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Missão em cadeias promove ressocialização de detentos

I Simpósio Nacional de Missão Prisional pretende estimular trabalho em penitenciárias.

Por Anne Seixas 4 de novembro de 2018

Hermínio e José Vanderlei (à direita) contam seu testemunho com a missão prisional (Foto: Divulgação)

A população carcerária no Brasil abriga cerca de 725 mil pessoas, segundo pesquisa divulgada pela Pastoral Carcerária em setembro deste ano. De acordo com o Ministério da Justiça e Segurança Pública, o sistema comporta cerca de metade desse número.

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“Ali foram sete longos anos, preso e sem perspectivas”, diz José Vanderlei Leal, ex-presidiário que hoje atua no Ministério da Missão Prisional, ligado à Igreja Adventista do Sétimo Dia. Natural do Piauí, ele foi para São Paulo em busca de oportunidades de trabalho, mas acabou envolvido diretamente com o uso de drogas e crimes, como assaltos a bancos.

Depois de diversas fugas, foi detido na cidade de Marabá, no sul do Pará. Foi ali que conheceu Hermínio Barbosa dos Santos, voluntário que faz visitas regulares à unidade prisional.

Ligação afetiva

Dessas visitas surgiu uma relação próxima entre o encarcerado e o missionário. “Ela mostrou realmente o amor de alguém por minha pessoa. Naquela situação em que eu estava, eu não conseguia acreditar que alguém pudesse me amar”, destaca Leal.

“Mãe” Ruth, como é conhecida, conta histórias de sua relação com os detentos no Paraná (Foto: Anne Seixas)

Essa perspectiva é o que também motivou Ruth Tesche, conhecida como a mãe Ruth. Segundo ela, a carência afetiva é a maior necessidade que os presos têm. E essa foi a principal dificuldade que teve que vencer em si mesma. Hoje, quando os libertos não têm pra onde ir, são abrigados em sua casa e só saem de lá ao terem um emprego e condições de pagar o próprio aluguel.

Ruth começou o trabalho nas prisões como “mensageira” entre os filhos dos que cumpriam pena ou esperavam decisão da Justiça. Levava e trazia cartas, mas em sua mente, estava apenas ajudando as crianças. “Eu não gostava de preso, eu tinha raiva de preso”, exclama ao lembrar de seus sentimentos há 25 anos, quando fez as primeiras visitas.

No entanto, ela entendeu que essa seria a missão de sua vida. Dividia-se entre o trabalho como funcionária pública em Maringá, no Paraná, e as idas à unidade prisional. Aos poucos, foi conquistando o respeito tanto dos presos quanto da diretoria do presídio. Ruth chama todos de “meninos”, os filhos do coração, segundo a senhora prestes a completar 66 anos. “A pessoa não consegue sobreviver se ela não é amada”, pontua.

José Vanderlei Leal foi batizado na Igreja Adventista do Sétimo Dia por conta da forte influência da Missão Prisional no Pará. Ruth, no outro extremo do País, afirma que, como ele, mais de 2 mil pessoas se converteram ao adventismo ao longo das mais de duas décadas de trabalho.

Ressocialização e vida pós-prisão

Em artigo publicado pela bacharel em Direito Angélica Freitas, ela afirma que “essa experiência religiosa restabelece o sentido da existência, ensinando questões essenciais ao convívio em sociedade, como a importância de se amar o próximo, de se ter humildade, de ser solidário. Ela é apta ao resgate de valores humanitários, produzindo a sensação de comunhão com algo transcendente.”

Esse foi o tema do I Simpósio Nacional de Missão Prisional promovido pela Igreja Adventista no Norte do Brasil, sediado pela Faculdade Adventista da Amazônia. O pastor Ivanildo Cavalcante, líder do departamento de Missão Global, responsável por expandir a Igreja em locais que ainda não têm presença do adventismo, explica que o objetivo é estimular os voluntários a estabelecer núcleos que atendam a população carcerária nos municípios que têm unidades prisionais.

Além de histórias de ex-presidiários e de missionários, o evento contou ainda com a participação de um psiquiatra, com o Embaixador da Juventude da Organização das Nações Unidas Sobre Drogas e Crimes (ONUDC), e do juiz Vanderley Oliveira, que atua diretamente nesse ministério em todo o Pará.

“Nós estamos trabalhando a questão da saúde mental, os termos legais do sistema penitenciário, a teologia, para que os participantes entendam que Deus tem uma preocupação bíblica com as pessoas encarceradas, e também o contexto social que envolve tudo isso”, declara Cavalcante. Entre as palestras, oficinas foram ministradas para ensinar estratégias para atingir esse público e o objetivo de ressocializar homens e mulheres que passam pelo sistema prisional.

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