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Artigo narra legado de coragem de escrava norte-americana

Referência na luta pela justiça social, Sojourner Truth conheceu e foi pessoalmente influenciada por Ellen White e outros pioneiros do adventismo.

20 de novembro de 2017

Originalmente, por Patricia L. Humphrey

A escrava norte-americana Sojourner Truth deixou um legado de coragem que motiva pessoas até hoje na luta pela justiça social. Foto: Reprodução

Pioneira da liberdade

Seu nome era Sojourner Truth. Ela era uma serva de Deus, com uma mensagem de amor e paz para o mundo que ainda soa como verdade.

Ela nasceu como escrava no condado de Ulster, a cerca de 130 quilômetros da cidade de Nova York. Ninguém imaginou que essa pequena figura se tornaria um dos mais poderosos líderes no movimento contra a escravidão.

Não se sabe a data exata do seu nascimento, porque não se mantinham registros precisos de escravos. No entanto, uma nota escrita por Minnie Merrit Fay, impressa no Jornal de Battle Creek, Michigan, traz uma forte indicação de que ela nasceu por volta de 1775.

“Sojourner Truth morava na casa de meus pais quando eu era uma criancinha… Estou certa de que meu grande carinho por ela se formou nesta época… Um incidente da vida de Sojourner que deixou uma profunda impressão na minha mente infantil foi o seu relato sobre o ‘Dia Escuro’, 19 de maio de 1780, quando ela, provavelmente, tinha 5 ou 6 anos de idade. Ela disse que estava terrivelmente assustada, e corria com animais assustados em um campo, onde o orvalho cobria a grama, apesar de ainda ser noite. Eu acho que foi este incidente que permitiu definir a sua idade na época da sua morte, com 108 anos”.

A vida como escrava era difícil para Sojourner Truth, cujo nome no nascimento era Isabella Baumfree. Durante a vida, ela pertenceu a cinco diferentes proprietários de escravos, um dos quais cruelmente a chicoteou por não obedecer aos seus comandos, porque ela falava holandês e não entendia o inglês.

Leia também: A Bíblia e a escravidão

Em 1810, foi vendida para John Dumont de New Paltz, Nova York. No entanto, ela nunca abandonou a esperança de um dia ganhar sua liberdade.

Uma lei de 1824 conferiu liberdade a todos os escravos nascidos antes de 4 de julho de 1799. Os Dumont’s concordaram em libertar Isabella em 1827, embora não houvesse certeza sobre quando ela nascera. Mais tarde, Dumont prometeu que, se Isabella trabalhasse duramente, ela seria liberada um ano antes. Nos dois anos seguintes, ela trabalhou extraordinariamente pesado, mas uma lesão na mão um ano antes de ser libertada dificultou a sua capacidade de trabalhar como de costume.

Quando a colheita de outono falhou naquele ano, Dumont renegou sua promessa de libertá-la, e ainda a acusou de tê-lo enganado em uma parte do seu trabalho. Tendo sido ensinada a nunca mentir ou trapacear, Isabella nunca imaginara que Dumont quebraria sua promessa.

Pedindo orientação a Deus, Isabella resolveu fugir. Sem saber se o fazia de dia ou de noite, orou por uma solução para o seu dilema. A resposta veio claramente: ela deveria partir ao amanhecer.

Agarrando sua pequena filha [a mais jovem]*, Sophie, Isabella partiu para a liberdade. Novamente, buscou a direção de Deus. Ela foi levada à casa de Isaac e Maria Van Wagenen. Esse casal temente a Deus recebeu-a muito calorosamente, oferecendo-lhe um trabalho e um lugar para ficar.

Dumont logo a encontrou e ameaçou com severa punição se ela não retornasse. Em um esforço para salvá-la da ira de seu antigo dono, os Van Wagenen’s compraram-na de Dumont.

Como uma verdadeira família cristã, eles imediatamente desencorajaram qualquer inclinação dela a se referir a eles como mestre ou patroa. “Há apenas um Mestre”, o gentil cavalheiro disse-lhe, “e aquele que é seu Mestre é meu Mestre”.

Apesar de ter encontrado um refúgio pacífico, Isabella, muitas vezes, sentia falta da camaradagem dos antigos quartéis de escravos.

Num domingo à tarde, ela foi tentada a retornar. Dumont viera com a intenção de persuadi-la a voltar para sua plantação. Pensando em sua família (ela havia se casado [com Thomas, outro escravo de Dumont]* e dado à luz cinco filhos) e amigos que deixara, Isabella começou a caminhar em direção ao portão. No entanto, abruptamente, uma força invisível parecia bloquear seu caminho. De repente, ela ouviu uma voz dizendo: “Nem um passo a mais!” Atordoada e confusa, ela congelou. Compelida a ficar, lentamente virou-se e voltou para o seu quarto.

Pouco depois, sentiu uma presença e uma luz no quarto com ela que, em suas palavras, eram “como o sol brilhando em um balde d’água quando este se move para cima e para baixo.” Curiosa quanto a quem poderia ser, ela gritou: “Eu sei quem é você! Eu conheço você!” Mas, depois, disse: “Eu não conheço você! Eu não sei quem você é!”, e a luz desapareceu. Novamente, quando ela disse “eu conheço você!”, a luz voltou.

