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“O extremista não aceita que o outro tenha religião”, diz John Graz

A ASN conversou com o doutor John Graz, que dedicou 44 anos de serviço à igreja. Na entrevista, ele fala sobre liberdade religiosa, lei dominical, extremismo religioso e mais

25 de abril de 2018

Por Carolyn Azo

Doutor Graz sobre o crescimento da intolerância religiosa: "pensamos que esse tipo de coisa havia desaparecido para sempre, mas está voltando, infelizmente".

Doutor Graz sobre o crescimento da intolerância religiosa: “pensamos que esse tipo de coisa havia desaparecido para sempre, mas está voltando, infelizmente”.

Com 44 anos de serviço para a Igreja Adventista do Sétimo Dia, o doutor John Graz (73) se tornou uma das figuras mais influentes dos últimos anos na defesa da liberdade religiosa no mundo. Ele trabalhou 20 anos como diretor do departamento de Liberdade Religiosa da Associação Geral da Igreja Adventista do Sétimo Dia. A responsabilidade abriu o caminho para que ele organizasse quatro congressos mundiais, 40 congressos regionais e simpósios nos cinco continentes, incluindo festivais e concertos, apoiando a causa, sem dúvida, as maiores reuniões em defesa da liberdade religiosa que foram realizados no mundo.

Graz se aposentou em 2015, durante um encontro mundial da Igreja Adventista realizado no Texas, Estados Unidos. No entanto, ele ainda continua sendo convidado para diversos encontros de liberdade religiosa no mundo. A Agência Adventista Sul-Americana de Notícias (ASN) conversou com ele em sua visita a Brasília por motivo de um encontro na cidade na semana passada. Durante vários dias, ele percorreu algumas regiões do Brasil acompanhado do líder sul-americano de Liberdade Religiosa, pastor Hélio Carnassale.

O que é liberdade religiosa para você?

Para mim, a liberdade religiosa é o direito e a liberdade de escolher se alguém quer ou não ter uma religião, a liberdade de escolher sua fé, sua religião, suas convicções, de acordo com os ditames de sua consciência.

De que você mais se lembra sobre seu ministério como líder mundial de liberdade religiosa?

O que mais me lembro, provavelmente, é a grande reunião que tivemos especialmente no Brasil, no Peru, na América Central e em todo o mundo, o festival de liberdade religiosa, o Congresso Mundial. Eu organizei quatro congressos mundiais. Preparamos o festival de liberdade religiosa para agradecer publicamente a Deus e aos países onde temos liberdade, é claro. Acho que isso é algo de que nunca me esquecerei.

Imagino que houve muitos desafios em seus anos de serviço, mas qual foi o maior em seus 20 anos de ministério como líder mundial?

Provavelmente, ver como cresce a intolerância religiosa ao redor do mundo, e ver que muitas pessoas estão prontas para matar outros e não somente matar, mas também a escravizar pessoas, forçá-las a se converter, crucificá-las. Vimos isso nos últimos dois ou três anos, só porque as pessoas tinham uma religião diferente. Pensamos que esse tipo de coisa havia desaparecido para sempre, mas está voltando, infelizmente.

Quais são os maiores obstáculos que a liberdade religiosa enfrenta hoje?

Acho que o maior desafio no mundo é, como disse, a crescente intolerância religiosa. Deveria dizer o radicalismo na religião. Quando eu era jovem, o mundo era dividido em dois. Por um lado, o comunismo, e por outro lado, o capitalismo. A religião não era um problema nessa época. E crescemos escutando que a religião não era mais um problema. Porém, hoje o mundo está dividido pela religião. Quando se vê no mapa o tema da perseguição, podem-se ver lugares onde as personas são perseguidas. A maior parte das vezes é por causa da religião, ou por causa do ateísmo em outros lugares, mas isso é novo. O levantamento do extremismo provoca outro extremismo. Quando há extremismo em uma religião, a outra religião sente que está sendo atacada. Hoje a religião está em todas as partes, e deve-se saber lidar com isso.

De seu ponto de vista, há alguma possibilidade de que a lei dominical seja aprovada em todo o mundo?

Deveria dizer que olhando para o mundo atual, especialmente para os Estados Unidos, onde morei por 20 anos, isso seria difícil de imaginar. Eu não acho que haja um único político nos Estados Unidos que proponha esse programa. Não há chance de ser eleito. Porque aos domingos as pessoas vão comprar no shopping, isso é surpreendente. Porém, deveria acrescentar que nunca se sabe, porque as coisas podem mudar e é muito difícil acreditar que as coisas continuarão sendo do jeito que são. Quando comecei este ministério, não tínhamos problemas em muitos países como temos hoje. Se alguém tivesse dito que um dia as pessoas seriam escravizadas por sua religião ou que seriam crucificadas, eu diria que acabou, que já não existe mais isso.

