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Como os adventistas veem missão no contexto de diferentes culturas?

As diversas culturas e os contextos étnicos são um desafio para a missão transcultural desenvolvida pelos adventistas do sétimo dia.

Por Felipe Lemos 16 de outubro de 2019

Alunos do Centro Universitário Adventista de São Paulo. Missão transcultural faz parte da realidade adventista em nível mundial (Foto: Divulgação)

Um planeta com pessoas tão diversas e que carregam dentro de si visões tão distintas culturalmente. Este é o panorama sociológico básico da humanidade. Com o passar do tempo, a complexidade disso se tornou tão grande que as religiões também enfrentam sérios desafios na sua busca por relevância. Neste contexto, estão os adventistas do sétimo dia. A igreja afirma que sua missão é a de pregar o evangelho a todas as pessoas, independentemente de etnia, cultura ou quaisquer outras diferenciações.

Por isso, a Agência Adventista Sul-Americana de Notícias (ASN) conversou sobre missiologia, cultura, contextualização, entre outros temas ligados ao assunto, com o teólogo e doutor em Missiologia Silvano Barbosa. Ele é atualmente professor de Teologia Aplicada no Centro Universitário Adventista de São Paulo, campus Engenheiro Coelho.

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O que é missiologia e por que é importante estudar o tema em um contexto desafiador para o trabalho dos cristãos em diferentes culturas e contextos para cumprir com a missão de pregar o evangelho?

Missiologia é a área da Teologia que estuda a missão de Deus e a participação do ser humano nesse processo. O estudo da missão está dividido em quatro subáreas principais:

Teologia da missão – Oferece uma base bíblica e teológica para a missão. Busca responder biblicamente perguntas como: por que alguém deveria deixar o Brasil para pregar o evangelho do outro lado do mundo? O que acontece com as pessoas que morrem sem nunca terem ouvido falar sobre Jesus? Adeptos do islamismo, hinduísmo, budismo e judaísmo precisam crer na Bíblia, aceitar a Jesus como salvador e se tornarem cristãos para serem salvos?

História da missão – Analisa movimentos missionários que cruzaram barreiras geográficas, culturais, políticas e religiosas para pregar o evangelho.

Ciências sociais e missão – Observa o ser humano em seu contexto e busca maneiras biblicamente acuradas e socialmente coerentes de transmitir a mensagem cristã.

Estratégias missionárias – Desenvolve estruturas, estratégias e metodologias adequadas a contextos específicos que facilitam a pregação do evangelho e estabelecem igrejas autossustentáveis, autogovernáveis e autopropagáveis.

Não é preciso ter um doutorado para fazer missão. Ao mesmo tempo, estudar estas áreas centrais habilita o missionário a funcionar eficazmente em ambientes transculturais e a produzir resultados duradouros no campo missionário.

Penso que é importante explicar conceitos como sincretismo e contextualização. Quais são as diferenças principais?

Difusão transcultural é uma característica central do cristianismo. É tão vital quanto o sangue e, sem isso, a fé cristã poderia não ter sobrevivido. Desde o primeiro século, a Igreja Cristã tem sido não apenas multirracial, mas também multicultural. Nenhuma nação, raça ou cultura jamais foi proprietária do cristianismo. Adicionalmente, nos últimos dois séculos o mundo tem experimentado um desenvolvimento tecnológico sem precedentes em áreas como comunicação, transportes e transações financeiras. Estes avanços têm contribuído para que o trabalho missionário seja feito por pessoas que vem e vão de todos os lugares para todos os lugares, com bagagens culturais e teológicas fortemente diversas. Considerando essa realidade, a contextualização da mensagem bíblica é imperativo.

Já a contextualização é o trabalho de transmitir a imutável Palavra de Deus em contextos que estão sempre mudando. Como isso deve ser feito?

Quando missionários chegam a um novo local, eles não encontram um vácuo religioso. Ao contrário, eles encontram culturas bem desenvolvidas que tornam a vida possível e crenças religiosas e filosóficas que oferecem respostas aos questionamentos mais profundos das pessoas que vivem ali.

Contextualização oferece respostas acerca de como os cristãos devem lidar com tudo isso. E ajuda os novos conversos a se relacionarem com o seu passado cultural, ou seja, alimentação, vestuário, músicas, remédios, danças, ritos, crenças e outras coisas que faziam parte do cotidiano deles antes de conhecerem o evangelho.

Mas como se dá este processo todo?

Esse processo é feito por meio de três fatores:

Exegese da cultura – Uma análise profunda do aspecto religioso ou cultural em questão para saber o seu real significado nesse contexto específico;

Exegese bíblica – Um estudo gramatical e histórico do tema na Bíblia para saber o que a revelação fala acerca do assunto;

Resposta crítica – As pessoas são levadas a avaliarem o próprio passado à luz da nova compreensão bíblica e a tomarem decisões acerca de que resposta darão às novas verdades descobertas.

