença
Para Telma, a maior necessidade nem sempre pode ser atendida com doações materiais. Em muitos casos, o que os idosos esperam é alguém disposto a conversar e ouvir.
“Muitas pessoas pensam que precisam levar alguma coisa material, mas não. Só o fato de visitar, trazer uma palavra e conversar já é bastante gratificante. A gente vai se apegando de verdade”, afirma.

Esse apego também faz com que as despedidas sejam sentidas de perto. Ao longo dos anos, Telma acompanhou a morte de idosos com quem havia construído amizades.
Uma dessas perdas aconteceu há cerca de três meses, quando dona Helena, moradora com quem mantinha uma relação de carinho, morreu. A notícia a deixou tão abalada que, por algum tempo, ela teve dificuldade de voltar à instituição.
“Eu fiquei até um pouco me segurando para vir aqui, porque doeu muito. Ela sempre ficava na turminha que se reunia aqui. Isso mexe com a gente”, recorda.
Apesar das perdas, as visitas continuam. E, embora chegue disposta a oferecer atenção, Telma afirma que também recebe carinho dos moradores.
“Eu chego em casa muito preenchida. Venho pensando que vou dar um pouquinho de carinho, mas, quando chego aqui, também recebo. Hoje mesmo, Maria disse: ‘Você está linda, está mais fortinha’. São palavrinhas simples que enchem o coração da gente”, diz.
Campanha amplia a mobilização
A história de Telma ajuda a compreender uma das reflexões propostas pelo Quebrando o Silêncio 2026, que neste ano voltou suas ações para a prevenção da violência contra a pessoa idosa.

No sábado, 22 de agosto, a campanha mobilizou comunidades em Itabuna e em outras cidades do Sul da Bahia. As atividades incluíram caminhadas, distribuição de materiais informativos e visitas a Instituições de Longa Permanência para Idosos, as ILPIs.
No Lar São Francisco, onde Telma visita regularmente, cerca de 60 voluntários participaram de uma ação com entrega de fraldas, produtos de higiene pessoal e lanche. O encontro também reuniu música, conversas e momentos de convivência com os moradores.

Para Raquel Santana, diretora do Ministério da Mulher da Igreja Adventista na região, o envolvimento da igreja torna o projeto relevante para a comunidade ao aproximar os voluntários de realidades que, muitas vezes, permanecem invisíveis. Segundo ela, a mobilização também amplia a conscientização sobre a responsabilidade coletiva de proteger os idosos, fortalecer vínculos e combater situações de abandono, negligência e violência.

O Dia D do Quebrando o Silêncio foi realizado simultaneamente no Brasil e em outros países da América do Sul. Embora a principal mobilização tenha acontecido em 22 de agosto, atividades de conscientização e visitas a instituições foram promovidas ao longo do mês.
Histórias diferentes, a mesma necessidade de acolhimento
O Lar São Francisco é uma instituição filantrópica privada, mantida com o apoio de colaboradores e doações. Uma equipe multidisciplinar acompanha os moradores e oferece assistência às necessidades diárias.
Segundo a coordenadora da instituição, Lucimara Vitória, as visitas contribuem para que os idosos se sintam acolhidos e valorizados. A presença de voluntários também favorece a convivência e proporciona momentos de bem-estar.
De acordo com Lucimara, parte dos moradores enfrenta o abandono familiar e recebe poucas visitas. A instituição, no entanto, reúne pessoas com trajetórias diferentes, entre elas um ex-prefeito e uma ex-primeira-dama, que vivem no local e não estão em situação de abandono.
Para Telma, que se tornou uma espécie de neta por escolha, a maneira como a sociedade se relaciona com os idosos diz muito sobre o valor dado à própria vida.
“Envelhecer é uma graça, porque tantos vão antes. Mas é mais gratificante quando a pessoa envelhece com a família e os amigos ao lado. É muito triste ser esquecida”, afirma.
No Lar São Francisco, ela encontrou uma forma de combater esse esquecimento: chegar, sentar, ouvir e voltar. Porque há vínculos que não começam na família, mas se tornam parte dela quando alguém decide permanecer.