O milagre que acontece no coração
Os milagres mais extraordinários nem sempre são os sobrenaturais. Eu vivi isso durante uma missão na Colômbia

Após uma semana da minha missão na Colômbia, em um sábado, recebi a mensagem de uma amiga que conheci lá, dizendo: “Sentimos sua falta hoje”. Eu também senti. E muito.
Nas últimas semanas de julho, vivi dez dias em Necoclí, um município costeiro do departamento de Antioquia, na Colômbia. Parecia uma realidade paralela. Talvez pelo fuso horário, talvez por minha rotina diferente ou até pela simplicidade da vida dos moradores do interior, os dias pareciam passar mais devagar.
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Cada jornada era marcada por pequenas surpresas. Pela manhã, nosso grupo de nove voluntários visitava casas da cidade oferecendo atendimento de saúde física, emocional e espiritual. Conversávamos com as famílias para entender a realidade delas e ajudá-las da melhor forma; também cantávamos juntos, orávamos por pedidos mencionados e, ao final, fazíamos um convite para a programação especial realizada na Igreja Adventista de Mar de Cristal.

Uma tenda foi montada no pátio do templo local para ampliar o espaço destinado ao público. Todas as noites daquela semana, mais de 300 pessoas participavam das reuniões, e quase metade delas eram visitantes. Elas ouviam os voluntários brasileiros cantarem uma música em português, acompanhavam as pregações do pastor Gilson Montin, na série de estudos com o tema "Os Milagres de Jesus", e cantavam a mesma música na versão em espanhol.
Mensagem infantil
Enquanto os adultos assistiam às reflexões, as crianças participavam de uma programação especial. Ali, nós as ensinamos a cantar em português a música “Três Palavrinhas”, que resume uma das maiores verdades da Bíblia: Deus é amor. Espero que elas nunca se esqueçam disso. Uma das cenas mais emocionantes da viagem foi vê-las apresentando a canção aos adultos depois de uma semana inteira de ensaios.

As mensagens de cada noite aqueciam o coração dos presentes, que, aliás, já enfrentavam o calor típico do clima tropical da região. Mesmo a programação acontecendo depois do pôr do sol e ao ar livre, eram sempre necessários ventiladores e muita água.
Ao fim da primeira noite, um dos voluntários sugeriu que fizéssemos um corredor para cumprimentar as pessoas na saída. A ideia foi tão boa que repetimos a iniciativa todos os dias da semana. Entre abraços, sorrisos e um simples "Dios lo bendiga", criamos laços que ultrapassavam a barreira do idioma.
Algumas crianças chegavam sorrindo e diziam "obrigado", em português, com o sotaque mais fofo que eu já ouvi. Eram pequenos gestos, mas que demonstravam o carinho delas e a vontade de assegurar que nossa presença era importante.
Além da imersão cultural
A missão foi organizada pelo casal pastoral Gilson e Rosely Montin, que há dez anos realiza esse projeto com os jovens que lidera. Embora a proposta seja voltada à juventude, qualquer pessoa pode participar.
Nesta edição, o grupo reuniu um jovem do Rio de Janeiro, uma mãe e um filho de São Paulo e quatro participantes da região de Araras (RJ), além do casal pastoral. Carinhosamente, poderíamos chamar nosso grupo de "Paulo e Timóteo", por reunir jovens e idosos. A troca de experiências aconteceu na medida certa.
Quem mais me chamou a atenção foi Paulo César de Carvalho, o integrante mais experiente da equipe, com 68 anos. Aquela era sua primeira viagem de avião e também sua primeira viagem internacional. "Foi uma experiência que nunca vou esquecer", me contou depois pelo WhatsApp.

Todos nós crescemos como grupo e individualmente. Tenho a impressão de que poucas experiências ensinam tanto quanto uma viagem missionária. A imersão cultural faz toda a diferença: comer o que eles comem, compreender como vivem e até tomar banho de lama em um vulcão inativo, depois de aceitarmos o convite inesperado de um morador da região.
Toda essa experiência me fez enxergar a grandeza e diversidade do povo adventista. Somos muitos. Cada um com suas características, histórias e personalidades. Porém, compartilhamos a mesma esperança: aguardamos o breve retorno de Jesus. Somos, de fato, uma grande família.
Confesso que, quando a missão chegou ao fim, senti saudades do Céu. Reacendeu em mim o desejo de viver a eternidade ao lado de meus novos irmãos de fé, juntos dAquele que nos uniu. Mais do que nunca, senti uma vontade intensa de experimentar um mundo em perfeita harmonia e sem a dor das despedidas.
O maior milagre
Ellen White escreveu no livro Evangelismo que "a conversão de almas a Deus é a obra mais grandiosa, a obra mais elevada em que os seres humanos podem empenhar-se. Na conversão das almas se revelam a tolerância de Deus, Seu amor incomensurável, Sua santidade e Seu poder. Toda verdadeira conversão O glorifica."
Eu vi isso acontecer diante dos meus olhos. Três pessoas aceitaram entregar suas vidas a Jesus ao final da semana e foram batizadas. Sei que aquela decisão foi resultado de sementes que plantaram muito antes de nós chegarmos. Ainda assim, esse também é o nosso papel: plantar. Os frutos pertencem a Deus e, muitas vezes, serão colhidos por outras pessoas, mas minha alegria é saber que pude fazer parte dessa história.


No último encontro, também entregamos nossos jalecos aos jovens colombianos. Durante a semana, eles acompanharam o impacto do projeto na comunidade e se comprometeram a organizar uma equipe para dar continuidade a essa missão.
Os milagres mais extraordinários nem sempre são os que interrompem as leis da natureza. Às vezes, eles apenas mudam o rumo de uma vida. Por isso, quero continuar fazendo parte do maior milagre que pode acontecer a alguém: ter a vida transformada por Jesus.
Isabella Anunciação é jornalista formada pelo Centro Universitário Adventista de São Paulo (UNASP). Nascida em Belo Horizonte (MG), atualmente vive em Petrópolis e atua como assessora de comunicação para a Igreja Adventista nos estados de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Como membro, serve na liderança jovem em sete igrejas na região de Araras (RJ).