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Igreja mantém Educação de Jovens e Adultos para alfabetizar idosos

Convênio foi firmado com a Secretaria Municipal de Educação (Smed) de Belo Horizonte, para que aulas ocorram nas dependências da Igreja Adventista do Céu Azul, que funciona como anexo da escola do bairro.

Por Renata Paes 30 de agosto de 2019

O sonho de Juvenil é conseguir ler a Bíblia. (Foto: Renata Paes)

Aos 91 anos, é a primeira vez que seu Juvenil Ferreira da Silva vai à sala de aula. Foram décadas de trabalho na roça, que lhe privaram a oportunidade de aprender a assinar o próprio nome. O cansaço que chegou devido a idade, a ausência da esposa que faleceu e a distância dos oito filhos, não o impediram de voltar a estudar. Só lhe faltava uma oportunidade e ela veio.

Atualmente, ele faz parte da turma para Educação de Jovens e Adultos (EJA). O detalhe é que as aulas ocorrem dentro  de uma das salas da Igreja Adventista do Céu Azul, em Belo Horizonte, Minas Gerais. A igreja se tornou um anexo da Escola Municipal Joaquim dos Santos, ao ofertar turmas da EJA, no turno da tarde.

De segunda a quinta, das 13h30 às 16h30, Juvenil é um dos primeiros a chegar na aula e se senta bem na frente, para que a baixa audição não o impeça de compreender cada explicação da professora.

“Eu me sinto bem aqui. É muito melhor do que estar em casa. Se conseguir aprender, vou gostar muito. Vontade eu tenho. A professora diz que estou adiantado”, conta ele.

Juvenil mora sozinha e para vir à aula, pega carona com a professora. Para ele, estar em sala de aula também é ter boas companhias (Foto: Renata Paes)

Desafiando o tempo

“Na minha época de criança, eu não podia ir à escola. Tinha que fazer comida e criar as filhas da família que eu morava”, lembra Geralda Ferreira Magalhães, de 66 anos. Ela até tentou estudar, mas precisou abandonar as aulas para se dedicar exclusivamente ao trabalho.

Geralda sofre de artrite e dores no joelho. Nem as dores no corpo a impedem de aprender algo novo todo dia, em sala de aula. (Foto: Renata Paes)

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) de 2017, 11,5 milhões de brasileiros são analfabetos. Esse número tem reduzido conforme os anos, porém a passos lentos.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) pontua que a maior parcela de analfabetismo ocorre entre idosos, pois na juventude, não tiveram acesso à escola. Pessoas com mais de 60 anos, representam  19,3% dos analfabetos do país.

Aprendizado recíproco

A docente da turma, Gilvânia de Castro Oliveira, não esconde a felicidade e emoção que é ensiná-los. Segundo ela, o aprendizado é recíproco. “O sonho do seu Juvenil é ler a Bíblia e vê-lo aprendendo dá uma sensação de satisfação.  Os idosos têm muito a nos ensinarem. O mais admirável desse grupo é que, mesmo cansados, com dores, eles vêm. É muita força de vontade”, ressalta a professora, que inicia a aula com a leitura de um verso bíblico e oração. Antes de despedi-los, ora novamente com a turma.

Cada aluno tem a oportunidade de ler o verso que mais gosta e também de fazer a oração. (Foto: Renata Paes)

Gilvânia percebe que os alunos gostam de leitura e por isso encontram menos dificuldades no processo de alfabetização. “Eu sei que aqui, alguns deles costumam ler o material da escola de sábado (Lição da Escola Sabatina). Isso ajuda muito a aprendem mais rápido”, ressalta.

Igreja como extensão da escola

A Igreja da Céu Azul possui o Ministério da Melhor Idade, voltado a desenvolver projetos que valorizam e incentivam os idosos a se manterem ativos. Foi por meio desse ministério, coordenador por Eduardo Nicodemos, que a parceria para a oferta de turma da EJA, pela Secretaria Municipal de Educação (Smed) de Belo Horizonte, se tornou realidade.

