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Adventistas criam mosaico de ações em busca de relevância nas cidades

Diferentes realidades de uma metrópole demanda diferentes abordagens evangelísticas para alcançar pessoas.

Por Lucas Rocha 31 de março de 2019

Participantes se reuniram para aprender estratégias para chegar a mais pessoas nos grandes centros (Foto: Arquivo)

O mundo é urbano. Ou pelo menos a maioria da população mundial vive em cidades desde 2007, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU). No Brasil, uma recente metodologia adotada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indica que 76% de seus moradores vive em municípios urbanos. De todos os municípios do País, 40% são considerados urbanos. Isso quer dizer que a maior parte da população vive em uma pequena área do território. A região metropolitana de São Paulo é um exemplo. A estimativa é a de que um a cada dez brasileiros vivam numa área que soma quase 8 mil km2.

A consequência é uma metrópole diversa, plural e dinâmica. Entre uma rua e outra, diferentes contextos sociais, econômicos e culturais convivem simultaneamente. Tal complexidade faz com que a Igreja Adventista tenha que analisar os diferentes contextos para apresentar a mensagem bíblica com mais relevância para os distintos públicos que coexistem nas grandes cidades.

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O assunto foi tema do congresso Mission to the Cities, realizado entre os dias 27 e 30 de março em Cotia – município da região metropolitana de São Paulo -, e que reuniu pastores adventistas que atuam em diferentes regiões do Brasil. O objetivo foi oferecer um vislumbre do mosaico de possibilidades para o evangelismo que pode ser aplicada em uma grande cidade.

E os participantes ficaram sabendo dessas diferentes estratégias por meio de palestras, apresentação de cases, acesso a materiais – entre eles os livros que podem ser adquiridos com a organização do evento– e também um tour pelas diferentes iniciativas que os adventistas em São Paulo desenvolvem.

Encontro também foi oportunidade para compartilhar ideias em busca de soluções aplicáveis (Foto: Arquivo)

Relacionamentos influentes

Há pouco menos de 14 anos, em 2005, contextualizar a forma de apresentar a mensagem bíblica conforme o público era quase um tabu. Nessa época, o pastor Kleber Gonçalves, hoje professor de Missão Global na Universidade Andrews, nos Estados Unidos, começou a desenvolver o projeto de uma comunidade adventista para o público cosmopolita que mora e trabalha na região da Avenida Paulista, no centro de São Paulo.

Foi criada a Comunidade Adventista Nova Semente, que conta atualmente com 700 membros, mas que atrai mais de 2 mil pessoas por sábado nos diferentes cultos e classes bíblicas. De lá pra cá, diversas outras iniciativas de evangelismo voltada para os grandes centros urbanos prosperaram, inclusive um restaurante vegetariano que funciona ao lado da Comunidade Adventista Nova Semente, que faz contato com dezenas de pessoas diariamente.

O centro de influência Instituto Base Gênesis, criado em 2015, atende atualmente cerca de 300 famílias de refugiados árabes toda semana. No espaço de aproximadamente 100 metros quadrados em uma das regiões mais movimentadas da capital paulista, a Praça da Sé, o estilo de vida adventista influencia não apenas esse grupo. O local têm iniciativas para moradores de rua, pessoas de baixa renda, empreendedores e também voluntários – já são mais de 400. Aos poucos, a relevância da atuação dos adventistas abre oportunidades para a compreensão das doutrinas bíblicas que fundamentam tal estilo de vida.

Durante a exposição em uma das plenárias do congresso, Gonçalves comentou sobre o paradoxo de convivência das grandes cidades. Apesar da aglomeração de pessoas, questões como segurança e rotina desgastante faz com que quem vive nessas localidades tenha dificuldades de relacionamento. “Esta carência por relacionamentos profundos é uma grande oportunidade para o discipulado, para o evangelismo com base nos relacionamentos”, alerta.

Este é um dos pilares de projetos como a comunidade Nova Semente e o centro de influência Instituto Base Gênesis. “Muitas vezes, temos a compreensão de que o evangelismo se restringe a fazer séries de sermões. Este é o evangelismo público. Porém, existem outras formas de evangelismo, que tem como base o relacionamento pessoal e que podem ser aplicadas individualmente, todos os dias”, explica.

