Presença pública e a missão de proclamar: o adventista diante das manifestações públicas
Entenda como atuação individual, presença digital e formas de expressão podem repercutir sobre o testemunho cristão e a percepção sobre a Igreja

Nas últimas semanas, uma cena me chamou a atenção. Muito tem se falado sobre avatares criados por inteligência artificial que estão tomando as redes sociais com discursos políticos. Rostos e vozes sintéticas, posicionamentos fabricados que estão espalhando opiniões, distorcendo percepções. O que antes era restrito ao mundo físico, o ato de ir às ruas, levantar uma faixa, gritar uma palavra de ordem, hoje tem um equivalente digital igualmente poderoso. E igualmente capaz de dividir.
Isso me fez pensar não apenas sobre tecnologia, mas sobre algo mais antigo e mais urgente: o lugar do cristão adventista no espaço público.
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O Brasil vive um momento de polarização intensa. As eleições de 2026 estão chegando. A América Latina inteira respira um ar de fragmentação política, com narrativas extremas ganhando força e cada vez menos espaço para o diálogo. Nesse ambiente, a pressão sobre os cristãos para que "tomem partido" é enorme. E o adventista não está imune a essa pressão.
Nem nas ruas, nem nas telas.
A questão não é simples, mas a Igreja Adventista tem uma posição construída com cuidado ao longo de décadas. E essa posição não é, como muitos imaginam, apenas uma restrição política. Ela é, antes de tudo, uma afirmação teológica sobre quem somos, para o que somos chamados e o que nossa presença pública, tanto no ambiente físico como no digital, comunica ao mundo.
O que a Bíblia nos ensina sobre presença pública
Começo com uma distinção que me parece fundamental. Ser adventista não significa ser apolítico no sentido de indiferente. A indiferença não é uma virtude cristã. O cristão é chamado a estar presente no mundo, a se importar com o que acontece ao seu redor, a ser sal e luz. E essas metáforas pressupõem contato, não isolamento.
Mateus 22:21 é claro: "Então, ele lhes disse: Deem a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" (NVI). Jesus não recusou a realidade política do seu tempo. Ele a reconheceu. E ao reconhecê-la, estabeleceu algo importante: há uma esfera que pertence ao Estado, e há uma esfera que pertence a Deus. As duas estão separadas, mas devem coexistir em harmonia, e o cristão vive nas duas.
Isso significa que o adventista tem deveres cívicos. Votar é um deles. Participar da vida comunitária, defender a dignidade humana, contribuir para o bem comum. Tudo isso faz parte de uma cidadania responsável, que a escritora Ellen White incentivou com veemência. Ela registrou: "Em nossa terra favorecida, todo votante tem alguma voz no determinar que leis hão de reger a nação. Não devem essa influência e esse voto ser lançados ao lado da temperança e da virtude?" (White, Temperança, versão online).
Mas há outro lado dessa equação. Romanos 13:1-7 nos instrui a respeitar as autoridades constituídas, não como ato de subserviência, mas como expressão de maturidade espiritual. E um texto de Jeremias me impressiona sempre que volto a ele. Jeremias 29:7 (NVI) foi escrito para o povo exilado na Babilônia: "Busquem a prosperidade da cidade para a qual eu os deportei e orem ao Senhor em favor dela, porque a prosperidade de vocês depende da prosperidade dela." Jeremias não convocou os exilados a derrubar Nabucodonosor.
Convocou-os a construir, a plantar, a buscar o bem da cidade onde viviam.
Essa é uma postura ativa, não passiva. Mas é uma ação que transforma sem confrontar.
Jesus explicou isso de maneira clara. Os zelotes queriam que Ele liderasse uma revolução política contra Roma. Ele recusou. Não por medo, mas por ter clara a missão que deveria cumprir. "O meu reino não é deste mundo", disse Ele em João 18:36. Não porque o mundo não importasse. Mas porque a transformação que Ele veio trazer é de outra natureza, mais profunda do que qualquer mudança de governo.