Mas e o sincretismo religioso? Como a missiologia adventista o vê?

Sincretismo religioso é o que acontece quando o processo de transmissão da mensagem bíblica não é feito apropriadamente e a conversão não atinge o nível mais profundo da cosmovisão. Como resultado, o converso vive, ora de maneira compatível com a nova fé, ora de maneira compatível com as antigas crenças e costumes.

A cosmovisão, a maneira como as pessoas enxergam e interpretam a realidade, é como uma cebola com três cascas: (1) a parte externa, a mais visível e acessível é onde estão os conhecimentos; (2) na segunda casca, mais abaixo, estão os sentimentos; e (3) na terceira camada, na parte mais interna, estão as nossas crenças e valores.  Estas três dimensões— cognitiva, afetiva e avaliativa—estão integradas e regulam tudo o que as pessoas pensam, sentem e fazem. Em outras palavras, por baixo da superfície da fala e do comportamento, estão as crenças e valores que geram o que é dito, sentido e feito.

Consequentemente, quando a mensagem bíblica é transmitida e o foco está apenas em conhecimentos e sentimentos, falas e comportamentos, mas não em crenças e valores, normalmente as pessoas aceitam a nova fé e vivem de maneira coerente por um tempo. Mas em situações de crise, nos momentos decisivos, tendem a se conectar com as suas crenças e valores mais profundos e frequentemente voltam aos antigos costumes. Essa condição de fidelidade dupla é o que gera o sincretismo religioso, ou a mistura de cresças e práticas religiosas.

Ao mesmo tempo, há religiões que são essencialmente sincretistas, ou seja, são estruturadas para incorporar as práticas e crenças religiosas do contexto em que se encontram. Essas religiões tendem a ser mais populares porque não requerem uma mudança na cosmovisão.

De que forma os adventistas veem a relação entre Cristo e Seus ensinos e as culturas diversas e até refratárias à ideia de Cristo como a verdade absoluta?

Como adventistas do Sétimo Dia cremos que pregar a Cristo e a Sua mensagem de restauração e esperança é um componente central e indispensável do trabalho missionário. Isso porque “em nenhum outro há salvação, pois não há nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual possamos ser salvos” (Atos 4:12).

Deus jamais abandonou esse planeta e a Sua agenda sempre foi universal. Em todas as culturas é possível encontrar as impressões digitais de Deus, no sentido de que aspectos da verdade certamente foram preservados nestes locais.

Ao mesmo tempo, as culturas não são intrinsicamente boas. Também não são neutras. Todas as culturas estão corrompidas pelo pecado e precisam de restauração. Por isso, a mensagem do evangelho sempre oferecerá algo que a cultura local ainda não tem.

Cristo e o Seu nascimento neste planeta para “buscar e salvar o perdido”, Sua morte na cruz pelos nossos pecados e em nosso lugar, a Sua contínua intercessão no santuário celestial em nosso favor, e o Seu breve retorno a essa terra, devem estar no centro dos nossos esforços missionários. Sem isso, o missionário será um mensageiro sem mensagem. Oferecerá apenas soluções temporais para problemas com implicações eternas.

De que maneira um cristão adventista, de forma ideal, deveria realizar a abordagem com pessoas de diferentes culturas e, portanto, sistema de crenças, sem criar animosidade e, ao mesmo tempo, sem tornar sua própria mensagem diluída?

Nós só ganhamos para Jesus amigos. Não dá para compartilhar o evangelho de longe, sem nos aproximarmos das pessoas, e sem permitir que as pessoas se aproximem de nós. Creio que esse processo pode ser estruturado da seguinte maneira:

Construir confiança – O pressuposto para que alguém tenha a chance de compartilhar o evangelho é desenvolver relacionamentos e construir confiança. Uma atitude essencial nessa fase é suspender o julgamento. Precisamos nos aproximar das pessoas como aprendizes, não como juízes. Para isso, primeiro observe e depois faça perguntas acerca do que você viu.

Suprir necessidades – Com base naquilo que você já aprendeu, encontre uma forma de atender à necessidades físicas, mentais ou emocionais da pessoa com quem você está desenvolvendo um relacionamento de confiança.

Construa confiança na Palavra de Deus – Encontre na Bíblia histórias, ilustrações, pontos de contato relacionados com os temas ou situações de interesse da pessoa. Mostre que, de alguma maneira, a mensagem bíblica se relaciona com os temas de interesse dela.

Apresente a perspectiva bíblica – Apresente a solução de Deus para os problemas da humanidade e as bênçãos associadas à decisão de seguir a instrução divina.

Ofereça a opção de responder ao evangelho – Faça apelos progressivos para que a pessoa assimile as verdades bíblicas e as incorpore ao estilo de vida.

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