Turma da EJA, que funciona nas dependências da Igreja Adventista do Céu Azul. (Foto: Renata Paes)

Eduardo percebeu que na igreja havia inúmeros idosos que sentiam o desejo de ler a bíblia, escrever o nome e estudar. Porém, não tinham essa oportunidade. A escola do bairro oferece a EJA, só que à noite.  Muitos deles encontravam dificuldades em sair de casa nesse turno. A partir da demanda de pessoas, firmou-se a parceria. A igreja cedeu uma das salas e a Smed encaminhou a professora Gilvânia.

O projeto é aberto para toda a população. Em frente à igreja tem um banner para informar a comunidade sobre a turma. Os interessados podem  levar os documentos pessoais e realizar a inscrição na secretaria da Escola Joaquim dos Santos, localizada na rua Antônio José dos Santos, n° 300, bairro Céu Azul.

Banner colocado na grade de entrada da Igreja do Céu Azul informa o local para realizar a matrícula. (Foto: Renata Paes)

Portas abertas à comunidade

Mariana dos Santos de Jesus, de 60 anos, passava em frente à igreja, que fica na rua México, n° 1333, e viu Eduardo Nicodemos saindo do local. Ele a chamou e perguntou se não tinha interesse em estudar. Mariana ficou empolgada com a possibilidade.

“Ele quem me convidou para fazer as aulas. Me disse também que nunca era tarde e que eu ia gostar. Contei para a minha filha, que me apoiou desde o início e falou que seria muito bom para mim. Tenho uma ótima professora e estou aprendendo a assinar meu nome”, ressalta ela.

Mariana dá os primeiros passos na escrita do próprio nome. (Foto: Renata Paes)

Sonhos não envelhecem

A turma é composta tanto de alunos que querem ser alfabetizados, quanto aqueles que estão em busca da certificação de Ensino Fundamental e Ensino Médio, para posteriormente, entrarem numa universidade. É o caso de Neusa Batista Cordeiro, de 54 anos. Por meio da educação, ela passou a sonhar em entrar na universidade.

Neusa (à esquerda) se prepara para conquistar a certificação que possibilitará prestar o vestibular. (Foto: Renata Paes)

Neusa está em dúvida se fará o vestibular para o curso de Enfermagem, Assistência Social, Direito, Letras Língua Inglesa, Francesa ou Espanhola. Por meio da educação, sente que novas possibilidades a aguardam.

“Desde que me mudei para o bairro Céu Azul, há 37 anos, parei de estudar. Antes eu não tinha vontade de ir à escola porque as aulas eram pela noite. Então, abriu essa oportunidade e percebi que aqui as pessoas querem estudar mesmo. Passei a sonhar em fazer uma faculdade”, destaca.

Turma pode acabar

A turma  começou em outubro do ano passado. Inicialmente, havia 23 alunos matriculados. Com o tempo, alguns idosos enfrentaram problemas de saúde, familiares, de trabalho e não puderam continuar frequentes nas aulas e, consequentemente, o número de estudantes reduziu. Segundo Eduardo, que mediou a parceria com a Smed, com menos de 10 alunos em sala, as aulas podem ser encerradas.

Se a turma fechar, alguns idosos não conseguirão realizar o sonho de aprender a ler e escrever. (Foto: Renta Paes)

“Infelizmente, eles pedem com que tenha um número significativo de alunos frequentes. Estamos preocupados com isso, pois é um projeto tão importante para uma parte da população, que muitas vezes é esquecida, que são os idosos”, diz Eduardo.

Matrículas abertas 

Quem estiver interessado em voltar a estudar e desejar fazer parte dessa turma, basta procurar a secretaria da Escola Municipal Joaquim dos Santos, com os documentos pessoais em mãos, realizar a inscrição e começar a frequentar as aulas. Os livros são concedidos pelo município. As aulas ministradas se baseiam em disciplinas da Língua Portuguesa, Matemática, Geografia, História, Ciências, Artes e Inglês.

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