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Ciência

Fé, religião e pesquisa científica

A pesquisa científica oferece contribuições para a sociedade, inclusive aos religiosos. Entenda mais sobre isso nesta entrevista com doutor Allan Novaes.


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A ciência produzida por uma universidade confessional provê à igreja instrumentos, dados e repertório teórico-crítico para refletir mais sobre si mesma, sobre sua identidade, missão e teologia, e sobre sua atuação na sociedade. (Foto: Unplash)

Qual é a importância da pesquisa científica? A pergunta se torna ainda mais pertinente em tempos de tanta discussão sobre o papel dos estudos produzidos em universidades. E, no âmbito de uma instituição de ensinos superior confessional, como é o caso dos centros mantidos pela Igreja Adventista do Sétimo Dia, de que maneira a pesquisa científica pode ser encarada?

De 22 a 24 de outubro, de forma totalmente on-line (https://linktr.ee/IICCA), ocorrerá a segunda edição do Congresso dos Cientistas Adventistas. Trata-se de um encontro, organizado por adventistas com forte atuação acadêmica no Brasil e em outros países. Trata-se de um encontro com abordagem de diferentes áreas do conhecimento humano, sempre por uma perspectiva de pesquisadores adventistas.

Aproveitando este evento, a Agência Adventista Sul-Americana (ASN) resolveu conversar a respeito da questão de fé e pesquisa científica. O entrevistado é Allan Macedo de Novaes. Ele é teólogo e jornalista formado pelo Centro Universitário Adventista de São Paulo (UNASP), mestre em Comunicação Social pela Umesp e doutor em Ciência da Religião pela PUC-SP, com período de pesquisador-visitante na Andrews University e na University of Notre Dame. Atualmente trabalha como Pró-reitor de Pesquisa e Desenvolvimento Institucional e professor do Mestrado em Promoção da Saúde e da Faculdade de Teologia do UNASP.  

Contribuição da pesquisa científica

De que maneira você vê a contribuição da pesquisa científica, feita em universidades confessionais, para o desenvolvimento espiritual das pessoas?  

Desenvolvimento espiritual está associado a quatro dimensões de relacionamento da vida humana: relacionamento consigo mesmo (autoconsciência, autoafirmação e autocrítica), relacionamento com o outro (seres humanos), relacionamento com o mundo (natureza e estruturas sociais) e relacionamento com o divino (Deus e as coisas espirituais).

Diante dessa classificação, o conhecimento científico é um elemento útil e importante para embasar e auxiliar o crescimento nessas dimensões que descrevi. A partir das investigações científicas e do acúmulo de saber na literatura acadêmica, encontramos não somente as histórias compartilhadas daqueles que vivenciaram erros, acertos e desafios do crescimento espiritual nessas quatro dimensões, mas, também, encontramos conceitos, teorias e padrões que podem apontar caminhos e abordagens cruciais para se compreender a si mesmo, o outro, o mundo ao redor e as coisas espirituais.

Devemos lembrar que, além da revelação máxima já dada à humanidade – a pessoa de Jesus – em conjunto com a revelação especial nas Sagradas Escrituras, Deus também se revelou por meio do mundo natural, dos acontecimentos da história e da consciência e do pensamento humanos. Ainda que, nesses três últimos casos, a revelação tenha se tornado imprecisa pelo fenômeno do pecado. Sendo a revelação de Deus algo difuso, ainda que com hierarquia e confiabilidade distintas em suas formas, entendemos que a boa ciência pode promover melhor compreensão sobre a existência do complexo conflito cósmico entre o bem e o mal e sobre o plano de Deus para redimir a humanidade.

Impactos para a organização religiosa

E, no nível institucional, também há impactos para uma organização religiosa a pesquisa científica? 

Cabe ressaltar que o conhecimento e a investigação científicas não colaboram somente em nível pessoal, mas na esfera institucional. A organização religiosa que se vale de uma universidade como produtora de informação, dados e pesquisa ganha uma aliada estratégica para planejamento, análise e tomada de decisões.