Paulo viveu essa mesma tensão dentro do Império Romano. Não se omitiu. Usou seus direitos de cidadão romano quando necessário. Em Atos 22:25-29 é possível ver que ele invocou sua cidadania para escapar de uma punição injusta. Mas nunca perdeu de vista o centro: a proclamação do evangelho. Em 1 Timóteo 2:1-4, ele instrui os cristãos a orar pelos reis e por todos os que estão em autoridade. Não para endossá-los. Mas para que haja paz e a mensagem do evangelho possa ser pregada.
A Igreja é uma comunidade com uma clara missão escatológica. Isso não é jargão teológico. Significa que a Igreja vive orientada por algo que vai além do presente. Ela não é um movimento social, embora faça bem para a sociedade. Ela não é um partido político, embora seus membros sejam cidadãos. A sua razão de ser é proclamar. E essa missão define como ela age no espaço público.
Representatividade, identidade e o que está em jogo
Aqui chegamos ao ponto que eu acho mais importante, e ao mesmo tempo mais mal compreendido.
A postura da Igreja Adventista sobre manifestações públicas não é uma proibição genérica de participar da vida em sociedade. Ela nasce de uma pergunta muito específica: quem você representa quando está em público?
Um membro adventista tem direitos civis plenos. Pode votar, debater, se envolver com causas que considera justas. Isso é legítimo e é respeitado pela denominação. Os documentos oficiais da Igreja são explícitos: a Igreja Adventista respeita o direito de expressão e as reivindicações pacíficas e legítimas. Não julga o cidadão que exerce sua consciência.
Mas um pastor, um líder ou um membro da igreja não são apenas cidadãos. Um líder que usa o nome da instituição carrega consigo algo que vai além de sua opinião individual. Onde ele aparece, a Igreja aparece. O que ele diz, a Igreja diz — pelo menos é assim que é percebido.
Esse peso existe, mesmo que ele não o queira.
Ellen White foi precisa sobre isso: "Os que ensinam a Bíblia em nossas igrejas e escolas, não se acham na liberdade de se unir aos que manifestam seus preconceitos a favor ou contra homens e medidas políticos, pois assim fazendo, incitam o espírito dos outros, levando cada um a defender suas ideias favoritas" (Conselhos para a Igreja, p. 324). A preocupação não é silenciar pessoas. É preservar a unidade da missão e a credibilidade do testemunho diante de membros com convicções políticas diversas.
E aqui entra algo que eu considero o coração desta reflexão. A questão das manifestações públicas não é exclusivamente política. Ela é mais ampla do que isso. Não é apenas numa marcha partidária que o pastor, líder ou membro representa a Igreja. É em qualquer espaço público onde ele posiciona sua preferência partidária, seja no ambiente físico ou digital.
O conselho, portanto, vai além de um simples "não participe de manifestações políticas". O que se busca é que pastores, líderes e membros ajam com consciência de que representam uma instituição de alcance global, com membros de todas as convicções políticas, e com uma missão que precisa ser protegida da fragmentação.
Nas redes sociais, isso é ainda mais urgente. O avatar de inteligência artificial fazendo discurso político não é tão diferente, em termos de impacto, do pastor que compartilha uma publicação partidária com milhares de seguidores. A manifestação digital tem o mesmo peso — às vezes maior — do que a manifestação física. O ambiente mudou. O princípio permanece: a liberdade individual não anula a responsabilidade institucional.
Há também outra dimensão que me parece relevante. Manifestações públicas, mesmo quando começam pacíficas, têm histórico de terminar em confronto. Mas essa não é a razão principal pela qual a Igreja orienta com cautela. A razão principal é teológica: nossa postura não é de protesto nem de combate às autoridades constituídas. É de orar por elas. É de buscar o bem da sociedade. A Igreja não se posiciona como juíza da qualidade de um governo, mas age de forma diferente.
