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“Fazer o bem me fez ver o lado humano das pessoas”, afirma voluntário que atua durante pandemia

Semanalmente o grupo percorre toda cidade de Canoas em busca de moradores de rua e pessoas em situação de pobreza extrema

Por Douglas Pessoa 30 de junho de 2020

Líderes passam orientações sobre entrega de donativos para voluntários. Os trabalhos acontecem rotineiramente aos domingos

O comércio fechado e a ausência do agitado trânsito no fim de tarde de domingo mostram um aparente cenário de vazio no centro de Canoas, na Região Metropolitana de Porto Alegre. O silêncio do centro urbano em quarentena é quebrado com a chegada de quatro carros com bagageiros lotados de comidas, roupas, sapatos e voluntários cheios de vontade de ajudar o próximo. O desligar dos motores faz surgir um grande número de pessoas que, numa primeira impressão, parecia que não estavam ali. São moradores das marquises e calçadas que não possuem um teto para se abrigar e se proteger do frio, da fome e da falta de amor.

Tchê, quem aí gostaria de um lanchinho ou cobertor?”, pergunta uma das voluntárias que divide os assistidos em filas e os ajuda a manter o distanciamento social. Usando camisetas e máscaras azuis, que são verdadeiros uniformes do projeto, eles oferecem de tudo, desde máscaras de tecido a sapatos e roupas. Quando os beneficiados são questionados, afirmam que apenas a atenção e o carinho oferecidos já são um presente. “Cara, é muito bom saber que tem esse grupo da igreja que ama a gente e está aqui todo o domingo nos ajudando, principalmente agora nesse frio do inverno”, afirma Roni de Sousa e Sousa, que dorme diariamente no calçadão de Canoas.

Rodrigo José Frantz conta como a experiência de ajudar moradores de rua têm mudado sua vida

Os voluntários fazem o trabalho rapidamente. Em menos de 20 minutos entregam os donativos, se despendem e partem tudo a outros locais da cidade. “Além do centro, nós entregamos no bairro Mathias Velho, no estacionamento do Hospital de Pronto-Socorro e próximo a BR 116. A gente busca fazer um trabalho completo com eles”, afirma Rafael Fischer, um dos assíduos voluntários. Formado por jovens da Igreja Adventista do Sétimo Dia de Niterói, um dos maiores bairros canoenses, o grupo já fazia esse trabalho há anos. No entanto, a pandemia do novo coronavírus ajudou a efetivar a atividade. “O projeto era mais voltado ao período do inverno. Logo no início da pandemia a gente entendeu que deveria fazer esse trabalho de maneira fixa”, explica Rafael Fogassi, um dos líderes do projeto.

O grupo que sai as ruas é reduzido para evitar aglomeração durante o manejo dos donativos. Mas a quantidade de pessoas que patrocinam o projeto, que ajudam na montagem de kits e que ajudam na divulgação amplia o número final de voluntários. O trabalho começa por volta de 18h na sede da igreja. No local, os alimentos e roupas são divididos e higienizados para tornar a entrega mais rápida. Além dos moradores de rua, pessoas que possuem residência fixa, mas que vivem abaixo da linha da pobreza também recebem ajuda.

O trabalho dos voluntários de Niterói também beneficia pessoas que foram parar nas ruas através de vício em álcool ou drogas. De acordo com Priscila Pereira, uma das organizadoras, esse é o principal motivo que leva essas pessoas a tal situação. “Com o tempo nós criamos um vínculo com eles. Alguns, inclusive, pedem ajuda para mudar de vida. Eles têm o conhecimento de que o vício é prejudicial e manifestam o desejo de mudar de vida”, conta.

“Minha esposa e eu sempre tínhamos vontade de participar de projetos desse tipo. Nossa missão aqui nessa terra é amar o próximo e estar presente ativamente nesse voluntariado fez toda a diferença na nossa vida”, afirma Fogassi. Tal testemunho também é compartilhado pelo advogado Rodrigo José Frantz. Ele, que atua na preparação dos lanches e arrecadação de roupas, começou a participar logo na primeira semana de implantação fixa do projeto. “Eu entendo que isso ajuda a matar a minha fome em fazer o bem. A partir do momento que você passa a ajudar o próximo, você mesmo está se ajudando. Hoje me vejo como uma alguém que passou a entender melhor o lado humano das pessoas. Entendi que não é possível uma vida espiritual ativa sem colocar em prática os ensinamentos de Cristo”, afirma confiantemente.

 

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