Notícias Adventistas

“A comunicação tem a ver com perder tempo com o outro”, afirma estudioso da Comunicação

Tales Tomaz, Mestre em Comunicação e professor do Unasp, comentou sobre o tema do segundo capítulo de Esperança Viva

11 de maio de 2016
Segundo capítulo do livro "Esperança Viva" aborda a influência da tecnologia nos relacionamentos

Segundo capítulo do livro “Esperança Viva” aborda a influência da tecnologia nos relacionamentos

No próximo sábado, 14 de maio, adventistas de todo o Brasil vão distribuir mais de 14 milhões de exemplares de Esperança Viva. O livro, escrito por Ivan Saraiva, tem um capítulo dedicado para discutir a questão dos relacionamentos. Para o autor, “a internet tem tirado o tempo que deveria pertencer a Deus, aos nossos filhos e a nós mesmos”.

Corroborando com a visão de Saraiva, o Mestre em Comunicação e professor do Unasp Tales Tomaz, critica a relação da palavra Comunicação com a tecnologia, que geralmente fazemos. De acordo com ele, Comunicação não é a simples troca de informação. Para ela acontecer, é necessário que duas ou mais pessoas confrontem ideias e, em algum momento, cheguem a um consenso real. “Nós nos comunicamos toda vez que, na relação com a outra pessoa, esse outro é alguém importante para nós”, analisa. Tomaz ainda defende que a forma para demonstrar que alguém é importante é gastando tempo com o outro – e isso se aplica inclusive no relacionamento com Deus. “Para as pessoas que querem ter uma aproximação espiritual com Deus, não adianta elas terem uma relação tecnológica com Deus”, alerta.

Portanto, para Tomaz, nós não nos comunicamos tanto quanto pensamos nos comunicar. Essa falta de comunicação afeta relacionamentos entre pais e filhos, casais e entre o homem e Deus. Confira a entrevista a seguir.

 

ASN – Hoje, a tecnologia e as redes sociais permitem que as pessoas estejam conectadas 24h por dia, numa troca de informações nunca antes vista. Podemos dizer que vivemos na Era da Comunicação?

 

Tales Tomaz – Isso depende da definição de comunicação. Na verdade, estamos numa era de troca de informação. Se isso significa de comunicação de fato, depende do nosso conceito de comunicação. A troca de informação pode ser entendida como comunicação, mas de uma perspectiva técnica. E isso trás alguns problemas. O primeiro é que o conceito técnico de comunicação está atrelado ao pensamento tecnológico. O desenvolvimento da tecnologia nos trouxe não só novas ferramentas, mas também influenciou nossa forma de pensar. O surgimento da tecnologia fez a gente passar a ver as nossas conversas com as pessoas como troca de informação. O problema é que o pensamento tecnológico é apenas uma visão do momento, bastante eficaz e eficiente é verdade, mas não o único conceito.

ASN –  Então, para você, o que é Comunicação?

TT – A comunicação é difícil de definir. Eu diria que a comunicação é tornar algo em comum, trabalhar em um terreno comum com outra pessoa. Você estabelece um diálogo com uma pessoa, mas nesse diálogo é necessário você ter um terreno em comum, não necessariamente pleno. Isso significa que precisamos ter uma certa empatia em um determinado aspecto para que, quando a gente estiver falando sobre alguma coisa, aquilo faça sentido para o outro. Se ficar meramente na troca de informação, você adquire informação, fortalece convicções, mas você não esteve em comum com outra pessoa. Comunicação tem muito a ver com essa raiz da palavra, colocar algo em comum.

ASN – Diante desse conceito da Comunicação e até que ponto, de fato, nos comunicamos?

TT – Pro pessoal da técnica nós nos comunicamos o tempo todo, nós não podemos não nos comunicar. Esse é um extremo. O outro extremo é de que nunca, ou raramente podemos nos comunicar. Eu vejo a comunicação entre esses dois extremos. Nós nos comunicamos toda vez que, na relação com a outra pessoa, esse outro é alguém importante para nós, aquilo que ele está falando fez sentido para mim. Toda vez que isso acontece, acontece comunicação. Então tudo depende de como nós nos relacionamos com o outro: se nós nos relacionamos com o outro com pressa, tentando pegar dele somente aquilo que precisamos e ir embora, aí a gente não está se comunicando. Mas quando a gente quer saber, de fato, a opinião do outro e que a presença dele nos faz reconsiderar a minha presença, há comunicação.

ASN – Como isso afeta os relacionamentos?

TT – A partir do momento que você considera o seu cônjuge como alguém que você precisa extrair coisas, seja sexo, status ou até mesmo boa companhia, você caminha no sentido contrário ao da comunicação. Se isso é uma constância na vida dos casais, por exemplo, a tendência é que a comunicação se extinga entre o casal. Agora, quando o cônjuge é alguém que tem a liberdade de ser ele mesmo, de me surpreender, me questionar, impor limites naquilo que eu mesmo quero e passar a repensar e me colocar no lugar dele, enfim, quando eu tenho essa abertura com meu cônjuge, eu caminho no sentido da comunicação.

ASN – Como podemos aplicar esse conceito no contexto da Igreja Adventista?

TT – Na relação com os irmãos na Igreja é preciso passar a ter uma relação de mais interesse nas pessoas, não apenas interesse no sentido de usar a pessoa mas de abrir espaço para o outro na minha vida. Usar poderia ser: “eu quero encontrar com o João só para ele me passar o que eu preciso fazer para a programação”. Isso é ter uma relação tecnológica com o outro. Agora, uma relação comunicacional com o João é assim: “eu quero encontrar com o João porque eu quero estar junto com ele e ouvir dele o que ele pensa da vida, eu quero pensar no que o João está pensando”. Isso é fundamental para a gente acolher o outro e para gente ter comunicação com o outro. Ainda mais para a gente que segue os ensinamentos de Jesus Cristo, que sempre foi uma pessoa extremamente atenciosa. A gente pode pensar isso como um modelo para nossas relações. Se a gente ver Jesus na Bíblia, ele nunca está apressado, nunca precisa passar rápido demais por alguém. Ele sempre precisa estar com aquela pessoa o tempo que é necessário.

ASN – Isso também afeta nosso relacionamento com Deus?

TT – Também, pois aí temos a tendência de querer usar Deus como um objeto. Então Deus passa a ser alguém que atende meus desejos. “Senhor me dê um trabalho, um aumento, uma nota boa na escola, me faça isso, aquilo, eu tenho esse pedido”. Com isso, a gente deixa de ter a relação com Deus de querer abrir espaço para Ele na nossa vida. Para as pessoas que querem ter uma aproximação espiritual com Deus, não adianta elas terem uma relação tecnológica com Deus, esse Deus atendedor de pedidos. Essa pessoa precisa abrir espaço para ouvir e entender a Deus como um outro que as vezes nos surpreende, que faz coisas que nós não esperávamos, que as vezes é de um jeito que nós não esperávamos. Então, tanto no relacionamento com as pessoas como com Deus, a comunicação tem a ver com ter tempo, perder tempo com a outra pessoa e estar aberto. [Equipe ASN, Lucas Rocha]

Veja Também


Comentários

WordPress Image Lightbox