Porém, isso voltou. Se alguém vê o que está acontecendo no mundo muçulmano há 50 anos, os líderes do mundo muçulmano eram seculares, ou seja, não pregavam sobre sua religião. Hoje em dia, quase não há um país muçulmano com laicidade. É o oposto. Eles votaram leis contra artistas e há mais de 15 países onde aquele que muda de religião é condenado à morte. Se alguém disser algo contra a religião nacional, podem matá-lo, prendê-lo e condená-lo à morte. Há uma lei contra a apostasia, contra a conversão, contra a blasfêmia etc. Hoje muitas coisas podem mudar.

Hoje em dia, muitas pessoas, ao pensar em religião, pensam em extremismo religioso. Qual é a diferença entre esses dois assuntos?

Essa é uma boa pergunta, porque as pessoas rapidamente veem os crentes e dizem que eles são extremistas. Se alguém vai à igreja aos sábados, para algumas pessoas, ele é um extremista. Se alguém caminha pela rua com sua Bíblia, ele é um extremista. Se alguém acredita no dilúvio ou na criação, é um extremista. É preciso fazer a diferença entre o que você acredita e a maneira como você age. O que é um extremista? Para mim, um extremista é alguém que não aceita os outros, que os outros podem ter opiniões diferentes. Um extremista é alguém que quer impor sua opinião sobre os outros, quer forçá-los. O extremista não pode imaginar um mundo com pessoas diferentes, e alguém que é um crente pode ser muito conservador, mas pode dizer que respeita os outros, e essa é sua forma de viver; acredita em Deus e em Jesus, mas não quer forçar os incrédulos a acreditar.

A liberdade religiosa também é a liberdade de não ter uma religião. Significa defender o ateu também. E neste caso, não os vejo como extremistas. Porém, também há pessoas que são extremistas contra a religião. E eles vêm cada pessoa que professa uma religião como um inimigo. Eles também são extremistas. Se alguém quer ver extremistas, há extremistas em todos os lugares. Mas para mim, o verdadeiro extremista é quem não aceita que outras pessoas podem ter diferentes opiniões e religiões.

Qual é o fundamento bíblico da liberdade religiosa?

Essa é uma boa pregunta, porque muitas vezes se acredita que a liberdade religiosa é como um direito humano e não vem de Deus nem da Bíblia. É justamente o contrário. Para começar, Deus criou a terra com a liberdade de escolher. Ele nos criou com a liberdade de escolha, isto é, com a liberdade de dizer sim ou não. Então, pode-se ver no Antigo Testamento Moisés e em seguida Josué que disseram: “Escolham hoje a quem irão servir”. Eu fiz minha escolha, mas você também tem que escolher. A liberdade de escolha está sempre presente. Esse é o fundamento da liberdade religiosa. E mesmo no Paraíso, Lúcifer teve a liberdade de escolher. Ele tomou a decisão equivocada, mas teve a liberdade de escolher.

Então, podemos ver Jesus. E Jesus respeitou essa liberdade de escolha. Ele sempre disse: “Se você quer”, “Se você me ouve”, “Se você está com sede”. Sempre há o “se”. E por trás do “se”, ali está nossa liberdade. Podemos dizer “não acreditamos no Senhor” ou podemos dizer “acreditamos no Senhor”; podemos dizer “não quero segui-Lo” ou podemos dizer “quero segui-Lo”. Mesmo quando algumas pessoas disseram “se você não acredita no que eu acredito, você vai para o inferno”. Se eu sou livre, posso responder: “muito bem, mas essa é sua opinião, mas eu não acredito nisso”. Até mesmo Deus deu à terra a possibilidade de não crer nEle. Pode-se falar do céu e do inferno e que há pessoas que não acreditam nisso. Que decida não acreditar. E você tem que respeitar essa escolha.

O que você diria àqueles que assumem o cargo e continuam com a defesa da liberdade religiosa?

Eu diria que eles realmente têm que ter a paixão para defender essa liberdade, para ver que essa liberdade vem de Deus, que sejam gratos por viver em um país onde eles têm essa liberdade e que vejam o privilégio que eles têm. Todos nós devemos estar conscientes disso e devemos recordar que a intolerância não conhece fronteiras. Se promovermos a liberdade religiosa com força, ela atravessará as fronteiras, além delas e também invadirá lugares onde as pessoas são perseguidas e a melhor resposta ao terrorismo religioso e ao fanatismo religioso é realmente a liberdade religiosa.

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