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Uma análise bíblica de questões sobre racismo e escravatura

O que encontramos na Bíblia que trata do racismo, da discriminação étnica, da escravatura e temas relacionados de alguma maneira? Conversa com um teólogo.

Por Felipe Lemos 23 de dezembro de 2020

Tema da discriminação e, principalmente, da valorização da dignidade humana, está na Bíblia Sagrada. (Foto: Shutterstock)

Em tempos de profundas discussões a respeito de aspectos relacionados à discriminação racial, a Agência Adventista Sul-Americana resolveu conversar com um teólogo que analisa o tema pelo ponto de vista da Bíblia Sagrada. O diálogo foi com o pastor Silvano Barbosa. Ele é doutor (Ph.D) em Missiologia pela Andrews University (2017). Cursou o mestrado em Teologia Pastoral no Centro Universitário Adventista de São Paulo – Unasp (2010) e se graduou em Teologia na Faculdade Adventista da Bahia (1998). Tem experiência em Teologia Aplicada, atuando principalmente nas seguintes áreas: ministério pastoral, missão, mobilização de pessoas e organizações missionárias.

Atualmente é professor titular de Teologia do Centro Universitário Adventista de São Paulo e professor honorário na Universidad Peruana Unión. É casado com a enfermeira Lea Sampaio, com quem tem dois filhos, Davi e Liz. Ele produziu, em 2020, uma série de vídeos chamada Raça e as Escrituras, onde aborda vários aspectos do tema.

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Discriminação na Bíblia

O que efetivamente a Bíblia fala sobre igualdade racial e princípios que fortalecem a não discriminação étnica?

De acordo com a Bíblia, todos os seres humanos descendem de Adão e Eva, nossos ancestrais originais, que fazem de toda a humanidade uma só família (Gênesis 3:20). O relato da criação no livro de Gênesis (Gênesis 1:27) assegura a igualdade imutável e dada por Deus para todas as pessoas em todos os tempos, lugares e circunstâncias.

Deus “de um só homem fez todas as nações para habitarem sobre a face da terra” (Atos 17:26), e Jesus nos ensina a amar nosso próximo como a nós mesmos (Mateus 22:39). As distinções de raça, etnia, casta e tribo são usadas para segmentar e dividir pecaminosamente a unidade fundamental que Deus desejou que os seres humanos experimentassem com Ele e uns com os outros. Segundo os princípios bíblicos, aqueles que abusam dos outros devem ser devidamente levados à justiça e, por fim, enfrentarão o julgamento divino (Eclesiastes 12:14; Hebreus 9:27).

A Igreja do Novo Testamento ensina que Deus valoriza a diversidade e trabalha com a diversidade (Atos 13:1). João viu no céu uma grande multidão, “a qual ninguém podia contar, de todas as nações, e tribos, e povos, e línguas, que estavam diante do trono, e perante o Cordeiro, trajando vestes brancas e com palmas nas suas mãos” (Apocalipse 7:9). Essa é a multidão dos salvos, que reinarão com o Senhor eternamente. Eles estão lá porque foram comprados pelo sangue de Jesus! A partir do momento que se tornaram propriedade de Jesus, então passaram a fazer parte de um reino onde “já não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28).

Escravidão

Ao mesmo tempo, alguns críticos costumam falar que o tema da escravidão, que também está ligado a questões étnicas nos séculos recentes, é tratado com uma certa normalidade nos contextos bíblicos. O que pode ser dito sobre isso?

A escravatura era praticada por todos os povos antigos acerca dos quais há registro histórico: egípcios, sumérios, babilônicos, assírios, fenícios, sírios, moabitas, amonitas, edomitas, gregos, romanos e vários outros. Quando os escritores bíblicos mencionam a escravidão, eles estão descrevendo uma prática cultural comum nos territórios onde o povo de Deus estava habitando ou nas nações com as quais eles interagiam.