Então uma voz falou com ela: “Este é Jesus”. Ela gritou de alegria: “É Jesus! Glória a Deus!”

“E o mundo inteiro”, disse ela, “ficou brilhante, e as árvores bailavam e acenavam em glória, e cada pedra no chão brilhava como vidro. E eu gritei: ‘Louvado, louvado, louvado seja o Senhor!’ E comecei a sentir tamanho amor na minha alma como nunca senti antes – amor a todas as criaturas”.

Em 1843, Isabella embarcou no que ela acreditava ser a missão dada a ela por Deus. Essa missão é melhor descrita em linhas extraídas de uma música composta por ela: “Eu imploro por meu povo, uma pobre e oprimida raça, que habita em uma terra que ostenta liberdade, sem um lugar permanente”.

No mesmo ano, frequentou reuniões mileritas, e muitos acreditam que ela se identificou com o povo do advento. Foi também nesta época que foi impressionada por Deus para mudar seu nome.

“Meu nome era Isabella, mas quando eu parti da casa da escravidão, deixei tudo para trás. Eu não vou continuar com nada do ‘Egito’ sobre mim… O Senhor me deu ‘Sojourner’ [estrangeiro]* porque eu viajaria até ‘para baixo da terra’ mostrando às pessoas os seus pecados e servindo de sinal para elas. Depois, eu disse ao Senhor que queria outro nome, porque todo mundo tinha dois nomes, e Ele me deu ‘Truth’ [verdade]* porque eu declararia a verdade às pessoas”.

Em 1856, Sojourner mudou-se para Harmonia, Michigan, e pouco depois para Battle Creek. Lá ela se familiarizou com proeminentes líderes adventistas como Ellen G. White, John Harvey Kellogg e Uriah Smith. Não existem registros da Igreja de que ela tenha se tornado membro da Igreja Adventista, mas várias fontes sustentam a alegação de que ela era, realmente, uma adventista.

Sojourner Truth viajou do Leste para Oeste, orando e pregando onde quer que ia. Ela recusava qualquer pagamento por seus serviços, aceitando apenas o calor e gentileza daqueles em cujas casas encontrava descanso e refrigério.

Memorial a Sojourner Truth, The African American Heritage. Foto: Lynne Graves

Embora tenha obtido imensa popularidade e fosse sempre solicitada como palestrante, ela tinha oposição. Numa ocasião, foi golpeada, e em outra, atacada. No entanto, sua voz forte, profunda e melodiosa não podia ser ignorada por ninguém. Sua sagacidade era conhecida por silenciar até mesmo o mais forte dos oponentes.

Em uma convenção sobre os direitos das mulheres em Akron, Ohio, sentou-se e ouviu calmamente vários pregadores exortarem suas crenças sobre como as mulheres eram inferiores. No momento mais oportuno, para o desânimo de seus oponentes, ela caminhou para a frente do salão e disse: “Então, esse pequeno homem vestido de preto diz que as mulheres não podem ter tantos direitos como os homens porque Cristo não era uma mulher.” Duas vezes ela repetiu: “De onde o seu Cristo veio?” Respondendo à própria pergunta, ela disse: “De Deus e de uma mulher. O homem não teve nada a ver com Ele!”

Em 26 de novembro de 1883, Sojourner Truth faleceu. Mais de 3 mil pessoas se aglomeraram no Battle Creek Tabernacle para prestar suas últimas homenagens à sagaz heroína negra. Uriah Smith presidiu os serviços. Ellen Bradbury Paulson, que participou do funeral, disse de Sojourner Truth: “Ela era uma boa adventista do sétimo dia”.

No cemitério de Oak Hill, ela descansa silenciosamente, a poucos metros do túmulo de Ellen White, aguardando aquele dia em que Jesus vai libertar suas preciosas jóias que a morte e o pecado há tanto tempo têm feito cativas.

(* Grifos acrescentados)

O artigo acima foi publicado na revista americana Visitor em fevereiro de 1989. A autora ainda destaca que Sojourner Truth discursou contra a escravidão e em prol da temperança e dos direitos da mulher, até mesmo diante do presidente Abraham Lincoln. Em seu túmulo, está escrita a frase: “Deus está morto?”, palavras que ela usou para lembrar ao abolicionista Frederick Douglass de que Deus é “Mestre” sobre a vida daqueles que nEle confiam.

Veja o PDF com a edição original da revista Visitor. O artigo sobre Sojourner Truth encontra-se nas páginas 4 e 5.

Dia Nacional da Consciência Negra

Hoje o Brasil volta os olhos a uma causa de impacto em todo o mundo. O Dia Nacional da Consciência Negra foi instituído em 2011, e remete a 20 de novembro de 1695, por ocasião da morte de Zumbi dos Palmares, último líder do Quilombo dos Palmares, o maior do período colonial. O dia é dedicado à reflexão sobre a história, participação e inserção do negro na sociedade brasileira.

 

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