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A Bíblia e o feminismo

Pesquisa mostra se há alguma conciliação entre os conceitos defendidos pelo feminismo e o cristianismo tal como apresentado na Bíblia.

Por Vanessa Meira e Isaac Malheiros 14 de outubro de 2020

O conceito bíblico é o mesmo defendido por quem advoga em favor dos feminismos? (Foto: Shutterstock)

Este artigo trata da visão feminista da Bíblia em uma perspectiva adventista. A pesquisa, cujo conteúdo completo pode ser lido aqui, avalia alegações teológicas de autoras representativas dos feminismos, em fontes primárias, desde a Primeira Onda até a contemporaneidade, o que inclui declarações de ativistas e teólogas feministas a respeito da Bíblia. Por meio desta pesquisa, é possível concluir que há uma tensão significativa entre a visão feminista majoritária e a perspectiva adventista a respeito da Bíblia.

Existem consequências teológicas nas proposições feministas. Isto é, feministas fazem alegações teológicas (e não apenas sobre direitos iguais), mesmo as feministas que não estão diretamente ligadas ao trabalho teológico.  Por isso, tais declarações devem passar por uma avaliação teológica.

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Críticas feministas

As críticas feministas contemporâneas da religião podem ser classificadas em duas propostas: 1) o abandono, e 2) a desconstrução/reconstrução. O feminismo cristão está localizado no segundo grupo, e é essencialmente desconstrutivista, e tenta “redimir” o cristianismo dos efeitos nocivos do patriarcado, mas a custo de relativizar e negar doutrinas.

Nenhuma das duas propostas parece estar em harmonia com a visão adventista das Escrituras, e muitas mulheres conscientemente rejeitam se identificar como feministas por tudo o que o termo atualmente conota. Elas preferem lutar pela igualdade e pelos direitos legais das mulheres com base nas alegações de verdade apresentadas no evangelho.

Mesmo reduzindo os feminismos à “luta por igualdade”, é evidente que a luta passa pela desconstrução de conceitos e de instituições considerados patriarcais, e isso tem profundas consequências que não podem ser ignoradas. Ou seja, na luta, a Bíblia e o cristianismo se tornam alvos de desconstrução.

Apesar de haver diversidade, uma das crenças básicas comuns a várias vertentes feministas, a teoria do patriarcado, atinge os fundamentos da fé cristã, pois redefine a Bíblia, instituições como o casamento e a família, e a identidade sexo/gênero. Assim, uma pergunta que uma feminista cristã inevitavelmente teria que responder é: seria possível ser uma feminista bem informada sem acreditar na(s) teoria(s) do patriarcado?

Conciliação possível?

Poucos grupos feministas evangélicos têm tentado, sem sucesso, manter uma plataforma ao mesmo tempo feminista e com uma visão das Escrituras como inspirada e infalível Palavra de Deus: o chamado “feminismo bíblico”. Mas a influência do feminismo bíblico é reduzida, quase irrelevante. Fato é que, em geral, a Bíblia é encarada como literatura tão profundamente manchada de patriarcado que não resta alternativa a não ser desfigurá-la. Mulheres cristãs precisam saber disso ao interagir com teorias feminista, e fazer objeção e contrapontos a isso – não há espaço para ingenuidades aqui.

Porém, fazer objeção à teologia feminista não implica negar a validade da maioria das alegações feministas sobre a opressão das mulheres. Sem dúvidas, existem pontos de concordância entre as reivindicações do evangelho e algumas das reivindicações feministas.

Resumidamente, os feminismos fazem diagnósticos corretos, mas apontam soluções equivocadas, como admite Bell Hooks: “somos melhores em nomear o problema do que em pensar em uma solução para ele”. Vários problemas que as feministas identificam são reais. Mas, o fato de fazerem algumas denúncias corretas não dá aos feminismos a capacidade de fazerem afirmações sempre corretas sobre Deus, Bíblia, família, etc.

A análise de documentos feita na versão completa da pesquisa mostra que, em geral, as teólogas feministas estão mais comprometidas com os feminismos do que com a teologia cristã. Para não ver uma tensão entre ser adventista e feminista, será preciso desconsiderar livros essenciais da bibliografia feminista básica e suas afirmações mais contundentes sobre Deus, a Bíblia, família, casamento, maternidade, pecado etc. Ou será preciso desconsiderar o que a Bíblia ensina sobre os mesmos tópicos. Isto é: para não ver tensão entre feminismo e adventismo, será preciso não levar a sério o feminismo. Ou o adventismo.


Vanessa Meira é pedagoga, mestre e doutoranda em Teologia e Isaac Malheiros é doutor em Teologia e professor no Instituto Adventista Paranaense (IAP).

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