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Como viver no presente século?

O presente século é caracterizado por relações consideradas líquidas. De que maneira isso pode afetar a própria crença em Deus?

Por Neide Fischer 27 de abril de 2021

Tempos líquidos afetam a própria maneira de se enxergar a religião e Deus. (Foto: Solve Sundsbo)

Os laços humanos estão cada vez mais frágeis e isso ficou mais evidente na pandemia, em que o número de divórcios cresceu mais de 50% em 2020. Hoje, “até que a morte nos separe” tende a ser substituída pelo “o que cada um pode ganhar”. O sociólogo Zygmunt Bauman chama tudo isso de modernidade líquida.

Para ele, esse fenômeno de liquidez cultural e social está associado à ideia de relacionamento entre pessoas, amigos, família, sociedade, enfim, todas como relações transitórias, flexíveis, que gera um amor superficial e moldável como é a água ao seu recipiente modelador. E aqui entra a pergunta: como viver em tempos de liquidez e enfrentar os desafios da sociedade líquida?

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Relativização

Além de relações, a ameaça desse fenômeno é, também, teológica. Por exemplo, a história das origens do ser humano, o Éden, os dias literais de Gênesis, a queda e redenção em função do pecado, tudo isso é uma metanarrativa, ou seja, uma explicação de acontecimentos que cremos ser verdades absolutas. Todavia, existe o risco do relativismo e a liquefação alcançar a mente dos fiéis, e o cuidado que se deve ter é comparado ao que Paulo aconselhou:

“Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo” (Colossenses 2:8).

Um outro resultado desse estado é que as religiões podem se tornar customizadas em uma liquidez que apela ao individual. Não se pode, de acordo com a sociedade líquida, falar sobre certeza ou afirmar verdades. É, na dúvida, que cada um se apropria dela como referência para a vida; tudo que foi sólido (autores consagrados, ideias, pensamentos, discursos) está no banco dos réus. Vivemos em um período difícil caracterizado por mais perguntas que respostas, mais problemas que soluções.

Ou seja, não existem padrões fixos e a individualidade aflora e torna impossível uma regra: as certezas antes agraciadas derretem. De acordo com o próprio sociólogo, viver em uma multidão de valores, normas e estilos de vida em competição, sem uma garantia firme e confiável de estarmos certos, é perigoso e cobra um alto preço psicológico.

Conveniências e não convicções

No início do século XX, os valores e as instituições eram bem definidos e, quando se esperava um processo de ruptura ou revolução, um sólido era substituído pelo outro. Agora, a convicção é quebrada e o fluido assume formas de conveniência como reflexos de suas próprias vozes.

Um exemplo prático do que ocorre dentro da igreja é a transformação de dogmas aos prazeres da clientela, num caso típico de igreja a la carte. Como disse Rodrigo Silva na série Adventismo em tempos líquidos, “as pessoas ficam na igreja por conveniência, não têm convicções”.

Afirma ele, ainda, que “elas têm formas e ficam nelas enquanto lhes for conveniente, quando essa forma quebra, elas também derramam como água porque são líquidas”… não ficam firmes por muito tempo, elas não querem vir à igreja para serem incomodadas em seus hábitos”.

Para o filósofo e teólogo, “as pessoas não querem vir para ser a serva de uma mensagem de Deus, mas como um cliente que assume a conta de um banco, e cliente sempre tem razão, e o dia em que a música ou o pastor não agradar, ela sai ou muda. Isso é cristianismo líquido.”

Dessa forma, temos um problema, porque no cristianismo existem absolutos bem definidos, apesar do espírito de nossa época (zeitgeist) tornar líquidos os sólidos, e corromper o sagrado.

Liquidez de pensamento

Os cristãos, por vezes, já têm se infectado com a liquidez de pensamento. É possível observar que, nas mais variadas denominações, não se crê na literalidade da metanarrativa de Gênesis como dias literais. Junto com isso, vem a união da teoria do evolucionismo darwiniano ao texto sagrado – uma adaptação característica dos séculos 20 e 21, que transforma as estruturas solidificadas. Todo esse clima cultural e intelectual do mundo traz o colapso do pensamento sólido criacionista, adentrando em fundamentos antes não mexidos; a identidade fica comprometida.

Alguns argumentam que o conceito por detrás do sábado é válido, mas o dia não, pois pode ser outro. Neste caso, entra a relativização já abordada e a liquidez de pensamento. Você é líquido ou sólido? Relativista ou remanescente? Será que seus pensamentos e atos se conformam com o presente século?

Lembre-se: em tempos de liquidez, os relacionamentos sofrem, a teologia muda, nada é feito para durar, mas o remédio para a liquidez está na Bíblia.  Paulo diz que “não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Romanos 12:2).

Neide Fischer é jornalista, professora de arte e membro do grupo Cientistas Adventistas.

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