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Preconceito contra pessoas com HIV precisa ser vencido, diz médica

Em entrevista, a doutora Marina Malacarne esclarece questões sobre o vírus e ressalta a importância da informação no combate à discriminação

Por Vanessa Arba

O HIV infecta as células de defesa humanas, oprimindo o combate do organismo a infecções. (Foto: Shutterstock)

Para conscientização e combate a todo tipo de preconceito, a Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu a data de 1º de março como o Dia Mundial da Zero Discriminação. Tendo como premissas o respeito à diversidade e a defesa dos direitos humanos, o marco objetiva uma sociedade guiada pela tolerância, compaixão e paz.

De maneira específica, a Unaids (programa das Nações Unidas para combater o HIV e a AIDS) emprega a data para trabalhar campanhas de desmistificação e conscientização a respeito da síndrome, que, desde a sua descoberta, carrega um forte estigma.

Apoiados no princípio bíblico do amor e respeito ao próximo, os adventistas do sétimo dia também estão comprometidos com a causa. Conforme enunciado oficialmente pela Igreja, “a reação cristã à AIDS deve ser pessoal – compassiva, prestimosa e redentora. Assim como Jesus cuidava daqueles que tinham lepra, a temida enfermidade transmissível dos Seus dias, Seus seguidores hoje cuidarão daqueles que têm AIDS.” (Declarações da Igreja, p. 9).

É certo que muito do preconceito se deve à falta de conhecimento sobre a doença e suas formas de contágio. Para contribuir nesse sentido, a Agência Adventista Sul-americana de Notícias (ASN) conversou com a médica infectologista Marina Malacarne sobre o assunto. Veja a entrevista abaixo.

O que é o vírus HIV e como é a ação dele no organismo?

O HIV é um retrovírus que infecta os seres humanos [únicos vetores e hospedeiros], por isso se chama Vírus da Imunodeficiência Humana [na sigla em inglês]. Ele infecta os linfócitos, que são as nossas células de defesa, mais especificamente os linfócitos T CD4. É considerado um parasita dessas células por trocar seu material genético. A partir do momento em que ele faz essa troca, infecta o corpo de uma maneira irreversível. Isso evolui com uma queda importante das defesas e redução da imunidade, o que oprime o combate a infecções que seriam facilmente extintas em circunstâncias normais de imunidade.

Você afirmou que a infecção é irreversível. Isso significa que não há cura?

Não há cura. Temos medicações antirretrovirais que combatem a multiplicação viral no organismo. Hoje há “drogas” muito eficazes, que podem até tornar o vírus indetectável, ou seja, ele não circulará no sangue. Acontece que o nosso corpo possui “santuários do HIV”; lugares onde ele pode ficar “adormecido”, por exemplo: o sistema nervoso central e a Placa de Peyer [conglomerado de células de defesa do intestino]. A medicação impede que o vírus ali encubado se replique, mas não significa que a pessoa está curada.

Ser portador do HIV é o mesmo que ter AIDS?

Não. São duas coisas bem diferentes! A AIDS é uma síndrome (conjunto de sinais e sintomas que caracterizam uma doença). Para diagnosticar uma pessoa com AIDS [Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, na sigla em inglês], é necessário que, primeiro, ela seja infectada pelo HIV, depois, ter uma queda importantíssima dos linfócitos T CD4. Em um ser humano em condições normais de imunidade, o CD4 gira em torno de 800 a 1.200; para constatar AIDS, esses níveis têm que estar abaixo de 200. Com essa queda, começam a aparecer doenças oportunistas, e são elas que caracterizam a síndrome.

A nomenclatura “aidético” ainda é usada?

Não. Ela caiu por terra por ser uma nomenclatura estigmatizante. No início, a AIDS foi uma doença muito difícil. Até hoje as pessoas sofrem mais com o diagnóstico do que com a própria doença. Hoje, o termo mundialmente adotado é “pessoa que vive com HIV”.

E a nomenclatura “soropositivo”, a que se refere?

Refere-se à pessoa que tem uma sorologia (exame) positiva para o HIV, mas não, necessariamente, tem AIDS.

O HIV pode, por si só, causar outras doenças que não a AIDS?

Sim. Algumas doenças são atribuídas à própria infecção pelo vírus, como insuficiência renal, imunosenescência (envelhecimento mais veloz) e alterações nos níveis de consciência e cognição. E há uma fase antes da AIDS (quando o CD4 está entre 350 e 200) em que a pessoa não tem doenças oportunistas, mas começa a apresentar infecções repetidas, por exemplo: ao invés de ter uma pneumonia por ano, o que é “normal”, ela tem três.

