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História do adventismo no norte da Bahia: Iluminando além das águas do Velho Chico

À bordo das lanchas Luminar I e Luminar V, pioneiros adventistas levaram assistência médica e odontológica para a população ribeirinha do Rio São Francisco.

Por Pedro Farias 8 de outubro de 2021

O Rio São Francisco é o maior rio inteiramente brasileiro. Por isso, é chamado de Rio da Integração Nacional. (Foto: Divulgação Internet)

Apelidado de “Velho Chico”O Rio São Francisco é o maior rio brasileiro e um dos mais relevantes rios do país, principalmente para a Região Nordeste. Com cerca de 2.700 km de extensão e uma riqueza social, cultural e econômica, o Rio São Francisco percorre a maior parte do semiárido nordestino, banhando os estados de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe. O Velho Chico abrange cerca de 507 municípios onde habitam aproximadamente 13 milhões de pessoas, como Penedo (AL) , Pirapora (MG), Juazeiro (BA), Paulo Afonso (BA), Três Marias (MG), entre outros que constituem a Bacia do Rio São Francisco.

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As águas do Velho Chico foram palco para o avanço do adventismo no norte da Bahia. O evangelho solidário navegou em lanchas até a população ribeirinha que não tinha acesso a atendimento médico e odontológico. A princípio, as lanchas missionárias prestavam serviços em lugares de difícil acesso e contavam com a presença de um pastor adventista para dar assistência espiritual às famílias. Aproximadamente, eram 1.292 KM navegando de Pirapora a Juazeiro na Bahia, levando saúde e esperança.

Luminar I em Juazeiro. (Foto: Reprodução)

Em 1948 foi construída a lancha Luminar I sob o comando do pastor Paulus Simon Seidl, levando o nome do projeto “Assistência Social Adventista”, chegou a atender mais de 400 mil enfermos até o ano de 1955. Posteriormente, Leslie Charles Scofield passa a pilotar a Luminar em 1956, porém, não contente com a sua estrutura, decide levar a lancha a Pirapora (MG) e construir uma unidade flutuante maior: A Luminar II, inaugurada em 1958.

O evangelho na beira do rio 

Depois que o novo barco foi construído, a Luminar I foi devolvida para a Bahia onde Cipriano Morais assumiu o seu comando, levando assistência pelos municípios norte baianos de Xique-Xique, Barra e Juazeiro. “Eu lembro que o rádio anunciava a chegada da lancha no cais de Juazeiro. Os missionários eram muito atenciosos e sempre com um sorriso no rosto. Enquanto eles distribuíam folhetos sobre saúde e convites para evangelismos durante as noites, uma multidão de pessoas cercava a beira do rio para receber o barco. Tinha extração de dentes e muito mais! Logo depois que a lancha foi embora muitos perguntavam o que aconteceu, pois tudo isso era uma alegria para todos!”, expressou Maria do Carmo Lima, beneficiada na época.

Genir e sua amiga Hilma na Luminar I no ano de 1978. (Foto: Reprodução)

Após alguns anos de trabalho social, a Luminar I foi ancorada por um bom tempo devido a alguns problemas técnicos. Foi então que o pastor Dido Pereira Santos foi chamado para comandar a lancha e levar atendimentos médicos e odontológicos para Xique-Xique, município que se tornou sede da Luminar I, na época. A professora Genir Matias Cavalcante atualmente é adventista no templo central de Xique – Xique e presenciou todo o trabalho feito na cidade. “Eu fui um instrumento para salvação de almas. Lembro que participei do trabalho social ensinando a Bíblia para as pessoas. Ao mesmo tempo, presenciei histórias de conversão através dos atendimentos que a lancha fazia. Por isso, tenho um sentimento de gratidão por Deus ter enviado o pastor Dido e sua equipe para nossa cidade”, agradece.

“Seu Santo”

Extrações dentárias era um dos procedimento mais comuns realizados. (Foto: Reprodução)

O amor ao próximo deu origem aos primeiros adventistas nas populações ribeirinhas. O pastor Dido Pereira ficou conhecido na região por “Seu Santo”, devido a sua integridade no trabalho social naquele território. “Eu fui uma das primeiras pessoas a ser batizada naquela época. A princípio o que me atraiu foi um filme sobre a segunda guerra mundial que assisti nos cultos realizados todas as noites. Gostei muito de participar e como resultado me tornei adventista. Depois de um ano meu marido se batizou e seguimos a Deus juntos”, relata Helena Ribeiro.

