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Especialista explica por que crianças e adolescentes são os principais alvos de abuso sexual

Quase 80% dos casos de abuso sexual no Brasil são contra quem está nessa faixa etária.

Por Carolina Inthurn 14 de agosto de 2019

Por medo de consequências, a maioria das vítimas não conta aos outros sobre agressões (Foto: Divulgação)

Entre 2011 e 2017 foram notificados 184.524 casos de violência sexual no Brasil, sendo 58.037 (31,5%) contra crianças e 83.068 (45,0%) contra adolescentes, concentrando 76,5% dos casos notificados nesses dois cursos de vida. Os dados são de um Boletim Epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde em junho do ano passado.

O número mostra que crianças e adolescentes são os principais alvos de violência sexual no Brasil. Para entender melhor essa relação, a Agência Adventista Sul-Americana de Notícias conversou sobre o assunto com o médico especialista em psiquiatria Fabrício Vinícius.

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Doutor, estima-se que no Brasil a cada 15 minutos uma criança ou adolescente seja vítima de abuso ou exploração sexual. Por que esse público é o alvo mais fácil de abuso sexual?

Geralmente a criança é mais inocente, ingênua e pueril, não colocando maldade naquilo que nós, adultos, já consideramos ser mal. Já os adolescentes são mais influenciáveis. Temos também um agravante muito importante: na maioria dos casos, os abusadores são pessoas que a criança ou adolescente confia, convive e ama. Infelizmente, isso as torna mais vulneráveis a esse tipo de situação.

É possível traçar o perfil do abusador?

A maioria dos abusadores são pessoas conhecidas da criança. Uma pesquisa mostrou que em quase 90% dos casos de abuso sexual infantil, os abusadores eram pessoas da própria família. Precisamos entender que o abusador está muito mais perto do que se imagina. Evidentemente que não é só no núcleo familiar. Há amigos, vizinhos, educadores e até mesmo profissionais da área do esporte, saúde e também no meio religioso.

O abusador é alguém muito sedutor, acima de qualquer suspeita, sempre se colocando de forma gentil e bondosa, atraindo as crianças com recompensas e conquistando sua confiança. Em geral, gostam de estar sozinhos com as crianças e os adolescentes em locais isolados. Há casos também de abusadores que têm históricos relacionados a problemas com abuso ou até mesmo com sua própria sexualidade.

O poder da conscientização é muito importante nessa realidade, porque muitas vezes não se está presente ao ocorrer um episódio de abuso sexual infantil. Na sua visão, qual importância da conscientização por parte da sociedade?

É de extrema importância que a gente quebre esse silêncio sobre o assunto. As estimativas, de acordo com a maioria dos autores, não condiz com a realidade. Isso gera uma despreocupação da sociedade que consequentemente não alarma. Temos também a questão dos tabus: preconceito, vergonha e medo, fazendo com que as pessoas não relatem o que está acontecendo.

Sem quebrar o silêncio as famílias vão continuar sendo destruídas, crianças e adolescentes serão devastados e abusadores continuarão impunes, repetindo seus atos. É muito melhor “pecar” pelo excesso de cuidado – se é que posso dizer assim -, do que pela falta.

Em muitos dos casos, a falta de conhecimento dificulta o processo de identificação de um possível caso abuso sexual. Qual a melhor forma de identificar quando isso acontece?

É importante ressaltar que essa violação não quer dizer um ato de penetração. Infelizmente, muitas crianças serão estimuladas, forçadas e constrangidas a fazerem sexo oral em adultos, tocando e manuseando seu órgão sexual. Com isso, a gente começa a perceber que os sintomas podem se dividir em dois grupos: físicos e psíquicos. Por exemplo, para uma criança que já não mais fazia xixi na cama, começar a fazer novamente é um caso de regressão. Logo, tem alguma coisa errada. Outros aspectos físicos são dores na barriga e cabeça, falta de apetite e ânsia de vômito. Todos esses sintomas que começam a acontecer com uma frequência diferente do habitual precisam de atenção.

Outros sintomas são os psíquicos. A criança pode começar a ficar mais calada e agressiva, tendo comportamentos e condutas que outrora não tinha. É interessante ressaltar que a criança geralmente desenvolve afeto por alguém próximo, percebendo que esse afeto não mais existe. Devemos ficar atentos. Por que antes ela gostava de ficar próximo e agora ela não mais expressa uma emoção positiva em relação àquele adulto? Existem muitos sintomas, mas o mais importante é não negligenciar. Não podemos descartar que pode ser decorrente de abuso sexual. A negligência dificulta na percepção.

Ouça toda a entrevista com o doutor Fabrício Vinícius no episódio Nem Tudo é Doce do podcast Em Pauta.

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