Ao mesmo tempo, havia pouco senso de diferença racial baseado na cor e a tonalidade da pele não era o critério utilizado para aqueles que se tornavam escravos. Em Gênesis 9:25, ebed (escravo) é usado no sentido de ser sujeito politicamente a um poder estrangeiro. Além disso, a lei judaica requeria que os escravos hebreus fossem libertos depois de seis anos de serviço; eles não poderiam ser forçados a trabalhar a vida inteira, a menos que essa fosse a escolha deles (Exôdo 21:2-7). Em alguns casos, escravos tinham posições de honra.

No Novo Testamento, escravos que se tornavam cristãos eram verdadeiramente considerados irmãos e companheiros de herança no reino de Deus. Eles eram solicitados a servirem fielmente aos seus senhores, como se estivessem servindo ao Senhor, embora também fossem aconselhados a comprar a sua liberdade (I Coríntios 7:21). Chegou um momento em que a cristandade assimilou o ensino bíblico de que o ser humano tem uma dignidade inalienável, porque é uma pessoa criada a imagem de Deus. Quando isso passou a permear a cristandade (territórios cristãos), foi que a escravatura passou a ser criticada e o próprio direito da prática existir passou a ser questionado. Não se tem conhecimento de nenhum movimento equivalente associado a abolição da escravatura em qualquer civilização não cristã.

Ações dos cristãos

O que se espera, biblicamente falando, em termos de ações concretas da parte dos cristãos quanto a questões raciais?

A Bíblia apresenta um ideal elevado acerca de como devemos lidar com a diversidade racial e isso é evidente na igreja de Antioquia (Atos 13:1).  Lucas destaca o grupo de líderes judeus e gentios que lideravam a igreja de Antioquia. Eram eles: Barnabé, que era Judeu, da ilha de Chipre; Simeão, o negro, provavelmente era do Norte da África; Lúcio, também era um africano de Cirene; Manaém era um palestino que, apesar de ter sido criado na corte de Herodes, também era um líder nesta igreja. E finalmente Saulo, cidadão romano da província da Cilicia, da cidade de Tarso.

Antioquia se tornou a base de lançamento da missão cristã a todo o mundo gentio. Deus trabalha com a diversidade. Ele criou todas as coisas com a propriedade da variação, matéria-prima da diversidade.  Ele escolheu um ambiente diverso, uma igreja diversa para estabelecer as primeiras equipes de missionários.  Deus criou a diversidade para que fosse uma vantagem. Se quisermos viver em harmonia o plano divino, devemos ser pessoas que buscam e valorizam a diversidade.

Pioneiros adventistas

Como os pioneiros adventistas enxergavam esta questão racial e como agiram em relação a isso?

Os pioneiros adventistas tinham um posicionamento bem definido contra a escravatura e isso é evidenciado de várias formas:

  1. Embora muitos adventistas mileritas evitassem associação com partidos políticos, porque normalmente esses partidos apoiavam a escravidão, um número significativo de pessoas se juntou ao Partido da Liberdade, que tinha como objetivo único a abolição total e imediata da escravatura.
  2. Em 1848, o Partido da Liberdade nomeou Gerrit Smith, um adventista milerita, guardador do sábado, candidato a presidente dos Estados Unidos.
  3. Pessoas negras não apenas eram aceitas na comunidade como, também, ocupavam funções pastorais. John West era um ex-escravo que se tornou ministro e lutou ativamente contra o racismo.
  4. Em 1852, os Platts receberam Tiago e Ellen White em sua casa em um tempo em que praticamente todos os nortistas brancos se recusavam a se associar publicamente com negros.
  5. Os adventistas fizeram petições contra a escravidão do sul dos Estados Unidos e o racismo do Norte durante das décadas de 1830 a 1860.
  6. Os adventistas do sétimo dia incorporaram argumentos abolicionistas às três mensagens angélicas (Apocalipse 14:6-12).

Primeiro episódio da série em vídeo:

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