Como identificar a infecção pelo HIV?

A AIDS tem três fases. Existe o HIV agudo, que é quando o paciente tem o primeiro contato com o vírus; em muitas pessoas isso pode passar despercebido, como uma dor no corpo, febre, e ser confundido com uma gripe. Essa fase pode durar de um a três meses. Depois dela vem o estado de latência, que é um período em que não há nenhum tipo de sintoma, e só é possível detectar o vírus por exames clínicos. É um período muito variável, comumente girando em torno de cinco a sete anos, mas podendo durar mais ou menos. E a última fase é a AIDS propriamente dita, em que o paciente começa a apresentar sinais da síndrome, e retornar aos seus níveis normais de imunidade é muito difícil.

O que deve fazer uma pessoa que suspeita de infecção pelo HIV?

Primeiramente, ela deve procurar um serviço de orientação de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). Hoje em dia, quase todas as cidades dispõem desses centros de orientação que fazem o teste de triagem na hora. Se esse teste der positivo, é feito um novo teste com uma metodologia mais avançada. Esse segundo exame é necessário porque existem, na medicina, os “falsos positivos”; os exames têm uma margem de erro mínima, mas que precisam ser confirmadas por outra metodologia. Se uma pessoa leiga faz um exame por conta própria, como esses de farmácia (que começarão a ser vendidos no Brasil), ela pode ter uma interpretação equivocada e um susto desnecessário. Além disso, se confirmada a infecção, a pessoa pode esconder o fato quando, na verdade, deveria ser orientada e acompanhada no tratamento. Então, o conselho de nós, infectologistas, é que a pessoa procure um centro de referência.

Para uma pessoa que vive com HIV, é possível levar uma vida normal?

Desde que ela tome os seus remédios regularmente e, do ponto de vista infeccioso, esteja tudo controlado, ela tem uma vida normal. Mas é importante que ela não abandone o tratamento. A medicação para o HIV é como para qualquer outra doença crônica, ou seja, o soropositivo terá de tomá-la pelo resto da vida.

Considerando mitos e verdades, quais são as formas de transmissão do HIV?

Ele é transmitido pela relação sexual, também de mãe para filho e pelo uso de perfuro-cortantes compartilhados, como seringas e drogas injetáveis [quando há contato com o sangue infectado].

Muitas pessoas temem que o beijo pode transmitir o vírus; isso é muito raro e só acontece se ambas as pessoas tiverem lesões na boca e haja troca de sangue, mas jamais se dá pelo simples contato com a saliva.

Em salões de beleza, nós aconselhamos que a pessoa use seus próprios itens para evitar não só o HIV, mas diversos tipos de problemas, como micoses e hepatites.

Há muitos anos, muitas pessoas foram infectadas pelo HIV por transfusão sanguínea; hoje há um controle rigoroso e esta deixou de ser uma preocupação.

Também é comum dizer que o compartilhamento de utensílios domésticos [como copos, sabonetes, toalhas, vaso sanitário, etc.] transmite o vírus, e isso não é verdade. Usar a mesma piscina também é uma possibilidade descartada.

Você acha que o preconceito em torno da AIDS tem embasamento?

De modo algum! Foi devido à forma como o HIV surgiu (em grupos de risco) que ele foi muito estigmatizado. Hoje nós já sabemos que não existem grupos, mas comportamentos de risco, como uma vida de promiscuidade e uso de drogas injetáveis. Eu sou contra esse preconceito! Acho que precisamos de campanhas para mudar a visão da sociedade em relação ao soropositivo, e também informar sobre formas de transmissão. Também acho que as famílias devem estar preparadas para lidar e apoiar o tratamento. Por fim, é preciso solucionar a falta de profissionais capacitados para dar suporte a pacientes com HIV – somos poucos infectologistas no Brasil -, bem como é necessário creditar a devida importância a esse profissional!

Doutora Marina da Rós Malacarne é médica infectologista. (Foto: Arquivo pessoal)

Sobre comportamentos de risco, a Igreja Adventista declara:

“Durante muitos anos, os adventistas têm lutado e continuam lutando contra a circulação, a venda e o uso de drogas. Eles apoiam a educação sexual que inclui o conceito de que a sexualidade humana é um dom de Deus à humanidade. A sexualidade bíblica limita, claramente, as relações sexuais a um cônjuge, e exclui os relacionamentos promíscuos e todos os outros tipos de relações e o consequente aumento e exposição ao HIV.” (Declarações da Igreja, p. 9).

 

 

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