A ciência produzida por uma universidade confessional provê à igreja instrumentos, dados e repertório teórico-crítico para refletir mais sobre si mesma, sobre sua identidade, missão e teologia, e sobre sua atuação na sociedade. No final das contas, produzir e confiar nas descobertas da ciência realizada sob a cosmovisão bíblico-cristã é reconhecer, como se costuma falar, que “Deus não fará por nós aquilo que Ele nos deu capacidade de fazer por nós mesmos”.

Avanços significativos 

Quais as áreas em que você tem percebido grandes avanços em termos de pesquisas realizadas nas instituições adventistas no Brasil e no mundo?  

Em se tratando de Brasil, pelos contatos com os pares e participação em eventos da igreja, entre outras observações, me parece que as áreas de Teologia, Saúde e Educação ainda são os campos com a maior quantidade de pesquisadores adventistas alocados e com a maior quantidade de estudos e publicações.

Esse trio tem sua força ligada à história de nossos pioneiros e ao desenvolvimento da igreja em suas primeiras décadas, e isso se reflete, ainda hoje, em termos de produção científica nas instituições adventistas ao redor do mundo. Contudo, no Brasil, é possível dizer que, nas duas últimas décadas, algumas áreas emergentes estão formando um corpo consistente de pesquisadores, com publicações que têm procurado dialogar com nossa fé, destacando-se Comunicação Social, Direito, Gestão/Administração e Tecnologia.

Curiosamente, se olharmos para a produção científica brasileira feita que tem como objeto o estudo do adventismo e que é feita fora de nossas instituições, o tripé teologia-saúde-educação permanece como as áreas onde mais se estuda sobre a nossa igreja. Maiores detalhes sobre esse levantamento feito em universidades públicas e particulares no Brasil podem ser encontrados no livro O adventismo na academia brasileira, organizado por mim e pelo Dr. Rodrigo Follis.

Essa obra acabou dando origem a um projeto que o UNASP lançará ainda este ano e que reunirá em uma plataforma online, com sistema de busca, dissertações e teses que estudaram o adventismo no Brasil desde a década de 1970 até hoje. Dessa forma, além dos dados da produção científica feita por instituições adventistas, teremos em breve um mapeamento do que a academia brasileira não-adventista tem pesquisado sobre nós – quais áreas são mais recorrentes, quais temas são mais investigados, e assim por diante.

Melhorias no futuro

Em que pontos exatamente as instituições adventistas ainda podem avançar, em se tratando de pesquisas científicas quanto à qualidade, divulgação e engajamento de jovens pesquisadores?  

Creio que, além de fortalecer o tradicional tripé teologia-saúde-educação, é importante consolidar novas áreas de pesquisa através das quais a igreja pode ser abençoada mais diversamente. Para isso é preciso continuar formando novos pesquisadores, capacitando-os nas mais diversas áreas do saber, mantendo sempre o foco de integrar a fé adventista com o campo do saber em questão.

Investimento em capital humano é, sem dúvidas, um imperativo para o desenvolvimento tanto das universidades quanto da igreja em si. Cabe às universidades confessionais formar os intelectuais e pesquisadores do futuro, que ajudarão a igreja a pensar a si mesma frente os desafios que cada geração tem de lidar. Outro ponto fundamental é a divulgação científica. Ainda há uma distância muito grande entre igreja e universidade. São ecossistemas distintos, com lógicas e linguagens próprias, mas que possuem a mesma missão e propósito.

Por isso, é preciso investir na “tradução” do saber científico na linguagem que administradores, pastores, servidores e, especialmente, membros entendam e enxerguem utilidade e relevância prática, comunitária e/ou eclesiástica. O acesso do pastorado e dos membros às grandes pesquisas e estudos gerados das universidades adventistas proporciona uma série de benefícios. Entre eles o fortalecimento da noção de que o conjunto de crenças adventistas permite, sempre, novos insights e aprofundamentos, e o estímulo ao estudo constante da Bíblia e de temas fundamentais para o adventismo.

Adquirir o saber científico confessional em linguagem acessível e popular, por assim dizer, permite à igreja ajustar rotas de forma mais rápida e equilibrada diante de desafios e demandas importantes, e, também, fortalecer e/ou renovar práticas já convencionadas, mas que carecem de mais embasamento, entre outras vantagens.