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Tolerância é uma demonstração de amor ao próximo, sublinha advogado

Mesmo em meio às diferenças, é preciso respeitar a opinião contrária

16 de novembro de 2017

Ser tolerante aproxima pessoas, mesmo que suas opiniões sejam diferentes (Foto: Shutterstock)

Com o objetivo de aumentar a tolerância mediante o fortalecimento da compreensão mútua entre as culturas e povos, os países membros da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) adotaram a Declaração de Princípios sobre a Tolerância, assinado em 16 de novembro de 1995. Desde então, nesta data é celebrado o Dia Internacional para a Tolerância.

A declaração afirma que a tolerância reconhece os direitos humanos universais e as liberdades fundamentais dos outros. Coloca a tolerância não apenas como um dever moral, mas como requerimento político e legal para os indivíduos, grupos e os Estados.

A Agência Adventista Sul-Americana de Notícias publica o artigo do doutor Juan Martin Vives, diretor do Centro de Estudos sobre Direito e Religião da Universidad Adventista del Plata, localizada na Argentina. Vives fala sobre o tema, que é apresentado a seguir:

Os cristãos e a sã tolerância

É paradoxal que a tolerância, uma virtude tão imprescindível em nossos tempos, não desfrute ultimamente de boa saúde. Embora o relativismo esteja no auge e nossa sociedade parece mais diversa do que nunca, percebe-se ao mesmo tempo uma forte sensação de tensão social. A violência, o fanatismo, o extremismo, a discriminação, tudo isso demonstra a intolerância que nos envolve.

Cientes desse fato, os países membros da Unesco adotaram, em 1995, uma Declaração de Princípios sobre a Tolerância, considerando-a “uma necessidade para a paz e para o progresso econômico e social de todos os povos”.[1] Essa declaração foi assinada no dia 16 de novembro e, desde então, a cada ano, nessa data, é celebrado o Dia Internacional para a Tolerância.

Permitam-me ser franco, embora tenhamos a tendência de pensar que os outros são o problema: todos podemos ser intolerantes. A intolerância não é patrimônio exclusivo de um grupo ou de uma ideologia. Há jovens e idosos intolerantes, indoutos e instruídos, conservadores e liberais. Há intolerantes contra a religião e há também entre os religiosos.

Porém, isso não deveria ser assim entre os cristãos. Fomos chamados para transmitir e viver uma mensagem de tolerância. Em sua Carta sobre a tolerância,[2] uma obra imprescindível sobre o tema, o filósofo inglês John Locke utiliza os ensinos do evangelho para fundamentar a necessidade da tolerância. Ele raciocina que se, mesmo tendo a possibilidade de fazê-lo, Jesus decidiu não impor a religião, então muito menos devem fazê-lo a Igreja e o Estado. Locke é conhecido como o pai do liberalismo clássico e suas ideias sobre a tolerância influenciaram notadamente nossa noção moderna de liberdade religiosa e de consciência.

Contudo, os cristãos nem sempre são destacados por seu espírito tolerante. Possivelmente isso se deva, em parte, a uma compreensão errônea do que é a sã tolerância. Tolerância não é o equivalente à indiferença. Nem tampouco é indulgência diante do erro. Pelo contrário, baseia-se no reconhecimento de que, a despeito de nossas diferenças, com nossos acertos e erros, todos temos valor e todos somos iguais em dignidade e direitos. A tolerância, bem compreendida, nunca  parte da superioridade.

Gostaria de destacar três ideias que subjazem ao conceito de tolerância assim concebido. A primeira é que nenhuma pessoa tem o monopólio da verdade. Naturalmente, todos acreditamos (e até mesmo, às vezes, sabemos) que temos razão. Mas uma coisa é acreditarmos de todo coração que estamos certos e outra, muito diferente, é pensar que como seres humanos temos toda a verdade, que o outro não tem razão em nada, ou que não há margem para que possamos estar equivocados em algo. O simples fato de admitir essa possibilidade deveria gerar em nós uma sensação de humildade e de tolerância para com os demais. Como Jesus deixou claro, todos temos ao menos um cisco, quando não uma viga, nos olhos.[3]

Mas mesmo que não fôssemos capazes de reconhecer nenhuma possibilidade de erro pessoal ou de acerto dos demais, ainda há espaço para a tolerância. Ou dizendo de forma melhor, é aí onde realmente o espírito tolerante é demonstrado. Como Evelyn Hall faz Voltaire dizer: “Eu discordo do que você dizmas defenderei até a morte o seu direito de dizêlo”.[4] A tolerância assim entendida não é apenas suportar condescendentemente o erro alheio. Antes, é o respeito às ideias e às crenças dos demais que são diferentes e até mesmo contrárias às nossas.

Por último, a tolerância é uma demonstração do amor ao próximo. O apóstolo Paulo nos chama a ter “tolerância pelas faltas uns dos outros por causa do amor”,[5] e ao falar da tolerância somos lembrados que o amor “é o vínculo da perfeição”.[6] Por esse motivo, não deveria ser difícil aos cristãos compreenderem o valor da tolerância. Temos um Deus que, a despeito do que somos e do que fazemos, não apenas nos “suporta”, mas nos ama. Um Deus que ama incondicionalmente. Não há melhor exemplo de sã tolerância do que esse.


Referências

[1] Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, “Declaração de Princípios sobre a Tolerância”, Paris, 1995. Disponível em: http://unesdoc.unesco.org/images/0013/001315/131524porb.pdf.

[2] Locke, John. Carta Sobre La Tolerancia. Barcelona: Grijalbo, 1975.

[3] Lucas 6:41-42.

[4] Tallentyre, S. G. The Friends of Voltaire. London: Smith, 1906.  176-205.

[5] Efésios 4:1-3, BV.

[6] Colossenses 3:11-14, RA.


Juan Martin Vives é advogado e professor universitário. Doutor em Direito Público Geral, tem ocupado diversos cargos de direção acadêmica na Universidade Adventista del Plata, onde previamente foi diretor do departamento de Assuntos Legais. Além de escrever diversos artigos e capítulos de livros, é um palestrante habitual de temas sobre Direito e religião, liberdade religiosa e a relação entre Igreja e Estado.

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