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Por que o ensino sobre o santuário é importante para a fé cristã?

A atividade de Jesus no santuário celestial, com referências importantes na Bíblia, é um tema que deve interessar mais aos cristãos.

Por Felipe Lemos 24 de dezembro de 2019

Papel de Jesus no santuário é pouco explicado e entendido. (Foto: Good Salt)

A Crença Fundamental de número 24 da Igreja Adventista do Sétimo Dia é chamada de O Ministério de Cristo no Santuário Celestial. Na sua introdução, afirma que “há um santuário no Céu. Nele Cristo ministra em nosso favor, tornando acessíveis aos crentes os benefícios do Seu sacrifício expiatório oferecido uma vez por todas, na cruz”.

Em seu livro O santuário e as três mensagens angélicas, o teólogo Alberto Timm já chamava a atenção para o fato da importância da doutrina relacionada ao santuário na Bíblia, algo observado por pioneiros do movimento adventista como José Bates, Tiago White, F.R. Cottrell, Uriah Smith, Ellen White, entre outros.[1]

A fim de compreender melhor qual é a relevância da compreensão sobre o santuário para o desenvolvimento da vida cristã, a Agência Adventista Sul-Americana de Notícias (ASN) conversou com o doutor em Teologia Sistemática Adriani Milli Rodrigues. Atual coordenador da Faculdade de Teologia do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp), Milli tem um estudo sobre o sacerdócio de Cristo que foi publicado em 2018 nos Estados Unidos pela editora Fortress Academic. E é intitulado Toward a Priestly Christology: A Hermeneutical Study of Christ’s Priesthood.

Por que o entendimento sobre o significado do santuário apresentado no Antigo Testamento é tão importante para a fé cristã hoje?

Porque o tema do santuário, apresentado inicialmente no Antigo Testamento, permeia os ensinos das Escrituras como um todo. Apenas para dar alguns exemplos. No livro de Êxodo, a formalização do profundo relacionamento de aliança de Deus com seu povo tem como clímax a realidade do santuário. No livro de Levítico, a purificação, a adoração, o perdão e mesmo as festividades do povo de Deus têm como centro o santuário. Em Salmos, muitos das reflexões, orações e cânticos espirituais se relacionam com o santuário. Em Daniel, a discussão profética dos capítulos 7-9 trabalha com o conceito do santuário.

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No Novo Testamento, a realidade do santuário celestial é afirmada no livro de Hebreus, que descreve o santuário como lugar onde Cristo intercede pela nossa salvação. No livro de I Coríntios, a linguagem do santuário é utilizada para tratar do relacionamento do corpo de crentes, enquanto comunidade cristã (capítulo 3). E é, também, usada para discutir a pureza do corpo individual do cristão (capítulo 6), particularmente em termos de sexualidade. Na discussão profética do livro de Apocalipse, o santuário é uma imagem importante que aparece ao longo do livro. Além disso, ações espirituais de adoração, especialmente no contexto de cânticos, ações de bondade e cooperação são descritos pela linguagem do santuário como sacrifícios espirituais realizados pelos crentes (Hebreus 13:15-16).

Considerando que a fé cristã deve ser mediada pelas Escrituras, esses exemplos revelam que o estudo da Bíblia afirma a importância do santuário para se entender corretamente o que significa a vida cristã.

Quais eram as finalidades que Deus levou em conta para estabelecer o serviço do santuário aqui na terra?

De acordo com o ensinamento de Hebreus, o santuário da terra reflete de algum modo a realidade do verdadeiro santuário celestial (Hebreus 8:2, 5; 9:11), onde Cristo atua em nosso favor. Portanto, é importante destacar que o santuário na terra tem a ver com a realidade celestial, por meio do qual Deus se relaciona com os seres criados.

No contexto específico da construção do santuário no deserto, Êxodo 25:8 indica que o santuário deveria ser construído para que Deus habitasse no meio do seu povo, no contexto da aliança. Desse modo, enquanto reflexo da habitação celestial de Deus, o santuário na terra nos ensina algo sobre a habitação e presença de Deus na terra. E a respeito do relacionamento de suas criaturas com Ele. E isso se dá por meio dos ritos específicos, mediados pela figura sacerdotal e pelos sacrifícios realizados. Esse tipo de quadro apontava para o trabalho de Cristo hoje no santuário celestial, que permite que tenhamos um relacionamento de aliança com Deus.

