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Instituição ajuda a preservar e expandir ensino do criacionismo no Brasil

Produções, núcleos e seminários são ferramentas empregadas pela Sociedade Criacionista Brasileira para ampliar alcance da cosmovisão que está baseada na Bíblia e na ciência.

Por Mauren Fernandes 17 de julho de 2019

Doutor Ruy Camargo Vieira examina registro de visitantes no Centro Cultural da Sociedade Criacionista Brasileira, em Brasília. (Foto: Mauren Fernandes)

O jovem Ruy Carlos de Camargo Vieira foi criado sem nenhuma instrução religiosa. Até a faculdade, considerava-se ateu e seu encontro com a Bíblia e o criacionismo, no fim da graduação, é definido por ele como “providência divina”. Logo após se formar em Engenharia Mecânica-Eletricista na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), foi para o Vale do Paraíba ser professor no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Por lá, não ficou muito tempo e foi indicado para lecionar no departamento de Engenharia da USP em São Carlos, no interior do Estado de São Paulo. 

Em 1969, quando um de seus filhos, Rui Corrêa Vieira, estava cursando o chamado “científico” no antigo Instituto Adventista Campineiro (hoje Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp), campus Hortolândia), notou-se a falta de professores criacionistas. Como resultado, muitos alunos começaram a ter conflitos com suas crenças. Vieira então decidiu viajar de São Carlos para Hortolândia, todas as semanas, e ensinar física na instituição, de forma totalmente voluntária, para manter vivo o ensino do criacionismo bíblico, que já era fundamental em sua vida.

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Mas foi em uma “Semana da Cultura”, promovida pela igreja adventista de São Carlos em 1970, que tudo começou. Um dos palestrantes era o professor Orlando Ritter, pioneiro no ensino de ciência e religião na Educação Adventista. Ao falar sobre datações por carbono 14, Vieira ficou impressionado com o conteúdo que o amigo havia explanado, afinal, existia pouquíssimo material sobre o assunto no Brasil. Ao questioná-lo, Ritter disse que o conteúdo era original de uma sociedade criacionista norte-americana, a Creation Research Society.

Sem demorar, fez contato e se filiou à organização. Após receber os primeiros materiais, foi impressionado a publicá-los em português. E assim o fez. Com a autorização dos proprietários, Vieira lançou, de forma independente, a primeira Folha Criacionista. Como se não bastasse o entusiasmo do engenheiro, todos da família abraçaram o projeto. A partir dali, começava a Sociedade Criacionista Brasileira (SCB). A Agência Adventista Sul-Americana de Notícias (ASN) esteve na sede da instituição para conversar com os pioneiros e atuais gestores da entidade sobre a história e os sonhos para essa iniciativa.

Da esquerda para a direita, Rui Corrêa Vieira (diretor-executivo), doutor Ruy Vieira (fundador e atual conselheiro) e doutor Marcos Natal (presidente da SCB) durante encontro nas instalações da entidade (Foto: Mauren Fernandes)

Uma missão

O filho de Vieira, Rui, não só carrega o mesmo nome do pai, mas também a mesma paixão pelo criacionismo. Afinal, viu e participou de perto de cada fase da sociedade. Para ele, essa iniciativa faz parte do movimento que anuncia a segunda vinda de Cristo. “Isso é uma missão que Deus nos deu. Falar de criacionismo é pregar o evangelho através de uma das mensagens angélicas”, argumenta ao referir-se aos textos do capítulo 14 do livro do Apocalipse, nos versos de 6 a 12. Além de atuar no setor público, ele doa seu tempo livre para a SCB, onde ocupa o cargo de diretor-executivo.

Ao longo de sua trajetória, a entidade passou a produzir materiais e organizar eventos com o propósito de facilitar o acesso dos interessados às pesquisas e aos conteúdos que podem ajudá-los a formar uma cosmovisão criacionista. Segundo um dos vice-presidentes da sociedade, Michelson Borges, ela “é quase como um ‘porto seguro’ para os que desejam obter informação de qualidade e confiável”. Após quase 50 anos de história, mais de 96 edições da Folha Criacionista, que hoje se chama Revista Criacionista, já foram publicadas.  