A bordo da lancha Luminar I, o pastor Dido contava com uma equipe de voluntários bem como marinheiros, cozinheiros, enfermeiros, dentistas e médicos. O cirurgião dentista, Nelson Ferraz Santos, atendeu inúmeras pessoas gratuitamente e para ele foi uma honra fazer parte da obra efetuada. “Fui chamado a ir para Xique-Xique em 1977, onde trabalhei na lancha por anos. Foi uma grande experiência! Pude trabalhar na minha profissão e evangelizar o povo, por isso, tenho muito a agradecer a Deus. Quando parei de atender nas lanchas, ainda assim, continuei como dentista e passei a trabalhar como missionário pela Igreja”, disse.

Expandindo Fronteiras

Luminar V ancorada. (Foto: Reprodução)

Não havia postos de saúde próximos e o acesso a medicamentos era caro, ou seja, a população que vivia à beira do rio tinha muitas dificuldades para receber atendimento médico de qualidade e além disso, a Luminar I era uma lancha bem antiga que funcionava desde 1948. Nesse meio tempo, várias reformas tinham sido feitas, mas eram reformas reparatórias e de adaptações. Mesmo a Luminar I suprindo a necessidade dos populares, ainda assim era limitada e pouco confortável para levar um bom serviço para as pessoas. Foi pensando nisso que o pastor Dido teve a ideia de construir uma lancha maior: A Luminar V.

No início da década de 80 a Luminar V já estava construída e começou a navegar pelas águas do Rio São Francisco, desta vez com mais velocidade, segurança e espaço. A nova lancha passava pelos municípios de Malhada, Carinhanha, Bom Jesus da Lapa, Caratinga, Ibotirama, Santa Maria da Vitória, Mor-Pará, Barra e Xique-Xique. Neste período os atendimentos eram mais confortáveis e a estrutura para acomodar os pacientes era mais eficientes.

As últimas viagens

Ribeirinhos atendidos pela Assistência Social Adventista. (Foto: Reprodução)

Com um grande legado como pioneiro do adventismo em Xique-Xique, Barra e Irecê, o pastor Dido Pereira foi chamado para atuar em sua terra natal, Januária – MG. Foi uma despedida difícil para o “Seu Santo” que pastoreou a região por mais de uma década e era querido pelos ribeirinhos.  Em Março de 1986 o pastor Dirson Pereira Santos, irmão do Dido, foi pra Bahia para assumir a Luminar V e se impressionou com a recepção das pessoas. “Os ribeirinhos abanavam e batiam os panos brancos, era o sinal que tinha um doente. Imediatamente, nós mandávamos o piloto encostar e na margem as pessoas levavam os enfermos. Começava com um só e em seguida aparecia uma multidão de pessoas para serem atendidas”, disse Dirson.

Nesta época a ajuda chegava pelas águas e pela terra enquanto os voluntários esperavam a Luminar V chegar nas cidades para ajudar os atendimentos. Um deles era o cirurgião dentista Valter Just da Rocha Pita, filho do pastor Plácido da Rocha Pita, pioneiro do adventismo em Juazeiro e região do Vale do São Francisco. Valter Pita e Dirson se tornaram grandes companheiros nos projetos da Assistência Social Adventista. “Eu atendia os pacientes e dava orientação de saúde, ensinando-os a cuidar dos dentes. Éramos bastante dedicados na Igreja para alcançar pessoas simples no evangelho e até orientações psicológicas nós dávamos. Por fim pudemos mostrar como era possível realizar muito com tão pouco”, afirmou.

O legado dos dois irmãos

Pastor Dido e coral adventista. (Foto: Reprodução)

Segundo o ex-marinheiro da Luminar V, Cícero Hilton Alencar, poder navegar pelas águas do Velho Chico levando esperança não teve preço. “As viagens eram muito divertidas, amava a comida que a irmã Geny fazia para nós. Passamos por muitas dificuldades juntos. Por outro lado, fiz amigos para toda a vida e vivi tempos muito bons. Nunca vou esquecer os sorrisos sinceros daqueles que sempre nos aguardavam”, expressou.

Graças ao esforço do Dido Pereira e seu irmão Dirson Pereira, muitas pessoas receberam assistência e puderam conhecer o evangelho de Jesus Cristo. Com o avanço do desenvolvimento social e do acesso a saúde pública municipal para os povos ribeirinhos, o trabalho da Assistência Social Adventista pelo Rio São Francisco chega ao fim.

Igreja Adventista de Ipanema. (Foto: Reprodução)

As lanchas Luminar I e V foram vendidas e utilizadas para outros fins. Em 14 de agosto de 2019 o pastor Dido Pereira faleceu de causas naturais aos 92 anos e até o fechamento desta matéria, o seu irmão Dirson Pereira permanece vivo como pastor aposentado. Atualmente, os habitantes de Xique-Xique, Barra e Irecê lembram dos milagres que Deus realizou através destes dois irmãos, que iluminaram as águas do São Francisco e com amor e compaixão, plantaram a semente do adventismo no interior do norte da Bahia.

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