Ellen White deixou esse princípio registrado com uma clareza que ainda ecoa: "Todo mestre, pastor ou dirigente em nossas fileiras, que é agitado pelo desejo de ventilar suas opiniões sobre questões políticas, deve-se converter pela crença na verdade, ou renunciar à sua obra. Sua influência deve ser a de um coobreiro de Deus no conquistar almas para Cristo, ou devem ser-lhe cassadas as credenciais" (Obreiros Evangélicos, p. 393).
E ela acrescenta na mesma página: "Os que ocupam o lugar de educadores, de pastores, de colaboradores de Deus em qualquer sentido, não têm batalhas a travar no mundo político. Sua cidadania se acha nos Céus. Deus pede-lhes que permaneçam como um povo separado e peculiar. Ele não quer que haja cismas no corpo de crentes. Seu povo tem de possuir os elementos de reconciliação."
A pergunta importante
Alguém pode perguntar: então a Igreja fica calada diante das injustiças?
A resposta é não. Mas a resposta adventista diante da injustiça não é o protesto. É a ação transformadora.
A Igreja Adventista tem o projeto Quebrando o Silêncio, que vai às ruas contra a violência doméstica. Tem a Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (ADRA), presente em crises humanitárias no mundo inteiro, sem perguntar a filiação política de quem precisa de ajuda. Tem a Ação Solidária Adventista (ASA), que mobiliza voluntários em comunidades vulneráveis. Tem escolas, faculdades, hospitais. Tem uma presença social concreta, corajosa e relevante.
Essa é a forma adventista de manifestação pública. Não contra, mas a favor. Não de protesto, mas de serviço. Não de confronto com as autoridades, mas de construção do bem comum ao lado das pessoas.
Jeremias 29:7 volta aqui com força. A paz da cidade não é conquistada pelas ruas ou redes sociais. É construída tijolo por tijolo, escola por escola, vida por vida, pela presença de homens e mulheres que servem sem pedir reconhecimento partidário.
Há algo mais que eu penso ser essencial dizer. A Igreja Adventista acredita que o tempo é curto. Não de forma fatalista, mas de forma missionária. Cada dia é uma oportunidade de proclamar a verdade da Bíblia. Cada conversa pode ser um ponto de contato com o evangelho. E cada energia gasta em contenda política é uma energia tirada da proclamação. Isso não é fuga da realidade. É escolha de prioridade. É a decisão de quem sabe, com clareza, para o que foi chamado.
Encerro com uma convicção que carrego. O adventista que vai às ruas ou para a internet carregando bandeiras partidárias precisa entender que naquele momento ele não está indo apenas como cidadão. Está levando consigo a percepção de que milhares de pessoas podem ter sobre o que a Igreja pensa, o que a Igreja apoia, o que a Igreja é. E essa percepção tem um peso que não pode ser ignorado. É necessário compreender isto.
A polarização vai continuar. As manifestações vão continuar — nas ruas e nas telas, feitas por humanos e agora também por inteligências artificiais. O ambiente vai ficar mais difícil, não mais fácil.
Mas nossa missão não muda com o ambiente. Nossa missão é proclamar. Nosso lugar público mais poderoso é o serviço. E nossa voz mais convincente no meio da polarização é o testemunho de uma Igreja que, quando o mundo se divide, mantém os braços abertos para todos — porque sabe que o chamado é maior do que qualquer bandeira.
"Buscai a paz da cidade." Essa continua sendo a nossa convocação.
Jorge Rampogna é o diretor dos departamentos de Comunicação, Assuntos Públicos e Liberdade Religiosa da sede sul-americana da Igreja Adventista do Sétimo Dia.
Este artigo foi elaborado em harmonia com os documentos oficiais da Igreja Adventista, especialmente "Os Adventistas e a Política" e com a declaração "A Relação entre a Igreja e o Estado" (Associação Geral, 2002).