Notícias Adventistas

Pioneiros adventistas e seu protesto contra o racismo sistêmico

Como o racismo sistêmico foi encarado por pioneiros do movimento milerita e Igreja Adventista em um resgaste histórico do século XIX.

Por Kevin M. Burton 6 de julho de 2020

Questão do escravismo foi tratada muito claramente por pioneiros. (Foto: Adventist Review)

O movimento do segundo advento era inseparável do apelo abolicionista para a destruição imediata e total da escravidão, e a reivindicação por direitos iguais aos oprimidos. Desde a ascensão do movimento milerita, no começo de 1830 durante o fim da Guerra Civil, os adventistas de todos os tipos usaram a tática de persuasão moral para alertar os americanos pró-escravidão que Deus logo voltaria. E que os julgaria se eles não se arrependessem e se reformassem imediatamente. Dessa maneira, eles fizeram protestos contra a injustiça racial inseparável de sua fé adventista.

Embora muitos adventistas mileritas evitassem a associação com partidos políticos porque esses partidos apoiavam a escravidão, a partir de 1840 um número significativo de pessoas se juntou ao Partido da Liberdade, que tinha uma única plataforma: a abolição imediata e total da escravatura e “a restauração da igualdade de direitos entre os homens”1

Abolicionismo

Em 1848, o Partido da Liberdade nomeou Gerrit Smith — um proeminente abolicionista, adventista milerita e observador do sétimo dia do sábado — como candidato a presidente dos Estados Unidos. Durante o período pré-guerra, os mileritas e os adventistas do sétimo dia também arriscaram suas vidas para libertar escravos da escravidão.

Enquanto alguns fizeram isso legalmente, comprando a liberdade de escravos, muitos violaram a lei federal ao ajudar fugitivos na Ferrovia Subterrânea. Eles mantiveram a lei de Deus sobre o escravo fugitivo, em Deuteronômio 23:15,16: “Não entregarás a seu senhor o servo que, tendo fugido dele, se acolher a ti; Contigo ficará, no meio de ti, no lugar que escolher em alguma das tuas portas, onde lhe agradar; não o oprimirás” (ACF). De fato, de todas essas maneiras, os adventistas foram inspirados por sua fé cristã a lutar contra o racismo sistêmico na América.

A causa antiescravista estava enraizada no protesto negro, e adventistas do sétimo dia negros também eram abolicionistas ativos. “O Pastor” John West, um ministro adventista do sétimo dia, ex-escravo e amigo próximo de Gerrit Smith, pregou contra os males da escravidão e do racismo. Ele publicou e promoveu várias obras abolicionistas de Smith, e gerenciou em uma loja em Peterboro, Nova Iorque, que não vendia produtos cultivados por mão-de-obra escrava. Em Bath, Nova Iorque, Elias e Henrietta Platt eram líderes adventistas locais e os abolicionistas mais ativos em sua cidade. Elias atuou como agente local da The North Star, de Frederick Douglass, e gerenciou uma loja de produtos gratuitos como a West’s. Os Platts regularmente hospedavam abolicionistas em viagem.

Em janeiro de 1852, os Platts receberam Tiago e Ellen White em sua casa durante um tempo em que praticamente todos os nortistas brancos se recusavam publicamente a se associar com negros. Quando Elias Platt morreu inesperadamente em 1854, Frederick Douglass escreveu seu obituário, afirmando que Platt era “um dos amigos mais dedicados, honestos e perseverantes de seu povo no estado de Nova Iorque.”2

Petições

Os adventistas do sétimo dia também fizeram uma petição contra a escravidão do sul e o racismo do norte. Joseph e Prudence Bates lideravam os abolicionistas em Fairhaven, Massachusetts, durante as décadas de 1830 e 1840. Eles assinaram e circularam as petições para abolir a escravidão e impedir a anexação de novos estados escravagistas, apelaram aos Estados Unidos para reconhecer a independência do Haiti após sua vitoriosa guerra de independência da França e ajudaram a abolir a segregação racial em trens e leis contra o casamento inter-racial em Massachusetts.3

Nas décadas de 1850 e 1860, os adventistas guardadores do sábado fizeram uma petição novamente contra mais questões, como a pena de morte (acreditando que tanto a escravidão quanto a pena de morte “representavam sistemas de brutalidade que coagiam os indivíduos”4), a Lei dos Escravos Fugitivos de 1850 e a Lei Kansas-Nebraska (1854). Na década de 1860, os adventistas do sétimo dia, por vezes, colocaram o nome da denominação em petições que eles escreviam e distribuíam.