Nesse contexto, poderíamos dizer que a finalidade de Deus com o estabelecimento do santuário terrestre é dupla: (1) uma antecipação do relacionamento dos seres humanos com Deus em seu verdadeiro santuário; (2) um ensinamento ritual (por meio de ritos de sacrifício e mediação sacerdotal) do que significa para o ser humano pecaminoso estar na presença de Deus.

Relevância doutrinária

Quais três princípios importantes você destaca no que podemos chamar de doutrina do santuário?

(1) Presença de Deus: o significado básico do santuário é a presença e habitação de Deus no meio de seu povo (Êxodo 25:8). Ao estudarmos a doutrina do santuário, aprendemos lições importantes acerca de como o Deus santo pode estar presente em um mundo ainda marcado pelo pecado. Isso informa especialmente a nossa compreensão de espiritualidade, visto que o Novo Testamento utiliza a linguagem do santuário para descrever tanto o corpo de crentes (I Coríntios 3) e o corpo individual (1 Coríntios 6), no sentido de que Deus habita no meio dos crentes e na vida do crente.

(2) Salvação em Cristo: o serviço do santuário era marcado por ritos de sacrifícios e, também, pela mediação sacerdotal. De acordo com a teologia de Hebreus, tanto os ritos sacrificais quanto a mediação sacerdotal se cumprem em Cristo, por meio de seu único sacrifício de uma vez por todas (Hebreus 7:27; 10:10) e sua mediação contínua (Hebreus 7:25; 9:24). Com base na doutrina do santuário, podemos entender melhor o que significa a morte de Cristo, bem como a importância salvífica de sua ressurreição e ascensão.

(3) Profecia: a presença do tema do santuário nas profecias de Daniel e Apocalipse indicam que a realidade das ações divina no santuário celestial se relaciona diretamente com a história desse mundo e leva ao desfecho final do juízo e dos propósitos de Deus em sua resolução do problema do pecado.

E sobre a realidade de um santuário celestial? Por que, biblicamente, podemos acreditar nisso e há uma importância nesta realidade?

Conforme as respostas às questões anteriores enfatizam, as Escrituras ensinam sobre a existência do santuário celestial. Como exemplo desse ensinamento, podemos destacar o cântico de Moisés em Êxodo 15:17, vários Salmos (11:1-7; 20:1-2; 68:5; 102:19-20) e especialmente o livro de Hebreus (Hebreus 8:2, 5; 9:11).

A importância do santuário celestial pode ser organizada em duas questões principais. A primeira diz respeito ao santuário enquanto lugar de auxílio e salvação. O lugar de onde Deus age em favor de seu povo. No sentido cristológico, é o lugar onde Cristo efetua nossa salvação.

Outra questão de importância se refere ao santuário de Deus como destino do seu povo, que irá habitar para sempre com Deus. Essa é uma importante ênfase do final do cântico de Moisés.

Portanto, poderíamos falar do santuário celestial como meio e alvo. Enquanto meio, é o lugar onde a salvação se concretiza. Como alvo, é o lugar onde o povo de Deus viverá para sempre com ele.

Jesus morreu na cruz e isso não é suficiente para a salvação humana, como ensina a Bíblia? A ideia de um serviço de mediação no santuário é um acréscimo à morte de Jesus?

Como resposta para essa questão, é preciso lembrar que a morte de Cristo nas Escrituras é interpretada como sacrifício. A rigor, no mundo romano, a cruz era um instrumento de punição de criminosos, não um sacrifício. Sacrifício é uma linguagem e um conceito da doutrina do santuário. Assim, eu necessito da doutrina do santuário para entender a morte de Cristo na cruz enquanto sacrifício.

Quando eu interpreto a morte de Cristo à luz da doutrina do santuário, o possível problema de se entender a mediação de Cristo no santuário como um acréscimo soteriológico à morte de Cristo deixa de existir. Nos rituais do santuário, não bastava ao adorador sacrificar um animal. Esse sacrifício tem relação com o santuário e com a mediação sacerdotal. Sem o santuário e a mediação sacerdotal, o sacrifício é insuficiente e, até mesmo, incompreensível.

A morte de Cristo é suficiente para a nossa salvação na esfera do sacrifício em si. Sua suficiência é sublinhada pela linguagem bíblica de que esse sacrifício é de uma vez por todas. Mas quando observamos o ritual como um todo, o sacrifício era parte de um complexo maior que envolvia o santuário e trabalho sacerdotal nesse santuário.


Referências:

[1] TIMM, Alberto. O Santuário e as Três Mensagens Angélicas: fatores integrativos no desenvolvimento das doutrinas adventitas, Engenheiro Coelho, SP: Unaspress, 2018, p. 20.

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