Outros produtos também surgiram, como livros originais e traduções, DVD’s e kit’s para escolas. Além desses materiais, em todo o Brasil somam-se cerca de 10 núcleos de estudos criacionistas em cidades como Maringá, Curitiba, Recife e Porto Alegre, que são extensões da Sociedade. Outra frente de atuação é a promoção de seminários em todo o Brasil, sempre com o título “A Filosofia das Origens”. O primeiro deles aconteceu em 2002, no Rio de Janeiro, e, desde então, dezenas já aconteceram no País. 

A SCB compactua com o Criacionismo Bíblico, uma cosmovisão que agrega não apenas a teologia bíblica, mas também a ciência empírica ou experimental. Evidências como a origem da informação complexa específica, a complexidade irredutível e os registros fósseis são exemplos que validam o Criacionismo de forma científica.

O geólogo Marcos Natal de olho no acervo sobre o Antigo Egito. (Foto: Mauren Fernandes)

Oásis criacionista

Após muitos anos com sede em São Carlos, interior de São Paulo, a SCB precisava de um espaço que abrigasse todo o acervo adquirido ao longo dos anos pela família Vieira. Ao se mudar para a capital federal, o filho, Rui, cedeu um espaço no terreno onde morava para a construção do Centro Cultural da Sociedade, localizado na região do Lago Norte. Os dois pavimentos possuem exposições, auditório, salas de estudos e vasta biblioteca com livros e revistas para consulta sobre o criacionismo, design inteligente e evolucionismo.

Quem visitar o espaço encontrará, por exemplo, coleções de publicações, conchas, fósseis e réplicas de crânios; exposições de sequoias e árvores fósseis; maquete para estudo da Chapada do Araripe (sítio paleontológico localizado na divisa dos estados do Ceará, Pernambuco e Piauí); acervo de Bíblias e gemas citadas no livro sagrado. O local ainda abriga réplicas em miniatura da Arca de Noé e do santuário israelita, além de guardar todo acervo de documentos e escritos originais de Guilherme Stein Jr., o primeiro adventista do Brasil. Saiba como visitar o local clicando aqui, ou faça um tour virtual.

A maioria dos materiais expostos no local foram doados por amigos e apreciadores do tema. Um deles é Rubens Crivellaro, admirador da Folha Criacionista desde a década de 1970 e hoje um grande amigo de Ruy. Crivellaro reside em Brasília e comparece ao centro cultural quase diariamente.

Ruy e Rubens analisam a réplica do Santuário, que construíram em parceria. (Foto: Mauren Fernandes)

Preconceito?

Para Vieira, o desafio de ser um criacionista está em ser minoria. Conquistar credibilidade e espaço para ser ouvido implica em uma trajetória mais complicada do que para outros descrentes dessa teoria. Além do mais, geralmente os entusiastas do tema atuam de forma voluntária, o que requer maior amor pela causa. Outro desafio que ele identifica é o evolucionismo teísta. “Muitos cristãos acreditam que foi Deus quem criou tudo, mas que o processo todo foi de acordo com o evolucionismo”, alerta.

Para Borges, o criacionista deve andar milhas extras para estar sempre bem informado ao responder o desafio de 1 Pedro 3:15, que faz o convite: “Antes, santifiquem Cristo como Senhor no coração. Estejam sempre preparados para responder a qualquer que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês.” Além disso, ele frisa a necessidade de ter uma experiência pessoal de amizade e comunhão com Deus. “É impossível ser criacionista sem conhecer o Criador”, pontua.