Em abril de 1862, por exemplo, um grupo de 44 “adventistas do sétimo dia e outros” de Linn County, Iowa, testemunhou, “que nossas profissões de cristianismo e nos vangloriarmos de liberdade são apenas um escárnio à vista das nações da Terra e do Deus do Universo, enquanto nos demoramos, na prática, a reconhecer os ‘direitos inalienáveis de todos os homens à vida, à liberdade e à busca da felicidade’”. Os adventistas de Linn County, então, “pressionaram” Abraham Lincoln e o Congresso a imediatamente abolir “o grande e anormal crime da escravidão, a fonte incorrigível e inesgotável de nossa ruína nacional”.5

Os adventistas do sétimo dia também incorporaram argumentos abolicionistas às três mensagens angélicas (Apocalipse 14:6-12). O primeiro anjo alertou que a hora do juízo de Deus estava chegando, e os adventistas enfatizaram que, se os americanos pró-escravidão continuassem impenitentes, eles seriam duplamente punidos por seus pecados.

O segundo anjo avisou que a Babilônia caiu, e os mileritas saíram das igrejas protestantes (Babilônia) porque aquelas igrejas apoiavam a escravidão. Ellen White determinou que qualquer adventista do sétimo dia que tivesse simpatia pela escravidão deveria se imediatamente desassociado.

Finalmente, os adventistas do sétimo dia relacionaram as três mensagens angélicas contra a adoração da besta com a causa antiescravista. Apocalipse 13:1-18 revela que a besta de dois chifres impõe a idolatria, e os adventistas identificaram a América como essa besta porque ela professava apoiar a liberdade civil e religiosa (os dois chifres), mas, na realidade, negava esses privilégios às minorias religiosas e raciais.6

Os pioneiros adventistas do sétimo dia lutaram contra a opressão por meio de sua fé e ações durante uma época em que apenas uma pequena minoria de americanos protestou contra o racismo. Ao incorporar argumentos antiescravistas em sua apresentação das três mensagens angélicas, os adventistas do sétimo dia fizeram de um protesto contra o racismo sistêmico uma parte importante de suas crenças fundamentais. Eles desafiaram seus descendentes espirituais a continuarem com essa fé.

Kevin M. Burton é teólogo e faz doutorado em história da religião americana.

A versão original deste comentário foi publicada pela Associação Ministerial da Divisão Norte-Americana.


Referências:

  1. Thomas Hudson McKee, National Conventions and Platforms of All Political Parties, 1789 to 1905: Conventions, Popular, and Electoral Vote, 6th ed. (Baltimore, MD: Friedenwald, 1906), 52.
  2. Kevin M. Burton, “Born a Slave, Died a Freeman: John ‘the Dominie’ West, Seventh-day Adventist Minister and Abolitionist,” Adventist Review, April 2019, 52-55; “List of Agents,” The North Star, April 17, 1851, 1; “Free Labor Sugar & Molasses,” Steuben Courier, December 31, 1845, 3; Carter G. Woodson, ed., The Mind of the Negro as Reflected in Letters Written during the Crisis, 1800-1860 (Washington, DC: Association for the Study of Negro Life and History, 1926), 353; James White, “Our Tour West,” Advent Review and Sabbath Herald, February 17, 1852, 93; Richard Archer, Jim Crow North: The Struggle for Equal Rights in Antebellum New England (New York: Oxford University Press, 2017); Beth A. Salerno, Sister Societies: Women’s Antislavery Organizations in Antebellum America (Dekalb, IL: Northern Illinois University Press, 2005), 32, 33; [Frederick Douglass], “Died,” Frederick Douglass’ Paper, July 7, 1854, 3.
  3. Kevin M. Burton, “Joseph Bates and Adventism’s Radical Roots,” Adventist Review, March 3, 2020.
  4. Louis P. Masur, Rites of Execution: Capital Punishment and the Transformation of American Culture, 1776–1865 (New York: Oxford University Press, 1989), 157.
  5. “Petition of Seventh-day Adventists and Others of Linn County, Iowa, for the Abolition of Slavery in the United States,” April 1862, SEN 37A-J4, National Archives, Washington, D.C.
  6. Ellen G. White, Testemunhos para a Igreja, 1:259, 358; Charles Fitch, “Come Out of Her, My People”: A Sermon (Rochester, NY: J. V. Himes, 1843), 16; White, Testimonies, 1:360; Douglas Morgan, Adventism and the American Republic: The Public Involvement of a Major Apocalyptic Movement (Knoxville, TN: University of Tennessee Press, 2001), 15-29.

Veja Também


Comentários

WordPress Image Lightbox