Veja: diversidade cultural é uma das principais marcas dos adventistas em São Paulo

Contextualização

As bases bíblicas para o evangelismo urbano vão do livro do Gênesis – o chamado de Deus para Abrão ser uma benção para os outros é considerado a primeira grande comissão – até o Apocalipse. No entanto, os métodos utilizados por Jesus e pelo apóstolo Paulo são citados de forma recorrente em debates sobre missão urbana.

A maneira como os dois conseguiam fazer abordagens distintas para públicos diferentes, sem negligenciar necessidades básicas e, sobretudo, a cultura, é um modelo que norteia as diferentes iniciativas de evangelismo nas grandes cidades. O conceito de fazer-se grego para os gregos e judeu para os judeus é utilizado na contextualização.

Em São Paulo, essa estratégia fez surgir diferentes comunidades adventistas para diferentes etnias – as chamadas comunidades étnicas. Dessa forma, judeus, árabes, coreanos, japoneses, hispanos e africanos compartilham a mensagem da volta de Jesus conservando aspectos culturais que atraem até mesmo pessoas que não tem origem nessas culturas. No sábado, 30 de março, os pastores que participaram do congresso Mission to the Cities visitaram as diferentes comunidades étnicas de São Paulo.

No entanto, a forma contextualizada de apresentar a Bíblia também alcança diferentes nichos típicos de centros urbanos. Grupos como skatistas, surfistas, ciganos, universitários, dependentes químicos, moradores de rua, empreendedores, vegetarianos, motociclistas, surdos e cegos – a lista ultrapassa 30 ministérios urbanos – também preocupam-se em apresentar, de forma contextualizada, a mesma mensagem que todos os templos adventistas também compartilham.

O pastor Robert Maclauf, no entanto, destaca que o mais importante para o evangelismo nas grandes cidades vale tanto para quem está nas áreas de maior concentração de pessoas como nas áreas rurais, mais distantes. “Trata-se do evangelho de Jesus Cristo. Não apenas a boa nova da salvação, que é o que Jesus faz por nós, mas é a boa nova sobre quem é Jesus. Este é o mais importante. O método de apresentar é irrelevante se a mensagem é incorreta”, afirma.

Veja: vídeo sobre os desafios culturais de São Paulo

Diferentes abordagens

Dentro do esforço de comunicar mensagens bíblicas de forma relevante para o contexto dos grandes centros urbanos, existem diversas correntes de movimentos, desenvolvidas principalmente nos Estados Unidos desde meados da década de 1980. Mas o pastor Emílio Abdala, diretor do departamento de Missão Global da Igreja Adventista no Estado de São Paulo, alerta que esses movimentos fornecem inspirações, mas não devem ser adotados em totalidade, copiados sem analisar o contexto em que eles foram utilizados.

“Devemos seguir o conselho de Paulo de tentar perceber o que há de bom nessas diferentes iniciativas, entender os princípios do sucesso e verificar se é possível aplicar no nosso contexto. Assim, estaremos retendo o que é bom”, aconselha Abdala.

– Movimento do crescimento de Igrejas: Há diversas correntes dentro deste movimento.