Sobre o preconceito com a crença, o geólogo e atual presidente da SCB, Marcos Natal, opina que tudo depende da atitude que o cristão tem ao lidar com embates nas salas de aula, entre família ou amigos. Natal ressalta quatro posturas fundamentais que devem reger o criacionista genuíno:

  1. Convicção sobre o que acredita, no sentido de estar certo de que a Bíblia fornece o fundamento e as bases de pesquisa, interpretação e compreensão do mundo à nossa volta.
  2. Conhecimento profundo, não só sobre criacionismo, mas também sobre o que é ensinado pelas teorias evolucionistas e naturalistas. Quem vai à guerra sem conhecer as armas do inimigo está fadado à derrota;
  3. Respeito em qualquer circunstância, afinal, somos todos filhos do mesmo Deus. Devemos respeitar as pessoas, independente de quem elas sejam ou o que pensam;
  4. Humildade, pois, se tratando de ciência, ninguém é dono da verdade absoluta. É mais importante ganhar pessoas do que argumentos.

Paixão declarada

Além de ser um dos vice-presidentes, o jornalista Michelson Borges é o maior entusiasta do criacionismo na comunicação adventista no Brasil. À frente do portal criacionismo.com.br, publica inúmeros conteúdos que ajudam a fortalecer os alicerces da teoria, principalmente no território nacional.

Sua relação com o doutor Vieira foi iniciada nos anos 90, quando era estudante universitário e recém adepto do criacionismo. Na época, enviou algumas pesquisas que havia feito. “Ele a leu de capa a capa, deu-me atenção por telefone, o que fez aumentar ainda mais minha admiração por ele. Anos depois, eu teria o prazer e o privilégio de conhecer o doutor Ruy pessoalmente. Ele é uma referência para mim”, destaca.

Registro do primeiro evento criacionista em que Michelson participou como palestrante. “Essa foto é muito significativa. Estava palestrando com dois ícones para mim: Doutor Ruy e professor Orlando Ritter”, lembra. (Foto: Arquivo pessoal)

Sobre falar de criacionismo para uma sociedade envolta por tanta informação – e nem sempre verdadeira -, Borges afirma que é um desafio colocar uma roupagem interessante no tema. No entanto, considera animadoras as possibilidades que as redes sociais oferecem hoje, por exemplo. “Conteúdo já temos, portanto, o que precisamos é usar mais a criatividade na forma de apresentá-lo”, avalia.

Muito além do ensino

Desde 2018, a Sede Sul-Americana da Igreja Adventista estreitou fortemente os laços com a Sociedade Criacionista Brasileira em função da abertura de uma filial do Geoscience Research Institute (GRI) em Brasília. O GRI é o instituto criacionista oficial da Igreja Adventista no mundo, com sede em Loma Linda, Califórnia, e foi criado com o objetivo de promover, apoiar e difundir o criacionismo na denominação.

Apesar de não haver vinculo formal entre o GRI e a SCB, muito tem sido feito de forma colaborativa. O resultado dessa parceria aparece na produção regular de conteúdo para ser usado nas salas de aula da Rede de Educação Adventista, que sempre ensinou sobre o criacionismo, tendo por base a argumentação científica, sem, no entanto, impor crenças religiosas nem omitir a visão evolucionista.

Um sonho que aos poucos começa a tornar-se realidade é a implantação de um centro criacionista em cada uma das unidades da rede educacional no Brasil (e também nas unidades de países hispanos). Estes centros servirão de apoio para a igreja local e comunidade. “Com o tempo, o objetivo é avaliar as unidades pelo uso dos kits, certificando-as por níveis de excelência. Tudo para estimular o estudo e avanço do criacionismo, apresentando aos pequenos que existe uma cosmovisão bíblica de como tudo foi criado”, explica Natal.

Faça parte

Ficou interessado e quer se filiar à Sociedade Criacionista Brasileira? Acesse o site e confira os planos para Sócio Estudante e Sócio Regular. Além de ganhar duas revistas mediante filiação, os sócios recebem material digital todos os meses via e-mail e têm desconto em compras na loja do site, bem como em seminários Filosofia das Origens.

Veja mais fotos da visita ao Centro Cultural da SCB:

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