  1. Megaigrejas – movimento focado no desenvolvimento de templos para mais de duas mil pessoas, que costumam ir apenas uma vez na semana para a Igreja.
  2. Igrejas em células – movimento que destacou as virtudes de saúde de igrejas baseadas em células, que funcionam a partir de grupos pequenos. Nesse modelo, todo fiel faz parte de um grupo menor, uma célula.
  3. Luta por espaços – movimento que buscava o alcance de novos espaços territoriais, em uma espécie de mapeamento de guerra espiritual, que acreditava que determinados territórios são de Deus ou de Satanás.
  4. Foco na saúde da Igreja – os defensores dessa corrente acreditavam que o foco não deveria estar no crescimento da igreja, e sim em sua saúde, desenvolvendo a fidelidade dos membros. Eles acreditavam que uma igreja saudável iria crescer de forma natural.
  5. Mosaicos culturais – Essa corrente nasceu em 1974 e incentivava missionários a ver nações como mosaicos culturais, espaços com realidades e contextos diferentes, sendo necessário identificar e evangelizar todos os grupos etno-linguísticos.
  6. Multiplicação de plantio de Igreja – A ênfase está não apenas em criar novas igrejas. Cada nova congregação, deveria, por sua vez, dar origem a outras igrejas – em um modelo de multiplicação de plantação de igrejas.
  7. Correção do movimento do crescimento de Igrejas – os defensores dessa corrente entendem que há uma lista de correções que as igrejas precisam realizar ao pensar no crescimento de igrejas: buscar crescimento de congregações em locais onde quase não há cristãos, como na janela 10/40; evitar enfatizar a importância das megaigrejas, pois a maioria das congregações cristãs são pequenas; buscar o crescimento qualitativo e não necessariamente em número de membros.

Movimento de Igrejas seeker – o aumento de incrédulos na população americana fez emergir, nas décadas de 1970 e 1980, iniciativas que buscavam entender, se conectar e comunicar com pessoas mais críticas.

  1. Seeker driven: Preocupa-se em planejar os serviços (em alguns casos, toda) da Igreja a partir das necessidades do interessado. Utiliza muitos elementos do marketing, foca em programações especiais aos finais de semana, cria novos serviços e materiais, como apresentações dramáticas, vídeos e equipe de produção com o intuito de oferecer programas mais profissionais.
  2. Seeker sensitive: Tem o objetivo de remover obstáculos desnecessários ao evangelho que muitas igrejas podem ter. Embora seja crucial atrair novos interessados, essa não deve ser a força motriz da igreja. A igreja deve ser sensível aos que a procuram, não totalmente orientada para agradá-los. Assim, essas igrejas preocupavam-se com o desenvolvimento espiritual dos membros, sendo esta a principal necessidade a ser atendida.

Movimento da Igreja Missional – Enquanto as Igrejas seekers buscavam atrair cada vez mais pessoas para dentro dos templos, a Igreja Missional tem como propósito fazer com que os membros que atuam sejam relevantes no entorno dos templos. O foco está em oferecer aos membros o incentivo e capacitação para eles servirem, independente de onde estiverem; enviar missionários e não necessariamente reter pessoas; oferecer processos e não somente programas; trazer movimento e dinâmica na igreja, e não em construir monumentos.

Movimento de House ChurchElas surgiram em regiões em que o estabelecimento de Igrejas havia sido proibido. Como forma de driblar as restrições de frequentar comunidades com dezenas de pessoas, pequenos grupos passaram a se organizar em casas, escritórios, restaurantes, campus universitários, hotéis, enfim, em pontos que podem ser multiplicados rapidamente.

No entanto, diferente da organização de Igrejas com pequenos grupos ou de Igreja de Células, as House Churchs são independentes e autônomas. Cada casa corresponde a uma comunidade independente, com um líder que faz parte da própria comunidade e muitas vezes não tem formação teológica. Esse modelo é eficaz em locais onde há restrições para o estabelecimento de congregações cristãs, propicia um ótimo ambiente para o discipulado e não necessita de grandes orçamentos ou construção de edifícios.

No entanto, são vulneráveis a líderes imaturos ou falsas crenças, tendem a serem diluídas com o tempo e não conquistam credibilidade.

– Movimento das Igrejas Segmentadas – Além das comunidades étnicas, há o crescimento de novas igrejas entre subculturas ou grupos de afinidade. Elas possuem uma abordagem atrativa, em que os interessados possam ir como estão – usando bicicletas ou com bermudas e tênis para andar de skate, por exemplo. Com isso, elas buscam superar barreiras culturais. Essas comunidades têm o forte apelo para a multiplicação de novas igrejas que atendem o mesmo subgrupo cultural.

As palestras do Mission to the Cities foram gravadas e serão disponibilizadas no site oficial do evento. Para saber mais sobre ministérios urbanos, acesse: missãourbana.com.br.

Veja: Conheça o Instituto Base Gênesis

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